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Rotary,
tão simples e tão complexo
istória nos conta que em 23 de fevereiro de 1905, há
mais de um século, nasceu o Rotary. Da inteligência
vivaz e do coração solidário de Paul Harris,
surgiu a idéia de que um grupo formado por homens de negócio
e outros profissionais se reunisse periodicamente para se conhecer
melhor. E que talvez esses homens se ajudassem reciprocamente em
suas atividades.
Paul Harris nasceu logo após o término
da Guerra de Secessão, que entre outras conseqüências
deixou um legado de ressentimentos entre a população
norte-americana. Isso o acompanhou em sua infância, mas não
chegou a influenciá-lo – graças a Abraham Lincoln,
que ao se dar conta do que acontecia nos EUA, tratou de providenciar
uma herança de igualdade entre todos os homens, qualquer
que fosse a sua origem, raça e religião.
Esses conceitos acompanharam Paul Harris e foram
ganhando força à medida que ele se familiarizava com
o mundo do direito. Conseqüentemente, foram fundamentais para
a concepção de sua “idéia” –
aquela que deu origem ao Rotary. No início do século
20 Paul Harris estava em Chicago, àquela época um
dos maiores centros criminosos dos EUA, uma cidade de pessoas inescrupulosas,
delinqüentes e corruptas.
Foi lá que o criador do Rotary instalou
seu escritório de advocacia e cimentou seu prestígio
profissional, guiado pelos conselhos de seu avô paterno, que
lhe havia transmitido o valor da consideração e o
respeito pelos seus semelhantes, descartando toda e qualquer forma
de intolerância, desde a religiosa até a política.
Daí surgiram os seus sonhos e o projeto de criar um clube
de homens de negócio unidos por um sentimento de estima social
e atitudes amistosas. O resto é a história que já
conhecemos, que faz parte de nossas tradições e que
no ano passado completou seus primeiros 100 anos. Simples e complexos
100 anos!
Pessoas
de valor
Por que faço esta afirmação
que parece ser antagônica? Simplesmente porque ela não
é: o Rotary é simples porque não é uma
utopia, nem uma idéia que pode ser entendida de formas diferentes.
Assim somos todos e cada um de nós que atualmente integramos
nossos clubes. Também o são, por suas ações
e sentimentos, aqueles que ainda não ingressaram nas nossas
fileiras e que cumprem suas missões no campo do serviço.
O Rotary compreende também aquelas pessoas
boas que, dentro de suas possibilidades, fazem alguma coisa por
alguém com o intuito de conseguir um mundo melhor para todos.
Gente que acredita que dar é simplesmente dar, sem esperar
recompensas ou reciprocidades, porque é assim que deve ser.
Gente que não dá bens materiais simplesmente por dar,
mas porque isso representa um desprendimento inatingível
para muitos. Gente que se doa em qualquer lugar a que vá,
e a quem quer que seja, presenteando com um bom pensamento, bons
votos, um abraço, uma oportunidade de escutar, uma palavra
de alento ou, simplesmente, um detalhe. Estamos falando daquelas
pessoas que, como dizia Albert Einstein, “procuram ser, mais
que triunfadoras, pessoas de valor”.
Meus amigos, o Rotary é simples como tentei
explicar, mas também é complexo como queremos acreditar,
se admitimos que é complexo tudo que se entrelaça
e se multiplica – exatamente como a obra centenária
de nossa organização.
Agora é hora de definirmos nossas ações
perante uma humanidade exigente, e não porque tenha como
aspiração uma vida de conforto, mas principalmente
porque necessita satisfazer – de forma imperiosa – suas
necessidades básicas.
Coincidindo com os desafios apresentados pela
Unesco para o novo milênio, encontraremos aqueles que nos
convocam, como rotarianos, para enfrentar as crueldades de um mundo
em que a maioria das pessoas manifesta indiferença ou acredita
que nunca será atingida por essa globalização
da pobreza.
Isso é um enorme erro ou muita ignorância,
pois caminhamos inexoravelmente em direção ao surgimento
de uma nova sociedade, com um grupo ainda menor de pessoas tendo
tudo ou quase tudo, e um universo de sofredores que, ao deitar-se
a cada noite, terão dúvidas sobre seu amanhã
imediato, vivendo sem ilusões, sem projetos e sem esperanças,
e que seguirão sobrevivendo somente pelo fato de fazê-lo.
Será que essa vida, assim vivida, é a que se merece
viver?
Os
desafios são nossos
Vocês concordarão comigo que é
por isso que deveremos encarar como pessoais os desafios que temos
pela frente nos próximos 100 anos, destinados a comprometer
esforços em benefício de um mundo melhor, preservando
o valor da vida humana em um marco de paz, progresso, solidariedade
e serviço. Quem mais souber, quem mais tiver e quem mais
puder deverá fazer por todos aqueles que menos sabem, menos
têm e menos podem.
Não será difícil concluir
que deveremos continuar falando de outras etapas para os próximos
anos. Mas elas serão, por acaso, a erradicação
final da poliomielite? O primeiro bilhão de dólares
do Fundo Permanente da Fundação Rotária destinado
ao financiamento de nossos diversos programas? Os bolsistas dos
Centros Rotary de Estudos Internacionais da Paz e Resolução
de Conflitos que, completando seus mestrados, poderão prevenir
e reagir a conflitos de natureza local ou internacional que demandam
o estímulo à democracia, o desenvolvimento e a cooperação
internacional?
Seguramente existirão muitas e transcendentais
etapas cobrindo o caminho que nos levará à última
delas, à mais ansiada de todas: a que nos permitirá
dizer aos nossos irmãos que podemos conviver em um mundo
de paz, habitantes da casa que todos anseiam.
A respeito dessas minhas reflexões sobre
o Rotary, quero recordar uma história:
“Caminhando solitário por uma estrada,
um ancião se viu diante de um grande obstáculo, bastante
perigoso, que ele cruzou na penumbra do crepúsculo sem medo
algum. Entretanto, assim que chegou ao outro lado, ele tratou de
construir uma ponte para tornar mais segura a travessia. Outro peregrino
estranhou aquela atitude e perguntou: ‘Por que o senhor perde
tempo construindo essa ponte se o dia está acabando e você
já cruzou aquele obstáculo?’ Continuando sua
obra, o ancião respondeu: ‘Meu amigo, pelo caminho
que acabo de percorrer vem um jovem que vai passar pelos mesmos
lugares por onde passei. E quando ele chegar aqui já será
noite, e por isso poderá ter dificuldades ou, quem sabe,
sofrer algum acidente. Estou construindo essa ponte para ele’”.
Esse conto descreve com muitíssima precisão
a obra que o Rotary realiza, as razões que a inspiram e sob
as quais nós, rotarianos, devemos assinar. Como o homem da
história acima, cada um de nós deve oferecer ensinamentos,
e não passar todos os anos de sua vida preocupado em colher
louros, mas sim cumprindo com os seus deveres.
E sempre dando o exemplo, pois o importante não
é o alto da montanha, mas o caminho que escolhemos para
chegar lá, demonstrando que, na verdade, quem serve não
é um servente, mas um provedor.
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