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Carlos Enrique Speroni
(Diretor do RI 2005-07)
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Rotary, tão simples e tão complexo

istória nos conta que em 23 de fevereiro de 1905, há mais de um século, nasceu o Rotary. Da inteligência vivaz e do coração solidário de Paul Harris, surgiu a idéia de que um grupo formado por homens de negócio e outros profissionais se reunisse periodicamente para se conhecer melhor. E que talvez esses homens se ajudassem reciprocamente em suas atividades.
   Paul Harris nasceu logo após o término da Guerra de Secessão, que entre outras conseqüências deixou um legado de ressentimentos entre a população norte-americana. Isso o acompanhou em sua infância, mas não chegou a influenciá-lo – graças a Abraham Lincoln, que ao se dar conta do que acontecia nos EUA, tratou de providenciar uma herança de igualdade entre todos os homens, qualquer que fosse a sua origem, raça e religião.
   Esses conceitos acompanharam Paul Harris e foram ganhando força à medida que ele se familiarizava com o mundo do direito. Conseqüentemente, foram fundamentais para a concepção de sua “idéia” – aquela que deu origem ao Rotary. No início do século 20 Paul Harris estava em Chicago, àquela época um dos maiores centros criminosos dos EUA, uma cidade de pessoas inescrupulosas, delinqüentes e corruptas.
   Foi lá que o criador do Rotary instalou seu escritório de advocacia e cimentou seu prestígio profissional, guiado pelos conselhos de seu avô paterno, que lhe havia transmitido o valor da consideração e o respeito pelos seus semelhantes, descartando toda e qualquer forma de intolerância, desde a religiosa até a política. Daí surgiram os seus sonhos e o projeto de criar um clube de homens de negócio unidos por um sentimento de estima social e atitudes amistosas. O resto é a história que já conhecemos, que faz parte de nossas tradições e que no ano passado completou seus primeiros 100 anos. Simples e complexos 100 anos!

   Pessoas de valor
   Por que faço esta afirmação que parece ser antagônica? Simplesmente porque ela não é: o Rotary é simples porque não é uma utopia, nem uma idéia que pode ser entendida de formas diferentes. Assim somos todos e cada um de nós que atualmente integramos nossos clubes. Também o são, por suas ações e sentimentos, aqueles que ainda não ingressaram nas nossas fileiras e que cumprem suas missões no campo do serviço.
   O Rotary compreende também aquelas pessoas boas que, dentro de suas possibilidades, fazem alguma coisa por alguém com o intuito de conseguir um mundo melhor para todos. Gente que acredita que dar é simplesmente dar, sem esperar recompensas ou reciprocidades, porque é assim que deve ser. Gente que não dá bens materiais simplesmente por dar, mas porque isso representa um desprendimento inatingível para muitos. Gente que se doa em qualquer lugar a que vá, e a quem quer que seja, presenteando com um bom pensamento, bons votos, um abraço, uma oportunidade de escutar, uma palavra de alento ou, simplesmente, um detalhe. Estamos falando daquelas pessoas que, como dizia Albert Einstein, “procuram ser, mais que triunfadoras, pessoas de valor”.
   Meus amigos, o Rotary é simples como tentei explicar, mas também é complexo como queremos acreditar, se admitimos que é complexo tudo que se entrelaça e se multiplica – exatamente como a obra centenária de nossa organização.
   Agora é hora de definirmos nossas ações perante uma humanidade exigente, e não porque tenha como aspiração uma vida de conforto, mas principalmente porque necessita satisfazer – de forma imperiosa – suas necessidades básicas.
   Coincidindo com os desafios apresentados pela Unesco para o novo milênio, encontraremos aqueles que nos convocam, como rotarianos, para enfrentar as crueldades de um mundo em que a maioria das pessoas manifesta indiferença ou acredita que nunca será atingida por essa globalização da pobreza.
   Isso é um enorme erro ou muita ignorância, pois caminhamos inexoravelmente em direção ao surgimento de uma nova sociedade, com um grupo ainda menor de pessoas tendo tudo ou quase tudo, e um universo de sofredores que, ao deitar-se a cada noite, terão dúvidas sobre seu amanhã imediato, vivendo sem ilusões, sem projetos e sem esperanças, e que seguirão sobrevivendo somente pelo fato de fazê-lo. Será que essa vida, assim vivida, é a que se merece viver?

   Os desafios são nossos
   Vocês concordarão comigo que é por isso que deveremos encarar como pessoais os desafios que temos pela frente nos próximos 100 anos, destinados a comprometer esforços em benefício de um mundo melhor, preservando o valor da vida humana em um marco de paz, progresso, solidariedade e serviço. Quem mais souber, quem mais tiver e quem mais puder deverá fazer por todos aqueles que menos sabem, menos têm e menos podem.
   Não será difícil concluir que deveremos continuar falando de outras etapas para os próximos anos. Mas elas serão, por acaso, a erradicação final da poliomielite? O primeiro bilhão de dólares do Fundo Permanente da Fundação Rotária destinado ao financiamento de nossos diversos programas? Os bolsistas dos Centros Rotary de Estudos Internacionais da Paz e Resolução de Conflitos que, completando seus mestrados, poderão prevenir e reagir a conflitos de natureza local ou internacional que demandam o estímulo à democracia, o desenvolvimento e a cooperação internacional?
   Seguramente existirão muitas e transcendentais etapas cobrindo o caminho que nos levará à última delas, à mais ansiada de todas: a que nos permitirá dizer aos nossos irmãos que podemos conviver em um mundo de paz, habitantes da casa que todos anseiam.
   A respeito dessas minhas reflexões sobre o Rotary, quero recordar uma história:
   “Caminhando solitário por uma estrada, um ancião se viu diante de um grande obstáculo, bastante perigoso, que ele cruzou na penumbra do crepúsculo sem medo algum. Entretanto, assim que chegou ao outro lado, ele tratou de construir uma ponte para tornar mais segura a travessia. Outro peregrino estranhou aquela atitude e perguntou: ‘Por que o senhor perde tempo construindo essa ponte se o dia está acabando e você já cruzou aquele obstáculo?’ Continuando sua obra, o ancião respondeu: ‘Meu amigo, pelo caminho que acabo de percorrer vem um jovem que vai passar pelos mesmos lugares por onde passei. E quando ele chegar aqui já será noite, e por isso poderá ter dificuldades ou, quem sabe, sofrer algum acidente. Estou construindo essa ponte para ele’”.
   Esse conto descreve com muitíssima precisão a obra que o Rotary realiza, as razões que a inspiram e sob as quais nós, rotarianos, devemos assinar. Como o homem da história acima, cada um de nós deve oferecer ensinamentos, e não passar todos os anos de sua vida preocupado em colher louros, mas sim cumprindo com os seus deveres.
   E sempre dando o exemplo, pois o importante não é o alto da montanha, mas o caminho que escolhemos para chegar lá, demonstrando que, na verdade, quem serve não é um servente, mas um provedor.


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