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Nossa
contribuição para a construção da paz
m um mundo cheio de preconceitos e intolerâncias, muitas vezes
coroadas pelas mais cruéis guerras, e no qual mais da metade
da população, além de analfabeta, sofre com
a fome e com as doenças, os esforços para se obter
a harmonia chegam a ser colossais, e a filosofia do Rotary estará
presente em cada processo de tomada de decisões, facilitando
as vias de cooperação nos âmbitos local, nacional
e internacional, e fomentando o ideal da verdadeira paz –
a missão mais elevada de nossa organização.
Isso nos leva a perguntar: que tipo de paz é
possível entre os homens? Qual é a paz que constrói
e não significa apenas o silenciar das armas ou dos gritos
das vítimas? Que paz é essa tão ansiosamente
esperada neste milênio que há pouco começou
num mundo que ainda não soube resolver as velhas disputas
de seu cotidiano, com homens se despedaçando por pão,
território e, o que é pior, pelo poder?
O Rotary está mostrando essa paz a um mundo
que, entre a ilusão e a desesperança, tem necessidade
de acreditar. O Rotary mostra que essa paz nada mais é que
a tolerância, que a convivência com o diferente, o mesmo
que dar a cada um o que lhe corresponde, protegendo o mais fraco.
E mais: que a paz é uma necessidade e, como tal, somente
será patrimônio da humanidade quando todos compreenderem
que a comunidade é mundial e, conseqüentemente, o mundo
é a nossa vizinhança. Estamos falando de uma grande
vizinhança, nada mais que uma vizinhança com características
similares à que nos abriga diariamente. O Rotary está
mostrando a paz a um mundo que precisa acreditar, como eu disse
anteriormente. E o Rotary sempre fez isso, desde os seus primórdios.
Trabalhando
pela paz
Foi dessa forma que, em 1945, ao ser convidada
para participar da Conferência de São Francisco como
consultora da Delegação Norte-Americana, nossa organização
recebeu a seguinte declaração – por demais significativa
– do secretário de Estado dos EUA: “O convite
feito ao RI para que participasse como consultor da Conferência
das Nações Unidas não foi um simples gesto
de boa vontade e respeito para com uma grande organização
internacional e, sim, o reconhecimento da função prática
que ela desenvolve em prol da compreensão mútua entre
as diversas nações. Por tudo isso, precisávamos
de representantes do Rotary aqui em São Francisco”.
Esse foi apenas o começo de uma etapa transcendente,
pois, a partir desse momento, as Nações Unidas e o
Rotary passaram a compartilhar o mesmo objetivo: a preservação
da paz.
A história registra que, já em 1914
– diante da iminência da guerra – Chesley Perry,
o grande secretário-geral do RI, incitava os rotarianos a
fazerem campanha pela paz. E que, em 1917 – portanto, ainda
em pleno conflito – Arch Klumph propunha a criação
de “uma fundação que fizesse o bem ao mundo”,
distribuindo mensagens pacifistas por intermédio de programas
humanitários e educativos.
O mesmo aconteceu às portas de nossas próprias
casas, aqui na América do Sul. Podemos nos lembrar quando
os rotarianos assumiram o compromisso de ajudar os feridos e prisioneiros
da Guerra do Chaco, entre a Bolívia e o Paraguai, ou quando,
em 1980, o presidente James Bomar evitou o conflito entre chilenos
e argentinos.
Merece ser trazido à lembrança de
todos e à saudade de muitos de nós o pensamento claro
de Paulo Viriato Corrêa da Costa que, no exercício
da presidência do RI, declarou: “Lembro com emoção
e até com justificado orgulho a Conferência Presidencial
da Boa Vontade entre argentinos e chilenos, realizada em Montevidéu,
emoção provocada pelo maravilhoso encontro entre países
que procuravam, por intermédio do Rotary, a paz e a compreensão
entre povos irmãos. Em cada abraço, rotarianos chilenos
e argentinos procuravam eliminar barreiras e estreitar corações.
Tenho muito orgulho de ter sido o presidente desse notável
evento, ao qual dediquei todos os meus esforços e entusiasmo.
Agora, anos depois, vejo que as sementes da paz ali plantadas deram
esplêndidos frutos de harmonia e compreensão”.
Também podemos lembrar a participação
de rotarianos na promoção do entendimento em casos
de disputas de fronteira entre Peru e Equador, entre Grécia
e Turquia, e entre as duas Irlandas, além de outros mais.
Essa é uma menção muito resumida,
com apenas alguns exemplos do muito que já foi feito nesse
primeiro centenário do Rotary. O restante é tarefa
de todos nós.
A
origem dos Crei
Na “The Rotarian” de fevereiro de
1924, Paul Harris afirmava que “o amor é mais poderoso
que o ódio, e se lhe for concedida a metade da promoção
que se dá ao ódio, não haverá mais guerras”.
Vamos partir do princípio de que muitos
conflitos nascem da ignorância e da soma de mal-entendidos
e não apenas da má vontade das partes envolvidas.
Pelo menos o Rotary sempre entendeu a questão dessa forma,
e por isso preocupou-se com a difusão de técnicas
de resolução de conflitos, tais como a negociação
e a mediação, antecipando-se, de forma muito sábia,
aos tempos que estão por vir.
Já em 1981, o presidente McCaffrey pensava
na criação de uma Universidade da Paz, e Rajendra
Saboo, como presidente da Fundação Rotária,
idealizou uma Faculdade de Estudos Internacionais.
Ao completar-se o 50º aniversário
de falecimento de Paul Harris, e sob a liderança do então
presidente Luis Vicente Giay, o Rotary International estudou a possibilidade
de serem criados Centros Paul Harris para Estudos Internacionais
em várias universidades do mundo, nos quais os bolsistas
obteriam, ao final de dois anos, um título de mestre em Relações
Internacionais, Resolução de Conflitos e Estudos sobre
a Paz.
Três anos mais tarde, em 1999, foi aprovado
um plano de colaboração com universidades interessadas
– mais de 100 – para anunciar, na Convenção
de Cingapura, as que haviam sido selecionadas (entre elas a Universidad
del Salvador, em Buenos Aires) para receber os Crei – Centros
Rotary de Estudos Internacionais da Paz e Resolução
de Conflitos. Com a segunda formatura do programa, ocorrida no final
de 2005, um total de 136 alunos já concluiu seu curso nos
Crei. Eles são detentores dos conhecimentos e das técnicas
necessárias para se transformarem em líderes no campo
de sua especialidade, ou seja, da estratégia global para
prever e responder a conflitos de ordem local ou internacional que
demandem o estímulo à democracia, ao desenvolvimento
e à cooperação mundial.
Entre esses formandos, encontramos vários
sul-americanos, apresentados por distritos da Argentina, Brasil,
Colômbia, Chile, Equador e Peru, o que nos enche de orgulho
pela porcentagem relativa à totalidade das bolsas outorgadas
e que vimos repetir, sem notáveis diferenças, nas
seleções posteriores. No entanto, devemos nos preocupar
com um fato: mais da metade dos distritos dos países que
integram o rotarismo sul-americano ainda não apresentou candidatos
para as bolsas. Será que eles entenderam a transcendência
desta oportunidade única para aqueles que estão em
condições de obtê-la?
América
unida
Devemos fazer os maiores esforços para
que as futuras turmas dos Crei incluam bolsistas desses distritos,
e que assim voltemos a ser a nossa América, como fomos para
a erradicação da poliomielite – um exemplo para
o mundo. Por isso, eu lhes peço que não deixem passar
essa oportunidade que, embora se repita periodicamente, nem por
isso deixa de ser única.
Se pudéssemos viajar no túnel do
tempo e nos antecipar em uma década, será que poderíamos
assumir, já hoje, a magnitude da contribuição
que o Rotary terá feito à causa da paz no mundo quando
pudermos contar com as centenas de líderes singularmente
capacitados nos Crei para a prestação de serviços
na empreitada de estabelecer e manter essa paz como base de um verdadeiro
progresso e de uma real prosperidade?
Como já afirmei anteriormente, a paz é
construída quando damos a cada um a possibilidade de viver
dignamente e, nesse sentido, os esforços do Rotary têm
sido sempre enormes. Nossa organização jamais acreditou
em fronteiras. Ou melhor: nunca as levou em conta porque a ética,
a atitude amistosa, a tolerância, a solidariedade e as lealdades
jamais conheceram fronteiras, e porque nunca houve fronteiras para
a abnegação, nem para a compreensão entre os
povos.
Felizmente, a mensagem de Paul Harris e de tantos
outros ilustres pensadores que lhe sucederam deu origem a rotarianos
justos e íntegros, felizes integrantes desse enorme país
do serviço que é o Rotary, o mesmo em que vivemos,
que desfrutamos e que sentimos profundamente. O mesmo que nos convoca
a viver permanentemente uma ilusão: a que nos permite desfrutar
do trabalho como tema, e da excelência do serviço como
lema.
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