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Carlos Enrique Speroni
(Diretor do RI 2005-07)
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Nossa contribuição para a construção da paz

m um mundo cheio de preconceitos e intolerâncias, muitas vezes coroadas pelas mais cruéis guerras, e no qual mais da metade da população, além de analfabeta, sofre com a fome e com as doenças, os esforços para se obter a harmonia chegam a ser colossais, e a filosofia do Rotary estará presente em cada processo de tomada de decisões, facilitando as vias de cooperação nos âmbitos local, nacional e internacional, e fomentando o ideal da verdadeira paz – a missão mais elevada de nossa organização.
   Isso nos leva a perguntar: que tipo de paz é possível entre os homens? Qual é a paz que constrói e não significa apenas o silenciar das armas ou dos gritos das vítimas? Que paz é essa tão ansiosamente esperada neste milênio que há pouco começou num mundo que ainda não soube resolver as velhas disputas de seu cotidiano, com homens se despedaçando por pão, território e, o que é pior, pelo poder?
   O Rotary está mostrando essa paz a um mundo que, entre a ilusão e a desesperança, tem necessidade de acreditar. O Rotary mostra que essa paz nada mais é que a tolerância, que a convivência com o diferente, o mesmo que dar a cada um o que lhe corresponde, protegendo o mais fraco. E mais: que a paz é uma necessidade e, como tal, somente será patrimônio da humanidade quando todos compreenderem que a comunidade é mundial e, conseqüentemente, o mundo é a nossa vizinhança. Estamos falando de uma grande vizinhança, nada mais que uma vizinhança com características similares à que nos abriga diariamente. O Rotary está mostrando a paz a um mundo que precisa acreditar, como eu disse anteriormente. E o Rotary sempre fez isso, desde os seus primórdios.

   Trabalhando pela paz
   Foi dessa forma que, em 1945, ao ser convidada para participar da Conferência de São Francisco como consultora da Delegação Norte-Americana, nossa organização recebeu a seguinte declaração – por demais significativa – do secretário de Estado dos EUA: “O convite feito ao RI para que participasse como consultor da Conferência das Nações Unidas não foi um simples gesto de boa vontade e respeito para com uma grande organização internacional e, sim, o reconhecimento da função prática que ela desenvolve em prol da compreensão mútua entre as diversas nações. Por tudo isso, precisávamos de representantes do Rotary aqui em São Francisco”.
   Esse foi apenas o começo de uma etapa transcendente, pois, a partir desse momento, as Nações Unidas e o Rotary passaram a compartilhar o mesmo objetivo: a preservação da paz.
   A história registra que, já em 1914 – diante da iminência da guerra – Chesley Perry, o grande secretário-geral do RI, incitava os rotarianos a fazerem campanha pela paz. E que, em 1917 – portanto, ainda em pleno conflito – Arch Klumph propunha a criação de “uma fundação que fizesse o bem ao mundo”, distribuindo mensagens pacifistas por intermédio de programas humanitários e educativos.
   O mesmo aconteceu às portas de nossas próprias casas, aqui na América do Sul. Podemos nos lembrar quando os rotarianos assumiram o compromisso de ajudar os feridos e prisioneiros da Guerra do Chaco, entre a Bolívia e o Paraguai, ou quando, em 1980, o presidente James Bomar evitou o conflito entre chilenos e argentinos.
   Merece ser trazido à lembrança de todos e à saudade de muitos de nós o pensamento claro de Paulo Viriato Corrêa da Costa que, no exercício da presidência do RI, declarou: “Lembro com emoção e até com justificado orgulho a Conferência Presidencial da Boa Vontade entre argentinos e chilenos, realizada em Montevidéu, emoção provocada pelo maravilhoso encontro entre países que procuravam, por intermédio do Rotary, a paz e a compreensão entre povos irmãos. Em cada abraço, rotarianos chilenos e argentinos procuravam eliminar barreiras e estreitar corações. Tenho muito orgulho de ter sido o presidente desse notável evento, ao qual dediquei todos os meus esforços e entusiasmo. Agora, anos depois, vejo que as sementes da paz ali plantadas deram esplêndidos frutos de harmonia e compreensão”.
   Também podemos lembrar a participação de rotarianos na promoção do entendimento em casos de disputas de fronteira entre Peru e Equador, entre Grécia e Turquia, e entre as duas Irlandas, além de outros mais.
   Essa é uma menção muito resumida, com apenas alguns exemplos do muito que já foi feito nesse primeiro centenário do Rotary. O restante é tarefa de todos nós.

   A origem dos Crei
   Na “The Rotarian” de fevereiro de 1924, Paul Harris afirmava que “o amor é mais poderoso que o ódio, e se lhe for concedida a metade da promoção que se dá ao ódio, não haverá mais guerras”.
   Vamos partir do princípio de que muitos conflitos nascem da ignorância e da soma de mal-entendidos e não apenas da má vontade das partes envolvidas. Pelo menos o Rotary sempre entendeu a questão dessa forma, e por isso preocupou-se com a difusão de técnicas de resolução de conflitos, tais como a negociação e a mediação, antecipando-se, de forma muito sábia, aos tempos que estão por vir.
   Já em 1981, o presidente McCaffrey pensava na criação de uma Universidade da Paz, e Rajendra Saboo, como presidente da Fundação Rotária, idealizou uma Faculdade de Estudos Internacionais.
   Ao completar-se o 50º aniversário de falecimento de Paul Harris, e sob a liderança do então presidente Luis Vicente Giay, o Rotary International estudou a possibilidade de serem criados Centros Paul Harris para Estudos Internacionais em várias universidades do mundo, nos quais os bolsistas obteriam, ao final de dois anos, um título de mestre em Relações Internacionais, Resolução de Conflitos e Estudos sobre a Paz.
   Três anos mais tarde, em 1999, foi aprovado um plano de colaboração com universidades interessadas – mais de 100 – para anunciar, na Convenção de Cingapura, as que haviam sido selecionadas (entre elas a Universidad del Salvador, em Buenos Aires) para receber os Crei – Centros Rotary de Estudos Internacionais da Paz e Resolução de Conflitos. Com a segunda formatura do programa, ocorrida no final de 2005, um total de 136 alunos já concluiu seu curso nos Crei. Eles são detentores dos conhecimentos e das técnicas necessárias para se transformarem em líderes no campo de sua especialidade, ou seja, da estratégia global para prever e responder a conflitos de ordem local ou internacional que demandem o estímulo à democracia, ao desenvolvimento e à cooperação mundial.
   Entre esses formandos, encontramos vários sul-americanos, apresentados por distritos da Argentina, Brasil, Colômbia, Chile, Equador e Peru, o que nos enche de orgulho pela porcentagem relativa à totalidade das bolsas outorgadas e que vimos repetir, sem notáveis diferenças, nas seleções posteriores. No entanto, devemos nos preocupar com um fato: mais da metade dos distritos dos países que integram o rotarismo sul-americano ainda não apresentou candidatos para as bolsas. Será que eles entenderam a transcendência desta oportunidade única para aqueles que estão em condições de obtê-la?

   América unida
   Devemos fazer os maiores esforços para que as futuras turmas dos Crei incluam bolsistas desses distritos, e que assim voltemos a ser a nossa América, como fomos para a erradicação da poliomielite – um exemplo para o mundo. Por isso, eu lhes peço que não deixem passar essa oportunidade que, embora se repita periodicamente, nem por isso deixa de ser única.
   Se pudéssemos viajar no túnel do tempo e nos antecipar em uma década, será que poderíamos assumir, já hoje, a magnitude da contribuição que o Rotary terá feito à causa da paz no mundo quando pudermos contar com as centenas de líderes singularmente capacitados nos Crei para a prestação de serviços na empreitada de estabelecer e manter essa paz como base de um verdadeiro progresso e de uma real prosperidade?
   Como já afirmei anteriormente, a paz é construída quando damos a cada um a possibilidade de viver dignamente e, nesse sentido, os esforços do Rotary têm sido sempre enormes. Nossa organização jamais acreditou em fronteiras. Ou melhor: nunca as levou em conta porque a ética, a atitude amistosa, a tolerância, a solidariedade e as lealdades jamais conheceram fronteiras, e porque nunca houve fronteiras para a abnegação, nem para a compreensão entre os povos.
   Felizmente, a mensagem de Paul Harris e de tantos outros ilustres pensadores que lhe sucederam deu origem a rotarianos justos e íntegros, felizes integrantes desse enorme país do serviço que é o Rotary, o mesmo em que vivemos, que desfrutamos e que sentimos profundamente. O mesmo que nos convoca a viver permanentemente uma ilusão: a que nos permite desfrutar do trabalho como tema, e da excelência do serviço como lema.


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