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Carlos Enrique Speroni
(Diretor do RI 2005-07)
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O Permanente desafio de crescer

o longo dos anos, poucos temas – ou praticamente nenhum outro, me atrevo a dizer – têm sido alvo de tantas opiniões e conseguido tanto espaço nos veículos de comunicação rotária como o crescimento de nossa organização. Nos últimos anos, porém, com a esperança do crescimento se desvanecendo diante das realidades do cotidiano, esse debate foi intensificado.
   Permitam-me fazer uma breve referência a alguns números que são, por si sós, muito ilustrativos. Em 1935, ao completarmos 30 anos de história, tínhamos 153 mil associados e 3.350 clubes. A partir de então, os registros foram os seguintes:

  • Em 30 de junho de 1945,
               5.441 clubes e 247.713 associados;
  • Em 30 de junho de 1960,
               10.701 clubes e 498.616 associados;
  • Em 30 de junho de 1975,
               16.520 clubes e 779.373 associados;
  • Em 30 de junho de 1990,
               25.128 clubes e 1.121.230 associados;
  • Em 30 de junho de 1995,
               27.446 clubes e 1.170.936 associados.

   No ano rotário de 1996-97, durante a presidência de Luis Vicente Giay, chegamos a ter 28.736 clubes e 1.213.748 sócios, ou seja: os maiores índices registrados até então. A partir dessa data, e até 30 de junho de 2001, tínhamos 30.149 clubes e 1.188.492 associados. Havíamos decrescido em número de sócios, mas não em número de clubes, o que fez com que o problema se concentrasse, perigosamente, na falta de retenção, e não na extensão. Esta, pelo contrário, aumentou em conseqüência da criação de mais clubes com freqüência mista e de Novas Gerações.
   Em julho de 2001, foi lançada a Iniciativa Mundial, cujos objetivos eram a criação de três novos clubes por distrito e um aumento mínimo anual de cinco sócios por clube, sem levar em consideração o tamanho desses clubes. A meta era aumentar em 15% o número de sócios e em 4% o número de clubes.
   A realidade, no entanto, foi outra: em 30 de junho de 2002, ao finalizarmos o ano rotário de 2001-02, os registros indicavam a existência de 31.256 clubes com 1.243.431 associados, o que representou um crescimento de clubes e de sócios, respectivamente, de 3,6% e 4,6%. Ou seja: estávamos abaixo da meta, mas havíamos crescido.

   A América Latina
   Os anos seguintes, até 2005, ofereceram o seguinte panorama: em 30 de junho de 2003, não houve grande mudança, uma vez que, com 31.561 clubes e 1.227.545 rotarianos, perdemos 1% dos associados e ganhamos 1% na quantidade de clubes, tendências que se mantiveram até 30 de junho de 2004, com 31.936 clubes e 1.219.532 rotarianos. Em 30 de junho de 2005, estávamos com 32.403 clubes e 1.221.920 sócios, mostrando que as variações não foram significativas.
   As cifras são tão claras que, lamentavelmente, abrem um caminho óbvio a outro comentário. Enquanto a média mundial de associados por clube é de 36, na América do Norte é de 50; na Europa, 43; e na Ásia, 36. A lista se encerra com os latino-americanos, com uma média de apenas 21 sócios por clube, atrás da África, com 26.
   Os distritos argentinos e os compartilhados com o Uruguai e o Paraguai atingem uma média de apenas 17 sócios por clube, inferior à da América Latina. O Brasil, com 50.165 rotarianos e 2.281 clubes, atinge a média de 22 sócios por clube, seguido de perto pelo Equador – país que possui um único distrito e 56 clubes – com uma média de 24. Os demais países latino-americanos registram médias ainda menores, que na sua maioria se aproximam dos 18 ou 19 sócios por clube.
   Atualmente, todos ou a maior parte dos distritos da Argentina, Bolívia, Colômbia, Peru e Venezuela se encontram diante do grave dilema – de acordo com as propostas do Plano 1 de Crescimento – de crescer ou admitir a consolidação com alguns de seus vizinhos. Embora nos doa, concordamos com José Martí, herói da independência cubana, que disse: “A verdade é para ser dita e não para ser ocultada”.
   E a verdade é que, à exceção dos distritos 4320 e 4340 (Chile), 4400 (Equador), 4910 e 4920 (Argentina), assim como o 4880 e o 4960, da Argentina e de parte do Uruguai, que se consolidaram formando o distrito 4940, todos os demais têm prazos limitados para apresentarem um crescimento significativo ou consolidarem-se com alguns dos seus vizinhos. O Brasil merece uma consideração especial, uma vez que somente dois dos seus 38 distritos estão na situação a que me referi anteriormente.
   A aplicação rigorosa dessa exigência pode reduzir à metade a maioria dos distritos mencionados, com todas as conseqüências da relativa perda de representação perante os Conselhos de Legislação, e também no que se refere à designação de diretores do Rotary International.
   Cabe então a pergunta: o que fazer para crescer? Esse é um esforço necessário porque precisamos compreender que a consolidação de um novo mapa rotário não nos exime do compromisso de melhorarmos a posição do rotarismo latino-americano em comparação às médias mundiais.

   Um caminho
   Podemos encontrar um caminho na citação de John Adams, que foi presidente dos EUA: “Em todo o mundo só existem duas classes de pessoas que contam: as que contraem compromissos e as que os cumprem”. Se é mesmo assim – pelo menos deveria ser – teríamos chegado ao momento de deixarmos de nos perguntar “O que fazer para crescer?”, porque estaríamos demonstrando, a nós mesmos e aos demais, que assumimos a premissa de que nossa responsabilidade é grande, por entendermos que o Rotary não é uma instituição apenas com fins sociais, nem recreativa ou, muito menos ainda, um agrupamento de amigos ou conhecidos.
   O Rotary é muito mais que isso, e é exatamente por esse motivo que não podemos incorporar pessoas que não estejam qualificadas desde o aspecto moral até os pontos de vista profissional ou empresarial, e que é o mesmo que citar a antiga definição do Direito Romano para a busca do arquétipo bon pater familiae, ou seja, o bom pai de família. Estaríamos muito equivocados – e, de fato, temos nos equivocado muito – se encarássemos o crescimento do Rotary como um fato matemático, ignorando o necessário melhoramento qualitativo. Somente este – e nenhum outro – se refletirá como conseqüência natural geradora de um processo genuíno, localizado dentro das premissas do Decálogo do Crescimento que, em seu devido momento, assinalou o caminho por inspiração do EPRI Luis Vicente Giay.
   Permitam-me concluir relembrando parte de um artigo que li, há muito tempo, em uma revista do antigo distrito 113: “No alto dos Alpes Suíços, uma pequena aldeia conservava uma pequena jóia: a sua igreja. Quando se aproximava a hora do serviço religioso, ao entardecer, os moradores saíam de suas casas levando uma lamparina. No começo, podia-se ver apenas um fraco resplendor na escuridão, mas à medida que os fiéis iam chegando, a luz aumentava até que a igreja se punha resplandecente porque cada um deles fazia o possível para espantar as trevas”.
   É exatamente isso o que se passa no Rotary: começamos como uma luz pequena que foi se intensificando com o passar dos anos. Alguns de nós carregam pequenas lamparinas, outros levam lamparinas mais fortes. Mas o que necessitamos é de tantas lamparinas quantas sejam possíveis para que, quando as juntemos, sua luz possa iluminar o mundo. E o mundo que nos acolhe necessita, e muito, dessa luz: a luz do coração, a luz das preces, a luz da amizade, a luz da compreensão, a luz da boa vontade, a luz das lealdades, a luz da ajuda aos nossos semelhantes.
   Se todas essas luzes realmente nos acompanharem, é provável que esses simples pensamentos – que servem para expor a triste realidade que nos rodeia – passem a formar parte daquelas lembranças que, por não poderem se apagar devido à sua gravidade, acabam demonstrando a nós mesmos e aos demais que são apenas recordações – e que também servem para que, quando mais maduros, não tornemos a cometer os erros que nos levaram a transformá-los em preocupações, felizmente de outros tempos já passados.


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