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Carlos Enrique Speroni
(Diretor do RI 2005-07)
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Fazendo um balanço

o momento em que atravessamos o 101º ano de história do Rotary – e chegamos à segunda metade deste novo ano do século 21 – a América Latina continua vivendo os mesmos sérios dramas (ou ainda piores) que sempre atingiram nossa região:

  •  Uma importante dívida externa
  •  O fato de metade de sua população viver em estado de pobreza crítica
  •  O acelerado aumento do número de nascimentos, o que poderá se tornar uma das maiores incógnitas da região, provocada pelo aumento das doenças de origem sexual
  •  O crescimento do narcotráfico, que destrói povos inteiros

   Conseqüentemente, a triste sina de ser criança, mulher ou idoso nessas condições tem os mesmos aspectos trágicos de um naufrágio. Na América Latina, um quarto da população – formada por jovens com a idade dos nossos interactianos e rotaractianos – vive com um estigma: uma grande e assustadora porcentagem desses jovens não vai encontrar vagas nas escolas secundárias, trabalho, nem poderá fazer muita coisa que os permita romper as abomináveis cadeias do subdesenvolvimento.
   Se estendermos nosso olhar para os outros continentes, vamos reconhecer que o mundo – fustigado por lutas e injustiças – não oferece um panorama muito melhor. Milhões de seres humanos sofrem com a fome, e milhões de crianças morrem por causa desse flagelo.
   As guerras continuam – e o que é pior: causadas por interesses obscuros.
   Com isso, quero apenas recordar os detalhes dessa dolorosa realidade contra a qual lutam muitos governos, enquanto outros a dissimulam, permitindo que a maior parte dos meios de comunicação lucre com essa situação, destinando as primeiras páginas das publicações a esses problemas – porque “as boas notícias não são notícias”.
   Foi nesse contexto que o Rotary completou o Centenário. Foram 100 anos de êxito que permitiram – e seguem permitindo – à nossa organização lançar uma ampla gama de projetos em todos os campos das atividades humanas, buscando motivar, educar, realçar a criatividade e despertar o interesse não apenas pela cultura, a arte e a ciência, mas também pela saúde, pelo desenvolvimento e a vida. Todos esses fatos nos levam a refletir sobre o papel que cabe a nós, rotarianos, em relação ao avanço, o progresso e o futuro da nossa organização.

   Crescimento
   O Rotary acaba de completar seu primeiro centenário, e está preparado para o segundo, com feitos transcendentes, que indicam que a obra a que nos propomos não é uma tarefa para gigantes, mas para homens e mulheres como nós, que se dão ao trabalho de mostrar que os grandes empreendimentos são possíveis quando nos comprometemos a realizá-los. Não existe barreira que não possa ser saltada, nem obstáculo que possa frear a engenhosidade humana. No entanto, para que isso aconteça, precisamos crescer.
   Nesse sentido, a América Latina deve fazer um grande esforço para que o número de sócios por clube pelo menos duplique para chegarmos à média mundial de 37 sócios. É importante sabermos que, entre junho de 1995 e maio de 2006, a quantidade de associados na América Latina diminuiu 1%, enquanto que, em todo o mundo, perdemos quase 50 mil sócios – ou seja, um pouco mais de 4%. E isso se refere a apenas uma década.
   No entanto, a firme decisão do presidente Carl Wilhelm-Stenhammar fez com que o Conselho Diretor aprovasse as cartas constitutivas dos clubes provisionais de Xangai e Pequim, possibilitando que o Rotary se estendesse até a China. Além disso, ocorreram o reagrupamento dos clubes do Kosovo dentro de um mesmo distrito – juntamente com Bulgária, Macedônia, Sérvia, Montenegro e parte da Grécia – e a criação do distrito 4220, no Oeste da Rússia, permitindo que mais um distrito completo fosse incorporado ao Rotary International. O processo de expansão também foi levado ao Vietnã, proporcionando a formação de dois clubes que integram o distrito formado pela Tailândia e pelo Camboja.
   Todas essas informações nos oferecem um panorama ambicioso, sério e alentador, e nos obrigam a duplicar os esforços para que a nossa região alcance os padrões que nunca deveria ter perdido.
   Metas importantes foram estabelecidas para este ano. Uma delas procura fazer com que os nossos compromissos com a Fundação Rotária sejam honrados, desde o apoio ao fortalecimento de seu Fundo Permanente até a doação anual individual de US$ 100 – ou a quantia que estiver dentro das possibilidades de cada rotariano. Mas tão importante quanto isso é que cada companheiro saiba motivar a sua comunidade para o uso de seus programas. Dessa maneira, poderemos postular mais projetos de subsídios, mais equipes de voluntários e mais bolsistas (cada vez mais bem escolhidos).
   As bolsas para os Crei – Centros Rotary de Estudos Internacionais da Paz e Resolução de Conflitos – são uma excepcional oportunidade para pessoas interessadas nessa área. Embora as bolsas destinadas aos distritos latino-americanos não tenham sido poucas, devemos reconhecer que os resultados poderiam ser melhores se as propostas também tivessem sido melhores e em maior número. Devemos redobrar os esforços e multiplicar a divulgação dos Crei, já que todos os anos são distribuídas 60 dessas excelentes bolsas financiadas pela Fundação Rotária para aproximadamente 160 candidatos.
   Poderia falar muito mais sobre a nossa Fundação Rotária – e digo nossa porque é assim que devemos entendê-la e apoiá-la, para conseguirmos utilizar melhor os seus programas. Não quero e nem devo deixar de lembrar nossa épica luta contra a poliomielite, cujo primeiro episódio remonta a 1919, quando Paul Harris criou os Comitês Especiais de Reabilitação por ocasião da epidemia ocorrida em Nova York três anos antes, e que teve prosseguimento em 1979, nas Filipinas, quando – através de um Projeto 3H – foram destinados US$ 700 mil para serem utilizados na imunização de mais de 6 milhões de crianças.
   Porém, não devemos esquecer que o Desafio de Erradicar a Poliomielite – lançado através de uma aliança entre o Unicef, a OMS e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças de Atlanta, nos EUA – terá sempre no nosso presidente 1984-85, o mexicano Carlos Canseco, seu grande impulsor e permanente motivador. Com toda certeza, o melhor prêmio que Canseco recebeu em vida foi o nosso sincero agradecimento pelo fato de nossos filhos não terem sido vítimas da paralisia infantil – e nossos netos também não serão. Nada menos que isso, considerando-se que aqueles 1.000 casos diários da doença que eram registrados há 20 anos diminuíram para menos de dois casos por dia.

   Os próximos anos
   A adoção do lema Dar de Si Antes de Pensar em Si deve nos motivar a uma séria e profunda reflexão sobre seu significado e a sua proposta. O importante papel que desempenham as organizações de serviço em todo o mundo é fundamental para a sociedade atual, demasiadamente carente e necessitada. Em alguns casos, essas organizações – inclusive o Rotary – têm suas possibilidades e realidades bastante limitadas. É por esse motivo que nosso comprometimento aumentará muito se entendermos que a chave do nosso trabalho está na colaboração e na continuidade.
   A parceria entre a sociedade, o setor privado e outras organizações de serviço deu ao Rotary a evidência clara de seu acerto diante da luta contra a poliomielite. Esse resultado levou nossa organização a ser tomada como referência por outras ONGs, que têm solicitado a colaboração dos rotarianos. Por que então não pensar que esse fato poderá servir de modelo e ser aplicado em nossos clubes, potencializando seus programas?
   Grandes temas como saúde, nutrição, alfabetização e recursos hídricos não se esgotam em uma única gestão. Daí a necessidade da continuidade: se fosse tão simples encontrar uma solução para essas questões, os bons resultados também seriam alcançados rapidamente. Vivemos nossas vidas dia a dia, assim como nossos projetos são edificados peça por peça. Alimentamos nossas ilusões sustentados pela continuidade responsável que orienta nossas vidas.
   A massificação do ser humano e seu crescente individualismo são dois dos grandes problemas espirituais que o mundo de hoje enfrenta. São dois perigos distintos que tendem a romper nosso ideal rotário de atitude amistosa e de serviço. Quando o homem se sente imerso em uma grande multidão, impossibilitado de optar por seus gostos, interesses, costumes e realidades, ele perde seu sentido espiritual e se deixa levar pelo grupo. Porém, como resposta a essa massificação, o homem busca sua individualidade, e com isso se encerra em suas preocupações, se torna comodista e egoísta, e chega a se esquecer do mundo que o rodeia.
   Isso deve preocupar os rotarianos, uma vez que o sentido da amizade e da solidariedade só prospera entre as pessoas se cada um der de si antes de pensar em si, em benefício dos demais, no fortalecimento de seus ideais e objetivos.
   Atravessaremos assim este século 21 e os próximos: como uma força espiritual poderosa e incontrolável. Deveremos alimentá-la com mais e melhores sócios, com melhor conhecimento dos nossos programas e com mais comprometimento.
   Mais uma vez, afirmo que as pessoas se dividem em duas classes: as que fazem as coisas e as que vivem as glórias. Espero que nós, rotarianos, façamos as duas, demonstrando que podemos fazer as coisas e, além disso, compartilhar os sucessos.
   Para que seja assim, fixemos nosso olhar no exemplo dos mais antigos, aqueles que fizeram com que os nossos distritos fossem grandes, e sigamos seus caminhos.


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