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Carlos Enrique Speroni
(Diretor do RI 2005-07)
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Do Rotary que temos ao
Rotary que gostaríamos de ter

história nos mostra que 1905 foi um ano de acontecimentos relevantes para a humanidade, em que surgiram teorias e doutrinas que deixariam marcas profundas e representaram grandes mudanças:
• O nascimento da psicanálise, fundada pelo neurologista vienense Sigmund Freud, e que – assim como os então recém-descobertos raios-X permitiram olhar para dentro dos corpos – fez com que as mentes se abrissem, modificando a paisagem cultural e psicológica do mundo moderno.
• A teoria da relatividade, de Albert Einstein – que veio modificar a lei da gravidade, de Newton – segundo a qual o tempo não é uma coisa absoluta, nem seu curso é sempre o mesmo.
• O surgimento das primeiras manifestações comunistas na Rússia, inspiradas pelo marxismo, do filósofo e economista alemão Karl Marx.

   Todas essas idéias nasceram, cresceram – modificando-se ou desaparecendo – ou cederam seus lugares a outras. O ano de 1905 também apresentou outro fato relevante, como resultado de uma grande idéia: em 23 de fevereiro, o advogado norte-americano Paul Percy Harris – que não foi um homem genial, como ele mesmo confessou com modéstia, mas que teve uma idéia genial – compartilhou com três amigos um pensamento. Era o nascimento do Rotary, hoje presente em quase 170 países, e cuja chegada aos seis continentes foi se desenvolvendo ao longo do século 20:

1905, na América: fundação do Rotary Club de Chicago, nos EUA
1911, na Europa: chegada do Rotary a Dublin, na Irlanda
1919, na Ásia: chegada do Rotary a Manila, nas Filipinas
1921, na África e na Oceania: o Rotary é fundado em Johannesburgo, na África do Sul, e em Melbourne, na Austrália
1997, na Antártida: fundação de um RC em Base Marambio

   Dentro de algum tempo, virão mais países – cujos estudos de extensão já estão em processo de desenvolvimento – o que fará com que o Rotary esteja presente em quase todo o mundo.
   Felizmente, aquela idéia de Paul Harris, já centenária, não teve a mesma sorte das teorias e doutrinas a que me referi no começo do texto. Ao contrário: com o decorrer do tempo, o rotarismo foi se consolidando, convertendo-se na realidade que todos conhecemos e aceitamos, e na qual encontramos muitas realidades e esperanças, assim como alguns desafios.

   Trajetória de sucessos
   Entre as realidades, devemos reconhecer a universalidade e a amplitude dos programas rotários, que apresentam novos horizontes a quem os solicitou, e que encontram inspiração e soluções para questões diversas, dentre as quais se destacam:

o apoio às crianças em situação de risco
ajuda a pessoas com necessidades especiais
a luta contra a fome e a pobreza
o combate ao analfabetismo, não se limitando apenas a ensinar a ler e escrever, mas também – e muito importante – a tratar da inclusão no competitivo mundo tecnológico
a explosão demográfica
a preservação do meio ambiente
e a atenção às novas gerações.

   Considerando-se que é nos nossos clubes que encontramos a essência da família rotária, deveremos fomentar ainda mais essa atmosfera de calor, atenção e interesse pelos nossos semelhantes, o que não supõe necessariamente que envolvamos nossos familiares, a não ser que nossos clubes se manifestem perante as comunidades que integram como unidades familiares fortes e eficazes.
   A consolidação da Fundação Rotária é outro sucesso dessa trajetória – e sem dúvida, o mais significativo – constituindo-se na base do nosso desenvolvimento, devido ao seu potencial de converter o mundo em um lugar melhor para se viver, dentro de um ambiente de paz e compreensão.
   Entre as esperanças, adquire relevância (por sua própria transcendência) o desejo de se alcançar um mundo sem poliomielite. A visão iluminada do Herói da Saúde Pública das Américas, e então presidente do RI, Carlos Canseco Gonzalez, consolidou um projeto (nascido algum tempo antes) que demandou e seguirá demandando ainda muito dinheiro – e, mais do que isso, esforços muito vigorosos da família rotária para que as crianças de todo o mundo possam ficar livres de um mal que as converte em vítimas inocentes de um cruel flagelo.
   “Adeus pólio, obrigado Rotary” será a emocionada e agradecida expressão de todos quando essa meta for cumprida, o ponto final de um pesadelo e o nascimento de uma visão confiante: a de milhões de crianças livres de próteses e aparelhos ortopédicos, deformações e incapacitações físicas.
   Sem dúvida, também se constituem em esperanças o apoio que devem receber as novas gerações, com as quais devemos assumir o compromisso de empreender projetos que tratem de suas necessidades fundamentais: saúde, valores humanos, educação e desenvolvimento pessoal. Dessa mesma forma pode ser visto o fato de o Fundo Permanente da Fundação Rotária (que garante a viabilidade da entidade) ter alcançado o primeiro bilhão de dólares. Assim, poderemos atender as metas ambiciosas e vitais que ainda não foram satisfeitas em muitos lugares deste mundo – que clamam por elas, mas não as obtêm de seus governos.

   O grande desafio
   O nosso maior desafio continua sendo o crescimento, para o qual deveremos retomar os caminhos abandonados por nossa indiferença ou despreocupação, buscando as pessoas que disponham das qualificações apropriadas. Não sejamos elitistas, e sim seletivos. Tratemos de encontrar dirigentes capazes, tolerantes, solidários, sensatos ou, resumindo, boas pessoas.
   Será que essa é uma tarefa impossível? Certamente não. Um silencioso rotariano disse com muito acerto: “A fortaleza dos nossos clubes não vai depender de programas de crescimento que se apresentem como eficazes, de campanhas de publicidade, planos-pilotos que tenham obtido êxito em outros cenários ou mesmo de uma boa dose de sorte. Nossos clubes serão fortes quando entendermos que devemos utilizar toda a nossa capacidade pessoal para convencer outros líderes de que é bom ser rotariano – e, conseqüentemente, nos esforçarmos para que assim seja”.
   Se neste momento questionássemos o que falta ao Rotary para que ele se torne o Rotary que nós gostaríamos de ter, será que não encontraríamos uma resposta ao aceitarmos o desafio de que falei anteriormente? Admitindo que o preço da grandeza é a responsabilidade, nossa grandeza – aquele Rotary que desejaríamos ter e que não está tão longe daquele que temos – nos pede quantidades sensatas de responsabilidade, as mesmas que diariamente usamos em nossos afetos, trabalhos e vocações.
   São também as mesmas que nós assumimos naquele dia, tão caro para nossas recordações, em que nosso padrinho nos apresentou a este mundo mágico do Rotary, com a secreta ilusão de que havíamos compreendido sua mensagem e nela basearíamos a nossa atuação.


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