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Carlos Enrique Speroni
(Diretor do RI 2005-07)
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Depois de 60 anos, continuemos
renovando nossos compromissos

m janeiro, passaram-se 60 anos desde que Paul Harris deixou este mundo. Como expressaria em sua fé, podemos dizer que ele voltou para o Pai. Muitos acham que não se deve relembrar o momento da partida de uma pessoa, mas sim a sua chegada. Nós o relembramos por um motivo muito especial: quando Paul Harris morreu, o Rotary já havia alcançado um desenvolvimento enorme. O que a princípio tinha sido um grupo formado por quatro homens que buscavam ajudar-se – e defender-se melhor de uma cidade hostil – tinha se transformado em um conjunto de 6.000 clubes localizados em muitos países, com 300 mil membros e uma trajetória extensa. Os rotarianos daquela época sentiam que estavam amparados por seu pai, em situação confortável e segura, até que este lhes faltou.
   Essa situação levou ao amadurecimento, ao crescimento e à compreensão de que, a partir de um determinado momento, todo homem é pai de si mesmo, e que o mesmo acontece com as instituições. E o mesmo fator que provocou essa circunstância – ou seja, a renovação de nossos sentimentos e nosso maior empenho – é o que hoje, seis décadas depois, desejamos que se multiplique.
   Relembramos a morte de Paul Harris porque esperamos que se repita o florescimento das propostas, que as vontades sejam reforçadas, a consciência mais comprometida, a visão mais aguçada e a ação mais aprofundada. Não podemos fazer outra coisa. Já transitamos por todas as Avenidas de Serviço e em todas as direções. Além disso, o complexo mundo deste terceiro milênio exige-nos muito mais, muitíssimo mais que antes. E isso é o que também queremos que aconteça.
   É paradoxal o fato de que, justamente quando o mundo está mais açoitado por guerras, dores, agravos e rancores, o homem busque e consiga ser mais e mais leve, exatamente da forma como descreve Enrique Rojas em seu livro “El Hombre Light” (O Homem Light, em espanhol). Trata-se do homem saturado de bem-estar, do reino da imagem e da aparência, do homem “amortecido em seu conteúdo”, como diz Rojas, e basicamente indiferente. Nada sobre a Terra consegue comovê-lo, emocioná-lo ou preocupá-lo a não ser seu próprio ego.
   Palavras como solidariedade, sacrifício e serviço são tão estranhas ao linguajar desse homem quanto o grito profundo das vítimas das guerras que ainda hoje nos assolam. Como aos equipamentos cibernéticos, a esse homem falta uma alma. Essa alma que o leva a comover-se e mover-se, a prometer e comprometer-se e, conseqüentemente, a conhecer e agir. Dessa forma, ele é incapaz de ver, ouvir, sentir e apreciar o que de mais belo, nobre e grandioso pode ser encontrado na existência humana.

   Legado precioso
   Paul Harris, a quem comemoramos agora, teve sempre uma atitude absolutamente carregada de conteúdo. Jamais poderíamos dizer que ele foi um homem light. Nosso fundador nasceu em 1868 em Wisconsin, região Centro-Norte dos EUA, em uma família de seis irmãos. Seu casamento com Jean Thompson não gerou filhos e foi para toda a vida. Paul foi repórter, professor, ator e vaqueiro. Como vendedor de mármores e granitos, viajou por todos os EUA. Logo em seguida, formou-se em direito e se estabeleceu em Chicago. Paul esteve em muitos lugares e, ainda mais importante, acumulou muita experiência, pois desempenhou diversos e diferentes papéis ao longo da vida.
   Quando lhe ocorreu a idéia de fundar um clube, convocou três homens de negócios para ajudá-lo na empreitada. Deram o nome de Rotary à entidade que mais tarde se transformaria num clube de serviços. O reconhecimento que o mundo concedeu a Paul Harris foi herdado pelo Rotary. O papa João Paulo 2o disse: “Espero que Deus mantenha no Rotary International a nobre causa de estender a mão para servir à humanidade, sempre tão necessitada”. As Nações Unidas, por meio de seu secretário-geral, também se manifestaram da seguinte forma: “Me reservo o direito de convocar o Rotary e os rotarianos sempre que achar necessário”.
   Se pensarmos bem, veremos que a época de Paul Harris foi tão tumultuada quanto a nossa. Naquele tempo, várias guerras assolaram o mundo, o que fez com que o pensador francês Jean-François Revel dissesse que “o século 20 é aquele em que a maior quantidade de pessoas foi maltratada”. Por isso Paul empenhou-se tanto nos empreendimentos educativos. A sua visão foi de um mundo em mutação, e assim ele se expressou quando escreveu: “O Rotary também deve estar preparado para mudar”.
   Quando Paul Harris morreu, foram feitas muitas contribuições financeiras em sua homenagem, que permitiram a criação de uma quarta Avenida de Serviços, a do Serviço Internacional. Foi então criado o programa de bolsas de estudos para profissionais já diplomados, ao qual logo se juntariam as Bolsas de Boa Vontade.
   O que começou com a morte de Paul Harris é aquilo que agora tornamos a recomendar: que nós, rotarianos, devemos contribuir para a nossa Fundação Rotária da mesma forma como muitos fizeram antes de nós. Os 6.000 Rotary Clubs que existiam no mundo quando Paul Harris morreu transformaram-se em 32 mil clubes atualmente. Estamos falando de um aumento superior a 500%. Será que podemos programar esse crescimento para o futuro? Podemos projetar esse crescimento nos programas?

   O homem sólido
   Tenho a convicção de que essas palavras e o nosso trabalho – dentro ou fora dos nossos clubes, em convocações locais ou regionais – não terão sentido se não voltarmos a assumir compromissos. Retomo a idéia do homem light diante do momento em que vivemos. Estamos em uma parte do mundo que trepida de problemas. Muitos deles são comuns a todos, outros se agravam devido ao nosso destino ainda jovem: desocupação, pobreza, falta de preocupação por parte dos poderosos, desnutrição, falta de água potável, analfabetismo, miséria nas ruas, enfermidades e vícios, além da desesperança de muitos, formam um panorama aterrorizante, que se converte em tragédia e que clama aos céus por tudo que sofrem os indefesos.
   Como disse anteriormente, nesse mesmo contexto há fatores distintos que estão levando à massificação do ser humano, um processo que tem como contrapartida o excesso de individualismo, muito diferente da solidariedade humana, da socialização e do reconhecimento da dignidade individual. Quando olhamos para trás e vemos tudo o que o Rotary e Paul Harris fizeram, compreendemos que somente com um esforço redobrado poderemos ser dignos desse passado.
   Dessa forma, à leveza do homem light o Rotary seguirá contrapondo o homem sólido, o rotariano comprometido. Aquele a quem o progresso material por si só não satisfaz suas aspirações se não vier acompanhado de um fundo moral. Falamos do homem dono de códigos de conduta amplos que o tornam mais humano, mais digno, mais justo e capaz de voar mais alto. Este rotariano não pode ser um homem light; pelo contrário: deve ser um homem-luz, o mesmo que faz sua a reflexão de André Maurois, o ilustre escritor francês, quando afirma: “A vida é demasiadamente curta para ser pequena”.
   Renovemos nosso compromisso hoje e a cada instante em que nos defrontamos com as duras realidades de cada uma das nossas comunidades, com seus problemas e suas esperanças e, também, com as angustiantes urgências resultantes de suas necessidades básicas insatisfeitas.
   O Rotary não tem soluções mágicas para oferecer, mas cada um de nós poderá tê-las se souber que essas soluções dependem da nossa vontade de servir; do conhecimento e da compreensão de nossa organização; do apoio aos programas rotários e, resumindo, da nossa fé e confiança no nosso destino.
   Queremos ser homens-luz, queremos ter sempre um projeto para não perdermos a visão dos fins necessários para que consigamos os meios. Estaremos assim rendendo a Paul Harris a homenagem permanente que lhe é merecida.


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