|
|
Depois
de 60 anos, continuemos
renovando nossos compromissos
m
janeiro, passaram-se 60 anos desde que Paul Harris deixou este mundo.
Como expressaria em sua fé, podemos dizer que ele voltou
para o Pai. Muitos acham que não se deve relembrar o momento
da partida de uma pessoa, mas sim a sua chegada. Nós o relembramos
por um motivo muito especial: quando Paul Harris morreu, o Rotary
já havia alcançado um desenvolvimento enorme. O que
a princípio tinha sido um grupo formado por quatro homens
que buscavam ajudar-se – e defender-se melhor de uma cidade
hostil – tinha se transformado em um conjunto de 6.000 clubes
localizados em muitos países, com 300 mil membros e uma trajetória
extensa. Os rotarianos daquela época sentiam que estavam
amparados por seu pai, em situação confortável
e segura, até que este lhes faltou.
Essa situação levou ao amadurecimento,
ao crescimento e à compreensão de que, a partir de
um determinado momento, todo homem é pai de si mesmo, e que
o mesmo acontece com as instituições. E o mesmo fator
que provocou essa circunstância – ou seja, a renovação
de nossos sentimentos e nosso maior empenho – é o que
hoje, seis décadas depois, desejamos que se multiplique.
Relembramos a morte de Paul Harris porque esperamos
que se repita o florescimento das propostas, que as vontades sejam
reforçadas, a consciência mais comprometida, a visão
mais aguçada e a ação mais aprofundada. Não
podemos fazer outra coisa. Já transitamos por todas as Avenidas
de Serviço e em todas as direções. Além
disso, o complexo mundo deste terceiro milênio exige-nos muito
mais, muitíssimo mais que antes. E isso é o que também
queremos que aconteça.
É paradoxal o fato de que, justamente quando
o mundo está mais açoitado por guerras, dores, agravos
e rancores, o homem busque e consiga ser mais e mais leve, exatamente
da forma como descreve Enrique Rojas em seu livro “El Hombre
Light” (O Homem Light, em espanhol). Trata-se do homem saturado
de bem-estar, do reino da imagem e da aparência, do homem
“amortecido em seu conteúdo”, como diz Rojas,
e basicamente indiferente. Nada sobre a Terra consegue comovê-lo,
emocioná-lo ou preocupá-lo a não ser seu próprio
ego.
Palavras como solidariedade, sacrifício
e serviço são tão estranhas ao linguajar desse
homem quanto o grito profundo das vítimas das guerras que
ainda hoje nos assolam. Como aos equipamentos cibernéticos,
a esse homem falta uma alma. Essa alma que o leva a comover-se e
mover-se, a prometer e comprometer-se e, conseqüentemente,
a conhecer e agir. Dessa forma, ele é incapaz de ver, ouvir,
sentir e apreciar o que de mais belo, nobre e grandioso pode ser
encontrado na existência humana.
Legado
precioso
Paul Harris, a quem comemoramos agora, teve sempre
uma atitude absolutamente carregada de conteúdo. Jamais poderíamos
dizer que ele foi um homem light. Nosso fundador nasceu em 1868
em Wisconsin, região Centro-Norte dos EUA, em uma família
de seis irmãos. Seu casamento com Jean Thompson não
gerou filhos e foi para toda a vida. Paul foi repórter, professor,
ator e vaqueiro. Como vendedor de mármores e granitos, viajou
por todos os EUA. Logo em seguida, formou-se em direito e se estabeleceu
em Chicago. Paul esteve em muitos lugares e, ainda mais importante,
acumulou muita experiência, pois desempenhou diversos e diferentes
papéis ao longo da vida.
Quando lhe ocorreu a idéia de fundar um
clube, convocou três homens de negócios para ajudá-lo
na empreitada. Deram o nome de Rotary à entidade que mais
tarde se transformaria num clube de serviços. O reconhecimento
que o mundo concedeu a Paul Harris foi herdado pelo Rotary. O papa
João Paulo 2o disse: “Espero que Deus mantenha no Rotary
International a nobre causa de estender a mão para servir
à humanidade, sempre tão necessitada”. As Nações
Unidas, por meio de seu secretário-geral, também se
manifestaram da seguinte forma: “Me reservo o direito de convocar
o Rotary e os rotarianos sempre que achar necessário”.
Se pensarmos bem, veremos que a época de
Paul Harris foi tão tumultuada quanto a nossa. Naquele tempo,
várias guerras assolaram o mundo, o que fez com que o pensador
francês Jean-François Revel dissesse que “o século
20 é aquele em que a maior quantidade de pessoas foi maltratada”.
Por isso Paul empenhou-se tanto nos empreendimentos educativos.
A sua visão foi de um mundo em mutação, e assim
ele se expressou quando escreveu: “O Rotary também
deve estar preparado para mudar”.
Quando Paul Harris morreu, foram feitas muitas
contribuições financeiras em sua homenagem, que permitiram
a criação de uma quarta Avenida de Serviços,
a do Serviço Internacional. Foi então criado o programa
de bolsas de estudos para profissionais já diplomados, ao
qual logo se juntariam as Bolsas de Boa Vontade.
O que começou com a morte de Paul Harris
é aquilo que agora tornamos a recomendar: que nós,
rotarianos, devemos contribuir para a nossa Fundação
Rotária da mesma forma como muitos fizeram antes de nós.
Os 6.000 Rotary Clubs que existiam no mundo quando Paul Harris morreu
transformaram-se em 32 mil clubes atualmente. Estamos falando de
um aumento superior a 500%. Será que podemos programar esse
crescimento para o futuro? Podemos projetar esse crescimento nos
programas?
O
homem sólido
Tenho a convicção de que essas palavras
e o nosso trabalho – dentro ou fora dos nossos clubes, em
convocações locais ou regionais – não
terão sentido se não voltarmos a assumir compromissos.
Retomo a idéia do homem light diante do momento em que vivemos.
Estamos em uma parte do mundo que trepida de problemas. Muitos deles
são comuns a todos, outros se agravam devido ao nosso destino
ainda jovem: desocupação, pobreza, falta de preocupação
por parte dos poderosos, desnutrição, falta de água
potável, analfabetismo, miséria nas ruas, enfermidades
e vícios, além da desesperança de muitos, formam
um panorama aterrorizante, que se converte em tragédia e
que clama aos céus por tudo que sofrem os indefesos.
Como disse anteriormente, nesse mesmo contexto
há fatores distintos que estão levando à massificação
do ser humano, um processo que tem como contrapartida o excesso
de individualismo, muito diferente da solidariedade humana, da socialização
e do reconhecimento da dignidade individual. Quando olhamos para
trás e vemos tudo o que o Rotary e Paul Harris fizeram, compreendemos
que somente com um esforço redobrado poderemos ser dignos
desse passado.
Dessa forma, à leveza do homem light o
Rotary seguirá contrapondo o homem sólido, o rotariano
comprometido. Aquele a quem o progresso material por si só
não satisfaz suas aspirações se não
vier acompanhado de um fundo moral. Falamos do homem dono de códigos
de conduta amplos que o tornam mais humano, mais digno, mais justo
e capaz de voar mais alto. Este rotariano não pode ser um
homem light; pelo contrário: deve ser um homem-luz, o mesmo
que faz sua a reflexão de André Maurois, o ilustre
escritor francês, quando afirma: “A vida é demasiadamente
curta para ser pequena”.
Renovemos nosso compromisso hoje e a cada instante
em que nos defrontamos com as duras realidades de cada uma das nossas
comunidades, com seus problemas e suas esperanças e, também,
com as angustiantes urgências resultantes de suas necessidades
básicas insatisfeitas.
O Rotary não tem soluções
mágicas para oferecer, mas cada um de nós poderá
tê-las se souber que essas soluções dependem
da nossa vontade de servir; do conhecimento e da compreensão
de nossa organização; do apoio aos programas rotários
e, resumindo, da nossa fé e confiança no nosso destino.
Queremos ser homens-luz, queremos ter sempre um
projeto para não perdermos a visão dos fins necessários
para que consigamos os meios. Estaremos assim rendendo a Paul Harris
a homenagem permanente que lhe é merecida.
|