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Carlos Enrique Speroni
(Diretor do RI 2005-07)
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Sobre o papel da mulher
no trabalho rotário

fato de já termos ouvido bastante sobre esse assunto não nos impede de continuar recordando as etapas iniciais do relacionamento da mulher com o Rotary. Uma relação que foi tênue no princípio, mas que se torna cada vez mais forte nos dias de hoje.
   Da mesma forma, em todas as oportunidades em que nos referirmos à história do Rotary é natural e oportuno que façamos menção à famosa reunião de Paul Harris e seus amigos ocorrida em 23 de fevereiro de 1905, na cidade de Chicago. Foi nessa oportunidade que surgiu uma idéia que, por ser muito boa e muito inspirada, não sofreu mudanças ou substituições ao longo de sua história mais do que centenária.
   Muito pelo contrário: uma idéia que se multiplicou e produziu frutos que a transformaram no núcleo de uma das mais importantes organizações de serviço voluntário do mundo. Uma história conhecida e repetida, na qual a mulher encontrou o lugar que realmente merece, e que está de acordo com o papel de destaque que sempre teve na sociedade. O próprio Paul Harris, que se casou com Jean Thompson cinco anos antes de fundar o Rotary, e com quem viveu durante toda a vida, conheceu através dela a solidariedade, compreensão e companheirismo femininos.
   Em 1921, um grupo de mulheres de rotarianos de Toronto se reuniu, por iniciativa do Rotary Club local, para confeccionar roupas destinadas a bebês recém-nascidos, filhos de mães carentes. No mesmo ano, surgiu também um outro grupo, chamado Mulheres do Rotary, formado por esposas, mães e filhas de sócios do RC de Chicago, com a finalidade de colaborar em tarefas comunitárias.
   Em 10 de janeiro de 1924, nasceu em Manchester, na Inglaterra, o Primeiro Grupo de Mulheres de Rotarianos, que conta com o seu próprio regulamento e se denomina Inner Wheel – ou “Roda Interna”, em inglês – nome que indica sua relação com o movimento rotário. A Segunda Guerra Mundial encontrou essas mulheres trabalhando com grande dedicação e prestando todo tipo de ajuda. Quando a paz voltou, começou um ciclo de consolidação e crescimento.
   Mas ainda antes, em 1927, foi criado em Birmingham, nos EUA, o primeiro clube denominado Rotary Anns, um jogo de palavras com rotarian – “rotariano”, em inglês – em homenagem às duas únicas mulheres participantes da Convenção Internacional de Houston, em 1914, cujos nomes eram precisamente Ann.

   Devemos muito a elas
   A partir daí, essas associações femininas começaram a expandir-se, instalando-se na Austrália em 1931, e desenvolvendo-se com maior vigor na América Latina (1937, em Victoria, Chile; 1938, em Dolores, Argentina; em 1948 no Rio de Janeiro; e em 1949, em La Paz, Bolívia), precisamente a região em que esse movimento feminino mais cresceu.
   É certo que, nos primeiros anos, nem todas as Rodas Internas, Casas da Amizade ou Comitês de Senhoras tiveram uma participação igual à dos clubes nos projetos comunitários que atendiam às necessidades locais, uma vez que elas se limitavam a um meio social mais restrito. No entanto, pouco a pouco – sem pressa, mas sem pausas, exatamente como o deslocamento das estrelas – a compreensão dos problemas das comunidades e a percepção sutil da real necessidade das pessoas fizeram as mulheres dos rotarianos participarem e – ainda mais – organizarem ações destinadas a objetivos precisos.
   Por tudo isso, o Rotary e os rotarianos – sem distinções de gênero – devem muito a elas, desde o trabalho em hospitais, orfanatos, casas de saúde e lares para idosos até o inestimável papel de segunda mãe para nossos estudantes de intercâmbio e bolsistas, entre muitíssimos outros serviços. Como nos recorda a sabedoria de Rabindranath Tagore: “Mulher, tu rodeias o coração do mundo, como o mar rodeia a terra, com o abismo de tuas lágrimas”.
   O provérbio chinês que abre a coluna deste mês diz que as mulheres são responsáveis pela metade do céu. A maioria de nós concorda com isso, ainda mais ao pensarmos na participação da mulher no lar, que freqüentemente acaba respondendo por muito mais da metade do “céu familiar”.
   O que me leva a perguntar: não é disso que estamos falando quando nos referimos ao trabalho de muitos dos nossos Rotary Clubs e à sua transcendência nas comunidades? O que seria dos nossos clubes se eles não contassem com a colaboração silenciosa, eficaz e permanente das associações femininas?

   Importâncias iguais
   A rotariana e a mulher do rotariano são mulheres modernas, com suas aspirações, iniciativas e capacidades, o que as faz protagonizar, por sua decisão própria e responsabilidade, a tarefa de melhorar a sociedade que integram. Por esse motivo, não consigo compreender e nem admito os freqüentes comentários que ouvimos sobre as diferenças entre a rotariana e a mulher do rotariano que integra a Casa da Amizade de seu clube, simplesmente porque tais diferenças não existem.
   Da mesma forma, a mulheres que ingressam no Rotary não são nem mais nem menos que os demais sócios com quem dividem as atividades, e a melhor evidência disso é a lista de rotarianas que atualmente são governadoras de distrito, e que começam a ocupar vagas no Conselho Diretor do RI e no Conselho de Curadores da Fundação Rotária.
   Integrar uma associação feminina é algo muito diferente, que implica em assumir um papel solidário com os sócios de um Rotary Club sem aspirar a nada mais do que isso: oferecer ajuda, esforços e consolidar aspirações. Algo que foi muito bem definido pelo escritor Khalil Gibran: “Quando trabalhas, és como uma flauta, cujo coração converte o sussurro das horas em música... E o que é trabalhar com amor? É tecer com fios tirados do coração, como se o teu amado fosse vestir-se com esse tecido...”
   Então, equivocam-se aqueles que reivindicam essa situação como uma justificativa para a desnecessária equiparação – no meu ponto de vista – entre essas mulheres de acordo com os diferentes papéis que desempenham. O que me leva a afirmar que o que precisa igualar-se é, precisamente, a valorização que atribuímos às mulheres no Rotary.


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