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urante os próximos dois anos rotários, terei a oportunidade
de me comunicar com os companheiros das Zonas 19 e 20 – dando
continuidade à tarefa de meus ilustres antecessores no cargo
de diretor do Rotary International – apoiando-me em suas preciosas
contribuições e agradecendo a importante colaboração
prestada por nossas revistas regionais.
Por
ser uma preocupação incontestável,
a pobreza sempre foi levada em consideração por nossa
organização. A princípio, quero ressaltar um
aspecto importante, que é o fato de a pobreza empobrecer
a todos nós. A pobreza e a miséria nos açoitam
de mil maneiras e vão criando uma trama turva na nossa alma
e na de todos aqueles que – como é o nosso caso –
não estejam nessa situação. Para não
empobrecermos nosso espírito, é preciso considerar
que a pobreza tem os seus próprios protagonistas. Estamos
falando daqueles seres humanos pelos quais devemos sentir, em primeiro
lugar, um profundo respeito. E os filhos de famílias pobres
não devem sentir-se incapazes de evitar esse destino familiar,
o que nos leva a um problema fundamental a ser enfrentado pela sociedade
atual: a relação entre pobreza e educação.
Domingo Faustino Sarmiento, presidente da Argentina
entre 1868 e 1874 – e mais do que isso: um ilustre professor
e símbolo da paixão pela educação popular
– elevou uma expressão famosa (“Educar o soberano”)
à categoria de bandeira cívica. Desde então,
esse lema se transformou num assunto de extraordinária atualidade.
Diversos e importantes setores concordam – como já
vêm fazendo há mais de 100 anos – sobre a necessidade
de se cumprir tal mandato para que os povos alcancem caminhos legítimos
para o bem-estar e o progresso coletivos. A idéia da educação
do soberano talvez tenha se originado entre os assessores cultos
dos monarcas do século 18, que a lançaram como uma
necessidade imperiosa. Um monarca – ou seja, o soberano –
deveria ser culto e educado para estar capacitado a cumprir as difíceis
tarefas de governar e de fazer felizes os seus súditos. A
democracia, então, adotou o lema, passando a dizer que “o
soberano é o povo”. Assim, se educarmos o soberano
– que dizer, o povo – estaremos contribuindo para a
obra essencial das repúblicas.
Sabemos que devem existir certas condições
para que o ideal da paz não seja apenas um mito, e uma delas
– e talvez uma das mais importantes – é a ausência
da pobreza ou, pelo menos, a diminuição ou o alívio
dos seus efeitos. A Cimeira Mundial da Alimentação
de Roma destacou o fato de existirem mais de 50 milhões de
pessoas subnutridas na América Latina e no Caribe, e o relatório
da Cepal – Comissão Econômica para a América
Latina – informa que mais de 220 milhões de latino-americanos
(43% da população) vivem na pobreza. Diante de um
cenário tão dramático, e que por certo é
do conhecimento de todos nós, o que podemos fazer?
Educar o soberano: esta tem sido a proposta sempre
que falamos em educação. No que se refere a essa questão,
nós, rotarianos, temos pela frente uma árdua tarefa
– embora em alguns lugares já tenhamos atingido grandes
progressos. No entanto, para que todos os necessitados possam se
beneficiar, os governos, os setores econômicos e a sociedade
civil devem adotar medidas adicionais indispensáveis. Para
que isso ocorra, as tarefas dos nossos clubes devem ser convertidas
em motores dessa idéia.
Até
agora, quando falamos em pobreza, nos referimos à
falta de dinheiro que afeta quase a metade da população
mundial. Mas será que não deveríamos nos referir
também à pobreza do espírito, como a mencionada
no Sermão da Montanha? Ou será que não percebemos
que a ética, a moral e a política das eras platônica
e aristotélica não conseguiram avançar de forma
significativa e chegar até os nossos dias? Suas estagnações
e seus atrasos estão nos levando a situações
quase limítrofes, incrementadas pela indiferença,
pela soberba e pela falta de consideração para com
o próximo nesta sociedade que a todos cerca e compromete.
Estas são situações em que
todos nós, rotarianos ou não, devemos ter cuidado
para não cair. Para isso, nossas atitudes deverão
ser as que cabem às pessoas de bem, aquelas que entendem
que “a vida é muito curta para que a tornemos menor”,
como disse André Maurois. Não devemos nos incluir
entre os medíocres ou os indiferentes que, por assim o serem,
crêem que estão sempre nos seus melhores momentos.
Os melhores momentos de nossas vidas serão os compartilhados
com nossas famílias, vividos dentro das nossas ocupações
e desfrutados de acordo com as nossas vocações. O
Rotary será, com certeza, uma delas – e sua importância
será ditada pelo que o nosso compromisso venha a entender
e assumir.
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