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Carlos Enrique Speroni
(Diretor do RI 2005-07)
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urante os próximos dois anos rotários, terei a oportunidade de me comunicar com os companheiros das Zonas 19 e 20 – dando continuidade à tarefa de meus ilustres antecessores no cargo de diretor do Rotary International – apoiando-me em suas preciosas contribuições e agradecendo a importante colaboração prestada por nossas revistas regionais.

   Por ser uma preocupação incontestável, a pobreza sempre foi levada em consideração por nossa organização. A princípio, quero ressaltar um aspecto importante, que é o fato de a pobreza empobrecer a todos nós. A pobreza e a miséria nos açoitam de mil maneiras e vão criando uma trama turva na nossa alma e na de todos aqueles que – como é o nosso caso – não estejam nessa situação. Para não empobrecermos nosso espírito, é preciso considerar que a pobreza tem os seus próprios protagonistas. Estamos falando daqueles seres humanos pelos quais devemos sentir, em primeiro lugar, um profundo respeito. E os filhos de famílias pobres não devem sentir-se incapazes de evitar esse destino familiar, o que nos leva a um problema fundamental a ser enfrentado pela sociedade atual: a relação entre pobreza e educação.
   Domingo Faustino Sarmiento, presidente da Argentina entre 1868 e 1874 – e mais do que isso: um ilustre professor e símbolo da paixão pela educação popular – elevou uma expressão famosa (“Educar o soberano”) à categoria de bandeira cívica. Desde então, esse lema se transformou num assunto de extraordinária atualidade. Diversos e importantes setores concordam – como já vêm fazendo há mais de 100 anos – sobre a necessidade de se cumprir tal mandato para que os povos alcancem caminhos legítimos para o bem-estar e o progresso coletivos. A idéia da educação do soberano talvez tenha se originado entre os assessores cultos dos monarcas do século 18, que a lançaram como uma necessidade imperiosa. Um monarca – ou seja, o soberano – deveria ser culto e educado para estar capacitado a cumprir as difíceis tarefas de governar e de fazer felizes os seus súditos. A democracia, então, adotou o lema, passando a dizer que “o soberano é o povo”. Assim, se educarmos o soberano – que dizer, o povo – estaremos contribuindo para a obra essencial das repúblicas.
   Sabemos que devem existir certas condições para que o ideal da paz não seja apenas um mito, e uma delas – e talvez uma das mais importantes – é a ausência da pobreza ou, pelo menos, a diminuição ou o alívio dos seus efeitos. A Cimeira Mundial da Alimentação de Roma destacou o fato de existirem mais de 50 milhões de pessoas subnutridas na América Latina e no Caribe, e o relatório da Cepal – Comissão Econômica para a América Latina – informa que mais de 220 milhões de latino-americanos (43% da população) vivem na pobreza. Diante de um cenário tão dramático, e que por certo é do conhecimento de todos nós, o que podemos fazer?
   Educar o soberano: esta tem sido a proposta sempre que falamos em educação. No que se refere a essa questão, nós, rotarianos, temos pela frente uma árdua tarefa – embora em alguns lugares já tenhamos atingido grandes progressos. No entanto, para que todos os necessitados possam se beneficiar, os governos, os setores econômicos e a sociedade civil devem adotar medidas adicionais indispensáveis. Para que isso ocorra, as tarefas dos nossos clubes devem ser convertidas em motores dessa idéia.

   Até agora, quando falamos em pobreza, nos referimos à falta de dinheiro que afeta quase a metade da população mundial. Mas será que não deveríamos nos referir também à pobreza do espírito, como a mencionada no Sermão da Montanha? Ou será que não percebemos que a ética, a moral e a política das eras platônica e aristotélica não conseguiram avançar de forma significativa e chegar até os nossos dias? Suas estagnações e seus atrasos estão nos levando a situações quase limítrofes, incrementadas pela indiferença, pela soberba e pela falta de consideração para com o próximo nesta sociedade que a todos cerca e compromete.
   Estas são situações em que todos nós, rotarianos ou não, devemos ter cuidado para não cair. Para isso, nossas atitudes deverão ser as que cabem às pessoas de bem, aquelas que entendem que “a vida é muito curta para que a tornemos menor”, como disse André Maurois. Não devemos nos incluir entre os medíocres ou os indiferentes que, por assim o serem, crêem que estão sempre nos seus melhores momentos. Os melhores momentos de nossas vidas serão os compartilhados com nossas famílias, vividos dentro das nossas ocupações e desfrutados de acordo com as nossas vocações. O Rotary será, com certeza, uma delas – e sua importância será ditada pelo que o nosso compromisso venha a entender e assumir.


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