| Aumentar
a presença da mulher no Rotary é uma das ênfases do
presidente do RI Carl-Wilhelm Stenhammar. O tema foi abordado com inteira
propriedade no Instituto Rotário de Cuiabá por uma das mulheres
de maior destaque em nossa organização, a governadora 1999-2000
do distrito 4730 Sílvia Maria de Campos. Aprecie essa interessante
palestra que mereceu aplausos de pé naquele evento.
ara
falar sobre a mulher no Rotary, é importante começarmos
com uma reflexão. Quantos companheiros cada um de nós
já apadrinhou? Desses afilhados, quantos são do sexo feminino?
Este tema é tão vasto que escolhi um só enfoque:
a mulher como protagonista do desenvolvimento do quadro social. Não
abordo preconceito nem discriminação. Tão pouco
falarei das lutas das mulheres para conseguir um lugar no mercado de
trabalho e na sociedade.
Sempre tenho duas perguntas em minha mente. A primeira:
quais são a vocação, a ambição e
o desafio da mulher? A segunda: o que os homens pensam disso?
Pode parecer simples questionar o que o Rotary mais
precisa, a sua essência – o desenvolvimento do quadro social
– e o que alguns rotarianos mais temem: mulheres nos seus clubes.
O que os clubes que não admitem mulheres fazem com suas interactianas,
rotaractianas, intercambiadas, intercambiadas do IGE e com suas ex-bolsistas?
Ou será que as mulheres não participam desses programas?
Histórico
As transformações no mundo foram rápidas
e seria quase impossível imaginar, há 30 anos, o que está
ocorrendo hoje. As primeiras lutas das mulheres foram em razão
dos direitos humanos e para que elas pudessem votar. No Brasil, os anos
1970 foram um marco. Com suas vertentes de movimento feminista, grupos
lutavam pela redemocratização do país e pela melhoria
nas condições de vida e de trabalho da população
brasileira. Em 1975, comemorou-se em todo o planeta o Ano Internacional
da Mulher e foi realizada a Primeira Conferência Mundial da Mulher,
promovida pela ONU, instituindo-se a Década da Mulher entre os
anos de 1976 e 1985.
Essas transformações, no entanto, não
foram ocasionadas por lutas políticas, pelo liberalismo dos homens
ou por pressão das feministas. As mudanças ocorreram por
fatores sociais e econômicos. A migração e a urbanização
do país fizeram com que surgissem a necessidade do trabalho feminino
e reais oportunidades para as mulheres.
Com esse salto histórico, podemos ver que o
papel das mulheres na sociedade evoluiu a partir do momento em que elas
se tornaram economicamente independentes. Assim, atualmente no setor
de pesquisa quase metade dos bolsistas do CNPQ é do sexo feminino.
Metade dos funcionários da administração pública
do mundo é de mulheres. As mulheres também são
70% dos agentes financeiros, 80% dos administradores de saúde
e 70% dos corretores de seguro. As mulheres recebem hoje mais da metade
dos diplomas de graduação e mestrado nas universidades.
Diante desse quadro, mostrou-se que era inevitável
nos depararmos com a discussão sobre mecanismos que equilibrassem
a desigualdade entre os sexos também no movimento rotário.
Como será o crescimento da nossa organização? Não
se falava disso há 50 anos com o peso que se fala hoje –
sabia-se, mas não se falava, pois não era preciso falar
a respeito.
A
carta de Eugênia
No entanto, há mais de 70 anos a mulher já
questionava o Rotary. Precisamente desde 1934, de acordo com matéria
publicada pela Brasil Rotário (edição de agosto
de 1999). Diz a revista que Eugênia Hamann escreveu a Paul Harris
indagando se fora propositalmente ou por um lapso que a mulher havia
sido excluída quando foram concebidas as linhas mestras que regiam
a nova organização. Dirigente de várias organizações
feministas e mulher de rotariano, Eugênia dizia na carta que –
tendo ou não o direito de intrometer-se – questionaria
esse fato e apresentaria seus argumentos. Ela continua: “Vós
que pregais em todo lugar que o lema da organização é
Dar de Si Antes de Pensar em Si, respondei, por favor: quem, ao longo
da vida, dá mais de si sem pensar em si: o homem ou a mulher?”.
Procurando defender seu ponto de vista, ela dizia
que a presença ativa da mulher nas reuniões dos clubes,
além de não ser provavelmente tolerada pelas esposas dos
rotarianos, perturbaria, por certo, a íntima – porém
respeitosa – camaradagem que (se espera) deve reinar durante esses
encontros.
Cinqüenta e cinco anos após essa carta
de Eugênia, em 1989 a Justiça norte-americana determinou
que os estatutos do Rotary fossem alterados, suprimindo-se a expressão
“sexo masculino”. A partir de então, as portas de
nossa organização se abriram para o sexo feminino.
Protagonistas
do DQS e líderes
Até 1999, nós rotarianas não
sabíamos exatamente quantas éramos no Brasil. No ano 2000,
havia em nossos clubes 2.835 sócias – o equivalente a apenas
5% do quadro social, então com 56.623 homens. Hoje, somos 7.430
mulheres e 50.568 homens, 14,69 % do quadro social brasileiro (dados
de novembro de 2005).
Nos últimos cinco anos, o número de
rotarianas aumentou, e o de rotarianos, diminuiu. Dezesseis anos após
começarem a ser aceitas na organização, as rotarianas
são hoje protagonistas do desenvolvimento do quadro social. De
1989 pra cá, tivemos 12 ex-governadoras distritais (ver quadro
acima).
E a atuação da mulher no Rotary está
mais forte a cada novo ano rotário. Em 2005-06, temos quatro
governadoras distritais: Aldamira Barreto (D. 4500), Claudete Mallmann
(D. 4660), Marilene Souto (D. 4651) e Neusa Ito (D. 4440).
Somente alguns distritos já tiveram governadoras.
Para 2006-07, são quatro as eleitas, todas do sul do Brasil:
Maria da Penha Oliveira Surjus (D. 4630), Dalva Rigoni (D. 4640), Ana
Glenda Viezzer (D. 4670) e Clara Frida Pereira (D. 4740).
Oxalá os outros distritos que ainda não
elegeram mulheres para o cargo de governadoras o façam para o
ano 2007-08.
Apoio
de Stenhammar
Investir nas mulheres significa promover a igualdade,
contribuir para a redução da pobreza, violência
e injustiça social no país. Estudos mostram que as nações
que promovem os direitos das mulheres têm menores taxas de pobreza,
crescimento econômico mais rápido e menos corrupção,
além de constatarem que o aumento da renda da mulher produz um
grande impacto positivo para a família.
Está provado também que quando se investe
nas mulheres, o investimento se irradia, beneficiando a família
e também a comunidade, com mais crianças nas escolas e
menos violência nas ruas.
As mulheres se envolvem mais com os assuntos comunitários,
que vão desde a ajuda às pessoas vizinhas até as
reivindicações por creches, escolas e postos de saúde.
E, além de se preocuparem com as pessoas, as mulheres têm
muita sensibilidade e capacidade técnica e administrativa.
As questões ligadas à educação,
à água e à fome precisam do trabalho do homem e
da mulher. Onde estão essas mulheres tão atuantes que
não estão no Rotary? Há quanto tempo a mulher quer
ser rotariana?
Compartilhando
estrelas
Vamos lembrar um texto para reflexão reproduzido
pelo diretor do RI Carlos Enrique Speroni em sua coluna na edição
998 da Brasil Rotário. É a história de dois meninos
que, numa noite, decidiram repartir entre eles o céu. Disse um
deles: “Todas essas estrelas são para você, e estas
outras aqui são minhas”. O outro respondeu: “Não,
essa bem grande tem que ser minha porque eu a vi primeiro”. E
assim as duas crianças brigaram pela posse de uma estrela. Ainda
não haviam chegado a um acordo quando os primeiros raios do dia
começaram a apagar os outros astros e todo o céu ficou
vazio. Somente então os dois perceberam a inutilidade da briga.
A noite era tão curta e era tão relativa a posse daqueles
pontos longínquos que teria sido mais sensato se eles tivessem
sentado juntos e desfrutado o espetáculo.
O Rotary é pacificador: não vamos repartir
as estrelas, vamos apreciá-las juntos. Abram seus clubes às
mulheres e poderão vivenciar subjetividade com objetividade.
A estratégia de servir do Rotary tem sido harmonizar as diferenças
individuais nos clubes e prestar os serviços que a comunidade
necessita. A partir dessa compreensão de que podemos eliminar
conflitos, gerar crescimento e proporcionar desenvolvimento, estaremos
também propagando a paz.
Finalizando, desejo que seja uma mulher o novo sócio
que todo clube deve admitir em cumprimento à meta de crescimento
do quadro social estabelecida pelo presidente Stenhammar para o período
2005-06.
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