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O conteúdo ético da verdadeira amizade

Como podemos ter amigos verdadeiros num
mundo dominado pelas relações utilitárias?

   Alfredo Castro Neto

  

nfelizmente, hoje em dia a palavra “amizade” tem muito pouco a ver com aquilo que entendemos quando pensamos num verdadeiro amigo. Na verdade, a palavra amizade adquiriu um significado negativo de privilégio e recomendação. Você precisa ter um “bom QI” (o famoso “Quem Indique”) para conseguir determinados empregos e ter muitas vantagens. Dessa forma, a amizade é o meio para passar a frente dos outros e ter privilégios numa sociedade injusta, que transforma a virtude em préstimos e os ideais em serviços.
   A verdadeira amizade possui um forte conteúdo ético. A amizade não pode existir sem um comportamento moral recíproco. A verdadeira amizade é sempre uma aventura, a exploração dos mistérios da vida, uma busca.
   É assim que nasce a amizade na infância e na adolescência. Duas crianças tornam-se amigas inventando novas brincadeiras, soltando a fantasia, indo explorar o grande e misterioso mundo que as rodeia. Já os adolescentes são, em alguma medida, “psicólogos” que vasculham sua psique e a dos outros para compreender suas leis. Nessa busca da própria identidade – e, portanto, das diferenças entre eles e os demais – a pessoa mais próxima, a mais considerada, é o amigo.
   Assim, o amigo na adolescência não é o idêntico, mas o semelhante – e, ao mesmo tempo, o diferente, o extremamente diferente. É ele quem nos abre uma perspectiva diferente sobre o mundo, foi ele quem viu o que nós não vimos, que explorou e continua a explorar por nós regiões novas da experiência.
   Em alguma medida, todos os adolescentes também são filósofos, porque fazem perguntas cruciais: por que as coisas são dessa forma e não de outra totalmente diferente? Por que estou aqui e o que vim fazer? Para onde irei? A amizade tem a ver com essas perguntas. A relação com o amigo indica as possibilidades e os limites da pessoa. A amizade é a identificação e a diferenciação. O encontro com o amigo interrompe a trama compacta e aviltante da vida cotidiana. É um momento de paz e de serenidade olímpica, acima das intrigas e dos complôs. O amigo é aquele que nos compreende, que sabe apreciar algumas de nossas virtudes pouco visíveis.

   Encontro
   De fato, a amizade é o encontro de duas pessoas que resolvem colocar-se no mesmo plano, onde ninguém é superior ou inferior. Uma profunda amizade tende a não se mostrar. Quando alguém diz: “Aquele é um grande amigo!”, em geral é porque não estabeleceu um profundo relacionamento de amizade com aquela pessoa. Pode ser até que mantenha boas relações com ela, alguém que conhece bem, de quem pode obter um favor, com quem goza de um certo crédito, mas provavelmente não será nada mais que isso.
   O amigo é por definição aquele que não se comporta de maneira mesquinha conosco. Se alguém que consideramos amigo faz coisas que nos incomodam, ou observações que nos embaraçam, então podemos estar certos de que, diga o que disser, ele não é nosso amigo. Um amigo nunca falará mal a nosso respeito. E quem chega sempre para contar o que os outros disseram de mal a nosso respeito tem prazer em fazê-lo – e, portanto, não é nosso amigo. Ninguém pode dizer: “Sou modesto, generoso e altruísta com meus amigos!” Uma virtude ostentada não é uma virtude.
   Não existem livros que ensinem a arte de conquistar amigos. A amizade não se aprende. Aprendem-se as boas maneiras, a conviver com cortesia. Na amizade as pessoas se encontram sem saber o que querem. É no próprio encontro que se revela o fim. Portanto, quanto mais alguém procura, tanto mais se empenha em manipular a si mesmo e ao outro. Quanto mais calcula e seduz, acaba deteriorando a relação. A amizade requer em primeiro lugar a liberdade do outro e, se faz um esforço ainda que mínimo para cerceá-la, deixa instantaneamente de ser verdadeira amizade.
   O que confere à amizade seu caráter desinteressado e sublime é o fato de que o amigo reconhece e também dá valor àquelas nossas virtudes que não servem para coisa alguma.
   Em sua maioria, aquelas pessoas que consideramos nossas amigas são, na realidade, apenas conhecidas. Isto é, são pessoas que estão próximas a nós. Sabemos o que pensam, que problemas têm, seus sentimentos aflitos, recorremos a elas para pedir ajuda e as ajudamos com prazer. Mantemos com elas boas relações, mas não uma profunda liberdade, nem lhes falamos dos nossos anseios mais secretos. Não ficamos felizes quando as vemos, não somos espontâneos ao sorrir. As relações ostensivamente cordiais às vezes encobrem uma realidade conflitante, ou uma profunda ambivalência.
   Finalmente precisamos compreender que, mesmo havendo pouco espaço para as relações pessoais sinceras, a amizade continua a ser um componente essencial de nossa época.




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