| Iniciaremos
a abordagem da questão dos biocombustíveis a partir de
uma análise de Samuel Hunting, defensor da tese de que hoje nós
estamos vivenciando um conflito de gerações no mundo,
ou seja, os interesses de um mundo desenvolvido e mais velho se contrapõem
aos interesses de um mundo jovem, em desenvolvimento e cada vez mais
frustrado.
Condições
de vida
A idéia de um conflito de gerações
se baseia em dados demográficos. Hoje, metade da população
mundial (cerca de 3 bilhões de pessoas) tem menos de 24 anos.
Um bilhão desses jovens estão na África, e 75%
desse total concentram-se na África e na Ásia. Eles precisarão
de emprego na próxima década. Para eles, a opção
é muito simples: ou terão trabalho e dignidade, ou inanição
e desespero. Atualmente, já existem no mundo 180 milhões
de pessoas desempregadas e outras 550 milhões vivendo com menos
de um dólar por dia, o que demonstra que essa questão
do desemprego e da necessidade de oferecer trabalho para mais de 1 bilhão
de jovens não é um problema futuro, mas dos nossos dias.
Por isso, segundo a tese do Samuel Hunting, o que
deve mover a vida política de todos é saber se os governos
dos países em desenvolvimento são capazes de garantir
estabilidade doméstica. Em outras palavras, é preciso
saber se esses governos terão a capacidade de promover um crescimento
suficiente para dar emprego a dezenas de milhões de desempregados
ou subempregados.
Mas o desafio não é somente dos países
em desenvolvimento: o mundo rico também precisa prover condições
para oferecer atendimento médico e aposentadoria para suas populações,
que têm uma taxa de natalidade cada vez menor e uma expectativa
de vida cada vez maior. Toda vez que um político fala em aumentar
a idade para a aposentadoria, ele passa por um tremendo desgaste e perda
de apoio político.
Portanto, se no mundo em desenvolvimento é
preciso criar empregos, no mundo desenvolvido há esse desafio
de prover boas condições de vida para uma população
cada vez mais idosa.
Problemas
A questão do desemprego está ligada
à segurança do mundo. Se observarmos o caso dos terroristas,
notadamente os suicidas, veremos que eles são recrutados em locais
onde a crescente população jovem vê o termo “esperança”
mais como um sarcasmo do que como esperança propriamente dita.
E veremos que, independente dos objetivos políticos ou militares
que eles tenham, todos atacam os ricos como os responsáveis por
lhes negar as oportunidades. Por isso, para enfrentar de fato o terrorismo
e para oferecer segurança às futuras gerações,
precisamos compreender e superar as tensões alimentadas e fermentadas
pela absoluta falta de perspectivas dos pobres frustrados no mundo desenvolvido,
o que fortalece o fanatismo e o fundamentalismo suicidas.
Como resolver essas questões difíceis,
intensificadas por outras que não estão contempladas na
tese de Samuel Hunting sobre conflito de gerações?
Temos pelo menos mais três gravíssimos
problemas a enfrentar: o primeiro é a epidemia de Aids que devasta
o continente africano; o segundo, o crescimento assustador do dinheiro
ilegal, decorrente do tráfico de drogas, de armas e de suas desagregadoras
tendências social e política, criando estados paralelos;
e, em terceiro lugar, a degradação ambiental, associada
à escassez de água, falta de recursos para o saneamento
básico e o aumento do efeito estufa. Essas questões dificultam
a cooperação e acabam solapando a solidariedade e a paz
mundial – e é exatamente esse ponto que inquieta a todos
aqueles que estão preocupados não só com o presente,
mas com a perspectiva das gerações futuras.
Sangria
às avessas
Mas onde os biocombustíveis entram nessa questão?
Antes de mais nada, em vez de focalizarmos o assunto através
de suas condições técnicas, é melhor nos
determos em três propostas que vão ganhando espaço
nos fóruns internacionais e que sugerem como minimizar os problemas
dessas tensões e contribuir para a paz mundial.
A primeira proposta é do próprio Samuel
Hunting. Ele diz que esse conflito de gerações pode ser
resolvido aproveitando-se o que falta e o que sobra no mundo rico e
no mundo pobre. O mundo rico tem recursos, tem capital, precisa do rendimento
desse capital, dos juros, da renda e da receita para pagar suas aposentadorias,
pensões e seu sistema de saúde. Enquanto isso, o mundo
pobre tem terras, recursos naturais e uma grande população
que precisa de emprego. Por isso, as aplicações e investimentos
do mundo rico no mundo pobre solucionariam esse dilema.
Na prática, isso não funciona porque
os investimentos são direcionados com base nas análises
das agências de avaliação de risco, e o que nós
estamos vendo nos últimos 15 anos é que houve 60 vezes
mais investimentos estrangeiros diretos nos países já
desenvolvidos do que nos países em desenvolvimento. E o que é
mais grave: as Nações Unidas publicaram em 2004 um trabalho
chamado “World Economic Outlook” que mostra que –
somente entre 1998 e 2004 – houve uma transferência líquida
de recursos dos países pobres para os ricos, em função
principalmente do processo de globalização, no valor de
US$ 1,2 trilhão. É uma sangria às avessas: quem
precisa da transfusão (os países pobres) é que
fornece o sangue (para os países ricos). Portanto podemos deixar
a primeira tese de lado.
Comércio
justo
A segunda hipótese é muito defendida
pelo ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. A tese baseia-se na
melhor tradição de Montesquieu, que dizia que o comércio
é o caminho para a paz entre os povos, e que o caminho mais rápido
é o comércio justo – o fair trade, em inglês
– e que, havendo essas condições, diminuem-se as
tensões entre os países.
Mas o que é um comércio justo? Os países
ricos abrirem suas fronteiras para receber produtos dos países
pobres. Por exemplo: Burkina Fasso – país africano onde
o desemprego é altíssimo – não consegue vender
seu algodão porque as barreiras são tantas que impossibilitam
essa operação. Então, os países ricos que
parem de pagar para os seus agricultores não produzirem, porque
há países pobres que querem o contrário, querem
produzir para pagar suas dívidas e então poder se desenvolver.
No entanto, isso também não funciona,
porque há lobbies fortíssimos de produtores que acabam
privatizando as decisões de governo. Quando saiu o resultado
da vitória do Brasil no painel do algodão e do açúcar
da Organização Mundial do Comércio, a imprensa
norte-americana aplaudiu a derrota dos EUA. Os americanos estão
cansados de pagar vultosos subsídios a algumas centenas de grandes
produtores, mas não conseguem livrar-se desse ônus porque
o voto dos congressistas, representando suas bases, sofre a influência
desses lobbies que não permitem a mudança.
Se ficarmos imaginando que essa briga vai deixar de
existir – porque essas concessões acabam não se
baseando nos princípios do fair trade de Montesquieu –
vamos assistir por muitas décadas à continuidade daquilo
que estamos vendo: a dificuldade para negociarmos na OMC, na Alca, com
a União Européia, o Mercosul... Não se consegue
avançar porque os países ricos – reféns dos
lobbies de produtores – não querem fazer nenhuma concessão.
Os biocombustíveis parecem ser a única
oportunidade de alterarmos esse horizonte a curto e médio prazos.
Biocombustíveis
Hoje não há mais dúvida: o petróleo
vai acabar dentro de 30 ou 40 anos, dependendo da perspectiva da descoberta
de novos poços. Isso não quer dizer que ele vai acabar
de repente, mas que será destinado gradativamente a funções
mais nobres, como a petroquímica. Imagina-se que a energia que
movimenta os veículos vai ser substituída por biocombustíveis,
com uma mistura de 2,3% ou 3% de petróleo para, dessa forma,
postergar o fim do precioso óleo. E, nesse sentido, nenhum país
tem condições como o Brasil – principalmente agora,
com os carros bicombustíveis, de motores flex – país
que possui uma grande porcentagem da frota movida somente a álcool.
Os biocombustíveis – tanto o álcool
como o etanol e o biodiesel – podem ser produzidos nos países
em desenvolvimento, que têm terra, água, sol e mão-de-obra
– quatro condições que não costumam ser encontradas
de uma só vez nos países ricos. Há países,
como os Estados Unidos, que ainda têm grandes áreas para
ocupar, mas seus aqüíferos estão comprometidos –
o maior aqüífero norte-americano já está dando
sinais de exaustão. Portanto, eles terão dificuldades
para desenvolver um megaprojeto de biocombustíveis. Na Europa,
não há mão-de-obra suficiente. Na Itália,
por exemplo, muitas propriedades rurais estão abandonadas porque
os filhos dos agricultores têm preferido trabalhar como bancários
em vez de conduzir o difícil trabalho das fazendas de seus pais.
É uma reforma agrária às avessas, porque falta
mão-de-obra.
Já os países emergentes têm todas
as condições favoráveis para expandir esse setor.
E por que essa alternativa se diferencia da segunda proposta? Porque
não há lobbies suficientes para impedir o comércio
internacional de biocombustíveis, já que os países
ricos não têm condições de produzi-los –
e então não há força política suficiente
para impedir a entrada desses produtos, que se fazem necessários
para substituir o petróleo. Como se vê, a oportunidade
é excepcional.
Vantagens
Quando uma determinada política pública
tem duas vantagens, nós já devemos abraçá-la.
Normalmente elas têm uma vantagem e um efeito colateral negativo,
e então ficamos pesando se vale a pena ou não adotá-las.
Os biocombustíveis têm seis vantagens – aquilo que
os economistas chamam de externalidades:
Primeira: produzir biocombustíveis em um determinado
país tem uma vantagem social. Para o Brasil, cada vez que produzimos
álcool ou biodiesel estamos criando empregos aqui, e não
lá, no Oriente Médio.
Segunda: uma vantagem macroeconômica:
cada barril de biodiesel que produzimos é um barril a menos de
petróleo para importar, o que ajuda nossa balança comercial.
Terceira:
há uma vantagem ambiental, que está na esteira correta
do Protocolo de Kyoto. Os biocombustíveis emitem muito menos
CO2, e portanto não contribuem para o aquecimento global e para
o efeito estufa.
Quarta:
diz respeito à saúde pública. Há pouco tempo,
vimos que há uma chance de exportar álcool para a Venezuela,
e que lá em Caracas a situação da poluição
é muito grave porque eles ainda usam o chumbo de tetraetila,
que é altamente cancerígeno. Eles ainda nem fizeram a
passagem para o MTBE, um éter que substituiu, já na década
de 80, o chumbo tetraetila. Só que esse MTBE é também
muito negativo, porque compromete os aqüíferos. E não
há tecnologia que separe esse éter da água, o que
leva à perda dos aqüíferos. A Califórnia perdeu
um grande aqüífero por causa do MTBE, e é por isso
que o álcool, que é um aditivo excepcional, o melhor do
mundo pra aumentar o poder combustível da gasolina, vem sendo
apontado como o aditivo ideal.
Quinta:
junto com a produção do álcool temos o bagaço,
que pode ser queimado para produzir energia elétrica, afastando
o risco de um novo apagão.
Sexta:
geopolítica: diminui a dependência do petróleo.
Por
tudo isso, nós precisamos fazer um esforço mundial para
incluir os biocombustíveis na Declaração de Doha
– que rege a nova rodada da OMC, no capítulo chamado “Bens
Ambientais” – para que eles fiquem isentos de tributação
no comércio internacional. Esse é um esforço pela
paz mundial, para diminuir a distância que separa os países
ricos dos países pobres. E nós podemos fazer esse esforço,
que demanda uma pressão internacional, dos parlamentos do mundo
inteiro, e que precisa da ajuda de uma instituição tão
forte, tão querida e estimada como o Rotary International.
O somatório do trabalho excepcional que esse
clube de serviços faz é muito mais do que uma andorinha
jogando uma gotinha de água no oceano, pois são centenas
de milhares de andorinhas que procuram fazer o bem no mundo inteiro.
E, no caso dos biocombustíveis, nós temos a oportunidade
de construir a paz mundial de uma forma concreta. |