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As raízes do Rotaract

Sócios fundadores do primeiro Rotaract Club, criado há 38 anos nos EUA, falam
dessa experiência e dos rumos que suas vidas tomaram desde então?

   Vanessa N. Glavinskas

  

Em 1968, os EUA eram agitados por uma série de mudanças: enquanto as mulheres queimavam sutiãs em nome de sua emancipação, diversos grupos exigiam o fim da guerra do Vietnã. Em abril daquele ano, o assassinato de Martin Luther King detonava uma série de barulhentas manifestações em todas as cidades do país.Em meio a esse clima revolucionário, um grupo de estudantes empreendedores pretendia fundar um novo clube na UCC – Universidade da Carolina do Norte, em Charlotte, nos EUA. Todo esse entusiasmo resultou na criação daquele que seria o primeiro Rotaract Club da história.

rograma do Rotary International destinado aos jovens com idades entre 18 e 30 anos, o Rotaract cresceu e atualmente conta com aproximadamente 186 mil integrantes, agrupados em mais de 8.000 clubes, presentes em cerca de 160 países.
   Embora os rotaractianos tenham mantido as tradições inauguradas por aquele clube pioneiro, pouco se conhece a respeito de seus 21 fundadores. Para resgatar essa história, fomos à procura de alguns deles para saber como estão vivendo, e quais são as suas lembranças daquele tempo. Os rotarianos sabem, há muito tempo, que o Rotaract forma líderes. Marcas registradas de todo rotaractiano até hoje, o empreendedorismo, a criatividade e o entusiasmo daqueles jovens ajudaram-nos a tornar-se homens bem-sucedidos nos anos que se seguiram ao intenso 1968.

   Bill Baumgardner
   Em 1968: presidente do clube
   Hoje: empresário e proprietário de carros de corrida

   Bill Baumgardner era calouro da UCC quando ele e seu colega Dick Helms propuseram ao RC de Charlotte-North a criação de um programa rotário em nível escolar. “Naquela época, o nosso objetivo era contribuir para o crescimento da escola e continuar a tradição do Rotary”, conta Baumgardner, que tinha sido sócio de um Interact Club na escola secundária. “Nós achávamos que seria possível encontrar um Rotary Club disposto a patrocinar uma versão universitária do Interact”.
   Aquela era uma época apropriada para novas idéias: quando Bill se inscreveu na UCC, os alojamentos ainda estavam em construção, e somente cerca de 1.800 estudantes deslocavam-se diariamente até o campus.
   A idéia de expandir o Rotary para estudantes em idade universitária foi bem acolhida por Charlie Grier, sócio do RC de Charlotte-North. “Num encontro na casa de Charlie, expusemos nossa idéia a diversos rotarianos, que a acharam interessante”, recorda Bill Baumgardner. Charlie Grier marcou um encontro com o diretor do campus e com o reitor da universidade, a quem pediu permissão para criar um clube nos moldes do Interact, patrocinado pelo RC de Charlotte-North.
   Bill conta: “A partir dali a idéia cresceu como uma bola de neve. Fomos até o conselho da universidade e, quando o Rotary nos deu a permissão oficial, tornei-me o presidente do clube”. Ele guarda até hoje, em seu escritório, a placa que recebeu do RI em agradecimento por sua atuação como presidente do clube. “Tenho uma estante envidraçada e uma parede cheias de lembranças reunidas em várias partes do mundo”, ele diz. “Aquela placa do Rotary está lá, com tudo o que significou para mim”.
   Ultrapassada a fase de Rotaract, Bill Baumgardner fundou um pequeno escritório de contabilidade. Mais tarde, ele criou a StaffAmerica, uma agência de recursos humanos que oferece apoio a diversas empresas. “No início, éramos apenas eu e uma secretária que trabalhava em meio expediente”, ele explica. “Mas nós crescemos até nos tornarmos uma empresa de quase US$ 1 bilhão”. A StaffAmerica foi vendida em 2003 e Bill mudou o rumo de seus negócios. “Aposentei-me do dia-a-dia porque quero trabalhar com meus filhos”, ele diz, contando também que está pensando em criar uma nova empresa com seus quatro herdeiros.
   Outra iniciativa de Bill Baumgardner segue de vento em popa: a Bace Motosports, escuderia que compete na série Nascar Busch Grand National e que já conquistou três campeonatos nacionais dos EUA. “Temos planos mais ousados para a equipe, mas eu ainda não posso revelá-los”, diz, fazendo segredo sobre o futuro.

   John Lafferty
   Em 1968: tesoureiro do clube
   Hoje: advogado e rotariano

   Depois de deixar o Rotaract, John Lafferty não se afastou muito de casa. Graduado em direito pela UCC, ele abriu seu próprio escritório em Lincolnton, cidade a oeste de Charlotte, onde nasceu e foi criado. Em Lincolnton, John resolveu seguir os passos do seu pai e tornou-se rotariano. “Meu pai era radiologista e minha mãe estava grávida na época em que ele fazia residência na Universidade da Pensilvânia”, conta, orgulhoso de suas raízes.
   John Lafferty e a mulher, Peggy, com quem está casado há 36 anos, viveram quase todo esse tempo em Lincolnton, cidade de 10 mil habitantes. Foi lá que eles criaram suas duas filhas e onde John reencontrou seu caminho no Rotary.
   Ao longo da sua carreira de 20 anos como advogado, ele já cuidou de casos variados, como multas de trânsito e assassinatos. “A maior parte dos meus processos, no entanto, relaciona-se a problemas ligados a imóveis”, ele explica, contando que sua experiência profissional foi útil ao RC de Lincolnton na execução do projeto do Centenário: a construção de um abrigo para famílias carentes, em cooperação com a ONG Habitat for Humanity International. “Disse para os meus companheiros: 'Eu não sou muito bom em construções, mas posso cuidar da parte legal do projeto...'”
   Essa não foi a primeira vez em que John precisou confessar sua falta de jeito com habilidades manuais. Seu primeiro projeto no Rotaract da UCC foi ajudar a construir um carro alegórico para a Parada Anual de Natal de Charlotte. “Não sabíamos nada sobre a construção de carros alegóricos – e eu, então, nem pensar!” O tema do carro alegórico era a corrida do ouro. Com a típica sorte dos principiantes, ele pôde ser finalizado a tempo – e incluía até uma montanha de papel machê com água corrente. Os rotaractianos ficaram surpresos com a primeira colocação no concurso – e mais felizes ainda pelo reconhecimento que receberam da universidade e de seu recém-fundado clube.
   John tem uma outra boa lembrança: a de ter plantado um carvalho próximo ao centro acadêmico para marcar a criação do clube. Ali nascia uma tradição mantida até hoje: toda vez que um país funda seu primeiro Rotaract Club, o clube da UCC planta uma muda de carvalho no campus.
   Em 1969, John Lafferty fez uma palestra para seus companheiros e diversos sócios do RC de Charlotte-North, resumindo a curta história do Rotaract até ali. “Aqui começou o Rotaract”, ele disse. “Não sei em que estágio estamos, mas sei que esse foi apenas um passo para o nosso futuro e o do clube. Na qualidade de estudantes e novatos na organização, nós adotamos o lema Dar de Si Antes de Pensar em Si como a ferramenta de nossa procura por melhores respostas às nossas dúvidas”.

   Dick Helms
   Na época: presidente 1966-67 (antes da fundação oficial)
   Hoje: representante comercial e pai de quatro filhos

   Logo depois de se diplomar na UCC, Dick Helms (ao lado e abaixo) deixou a presidência do Rotaract e foi convocado pelo Tio Sam para lutar na guerra do Vietnã. “Tive a sorte de permanecer na reserva”, ele conta. “Só estive no serviço ativo por seis meses, em treinamentos no Fort Jackson, na Carolina do Sul, e no Forte Dix, em Nova Jersey, de onde retornei como sargento instrutor, função que desempenhei por seis anos”.
   Em seguida, ele trabalhou numa empresa que fabricava equipamentos para produzir fibras sintéticas, assumindo seis anos depois uma posição de vendas na Deublin, empresa que produz um lacre mecânico chamado união rotativa. Dick dá uma risada: “Se você não utiliza uma peça como essa, não terá a menor idéia do que se trata!”
   Helms ainda mora em Charlotte e está casado há 30 anos com sua ex-colega de ginásio, Linda. Eles têm três filhas e um filho.
   Com a experiência de ter presidido o primeiro Rotaract Club, antes mesmo de sua fundação oficial, Dick Helms conta que mais tarde ajudou na criação de diversos outros clubes. Embora se encontre raramente com seus ex-companheiros de Rotaract, Dick ainda vê Bill Baumgardner com certa freqüência, e o auxilia em seus planos com os carros de corrida. Os dois ainda se lembram das dificuldades que encontraram para produzir o carro alegórico da parada de Natal. “Tivemos que superar um monte de dificuldades”, ele conta, explicando a dificuldade do grupo em localizar uma carroceria de caminhão plana e em construir uma montanha de papel machê.
   Já o rotariano Bill Kemp, que auxiliava o grupo com Charles Grier, diz que acreditava naqueles jovens desde o início: “Eles eram educados, responsáveis e desejavam sinceramente ajudar os outros”. Dean Colvard, que foi reitor da UCC em 1968, orgulha-se do fato de a universidade ter abrigado o primeiro Rotaract Club do mundo: “Sempre procuramos fazer com que os nossos estudantes exercitem sua liderança de forma positiva. E isso o Rotary proporciona”.
   Dean Colvard afirma isso com conhecimento de causa: do alto de seus 90 anos, ele ainda é sócio do RC de Charlotte.




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