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meados do século 19, nos jardins de um mosteiro na Áustria,
um monge chamado Gregor Mendel concluía uma série de experimentos
com ervilhas que o levariam a descobrir as leis da hereditariedade.
Hoje, cerca de 150 anos depois, a genética – essa obscura
descoberta de Mendel, que levou décadas para despertar interesse
na comunidade científica – tornou-se a vedete da Ciência
e da medicina, chegando até a opinião pública com
a promessa de novos remédios e tratamentos, e assombrando nossa
imaginação com a possibilidade dos clones.
No entanto, apesar dos evidentes benefícios
que essas conquistas tecnológicas vêm trazendo para a humanidade
em diversas áreas, muito do que é dito e publicado sobre
o assunto precisa ser analisado com cautela. Uma mostra recente disso
foi o escândalo da fraude nas pesquisas sobre clonagem terapêutica
coordenadas pelo cientista sul-coreano Woo Suk Hwang.
Outro impasse ainda não resolvido é
a definição dos limites éticos e legais desses
procedimentos. Para tentar trazer um pouco mais de luz à questão,
a cada novidade anunciada pelos laboratórios, diversos cientistas,
políticos e religiosos do mundo inteiro mobilizam as discussões
sobre até onde podemos ir nessa viagem de conquista científica.
No Brasil, o debate passa obrigatoriamente pelas opiniões
de frei Antônio Moser, assessor da CNBB – Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil – para assuntos relacionados à
bioética e diretor-presidente da Editora Vozes. Doutor em teologia
com especialização em bioética, ele é autor
de 15 livros – o mais recente é “Biotecnologia e
Bioética” – e foi um dos palestrantes do seminário
“Ética, um princípio que não pode ter fim”,
realizado pela Cooperativa Editora Brasil Rotário em novembro
do ano passado (leia a cobertura completa na BR nº 1003).
Numa concorrida apresentação, cujo resumo
apresentamos nas próximas páginas, frei Moser falou sobre
a revolução provocada pela manipulação genética
e os riscos que estão por trás dessas novas promessas.
ão
há dúvidas: estamos vivendo uma grande revolução
tecnológica e antropológica neste começo de século
21. Por causa dos vários expedientes genéticos possí-veis
hoje em dia e da presença cada vez maior do laboratório
em nossas vidas, desde o nascimento, podemos afirmar que nossos filhos
e netos serão diferentes de nós. Se dividíssemos
a história da Criação em três etapas, diríamos
que a primeira delas foi o momento de Deus; a segunda foi a revolução
industrial, quando o ser humano se apoderou de ciências e tecnologias
capazes de transformar o meio ambiente. A terceira etapa da Criação
– única na história – é a da biotecnologia,
em que nos apossamos de conhecimentos e tecnologias capazes de alterar
a nós mesmos.
Muitas dessas conquistas são positivas e se
deram também em outras áreas, como a agricultura, onde
se desenvolveu, por exemplo, o enriquecimento genético –
diferente da transgenia, ainda um ponto de interrogação
em todo o mundo – e a medicina, que registrou avanços fantásticos,
como a possibilidade de diagnósticos perfeitos que irão
permitir a antecipação da intervenção médica
e a produção de medicamentos mais eficazes, feitos sob
medida para cada paciente.
No entanto, desde que a ovelha Dolly baliu pela primeira
vez, em 1997, a humanidade não dormiu mais em paz. Nos últimos
tempos, o que está em jogo é literalmente a formatação
do ser humano através da escolha de óvulos e espermatozóides.
E como só têm lugar neste mundo aqueles que são
impecáveis, inclusive fisicamente, é natural que toda
jovem sonhe em ser a Gisele Bündchen e todo rapaz sonhe em ser
o Reynaldo Gianecchini. No nosso mundo, quem foge dos padrões
é descartado. Mas todos nós estamos carregados de defeitos
genéticos. Apenas não os notamos, porque eles estão
ocultos – o desequilíbrio dos genes é próprio
da genética, e é isso que faz com que estejamos vivos,
continuamente nos desestabilizando e reorganizando geneticamente.
Particularmente, creio que a eugenia e a manipulação
trazem grandes riscos. Quem manipula dá forma à matéria
informe, e para manipular com perfeição é preciso
muita inteligência e arte. A manipulação se dá
através de diversos setores, como a educação, a
mídia e até a religião – por isso, como bem
disse o jornalista Adolfo Martins, “nós temos que cultivar
uma consciência crítica, analisar os fatos, perguntar sobre
o que está ocorrendo”.
Mas nenhuma manipulação consegue ser
tão expressiva e decisiva quanto a manipulação
genética, que atinge inclusive as gerações futuras.
É preciso que a mídia seja mais responsável ao
veicular informações sobre os avanços da biotecnologia.
É o caso das células-tronco: antes de tudo, é preciso
começar a distinguir o que é um embrião e o que
são as células que já estão diferenciadas.
Esse embrião já tem código genético próprio,
original – e friso: não é o código genético
da mãe. Isso não é uma questão religiosa,
mas científica.
Em seu livro “A Falácia Genética:
a ideologia do DNA na imprensa” (Escrituras, 336 páginas),
Cláudio Tognolli fala dos milagres que são prometidos
hoje em dia, milagres que nem Jesus Cristo fez. Aliás, Cristo
poderia ter interferido no nosso código genético, mas
não interferiu por quê? Porque a nossa condição
humana é sempre uma condição limitada, e o maior
pecado é querer se colocar no lugar de Deus.
Genética
não é a vilã
A Igreja é contra o progresso? Não,
nós somos a favor daquilo que humaniza. Mas faz parte da humanização
o enfrentamento de nossos próprios defeitos e limitações.
Na CNBB, nós temos especialistas que pesquisam o assunto e afirmam:
ainda é preciso fazer muitas experiências sobre genética,
mesmo no caso das células adultas.
Aliás, a genética não é
a grande vilã da humanidade. Na verdade, ela é responsável
por relativamente poucos dos males que nos atingem. A cada segundo,
há milhões de operações genéticas
ocorrendo dentro de nós, e que estão funcionando com perfeição.
Algumas vezes, uma delas dá um defeito, mas isso já faz
parte da história da Criação. A questão
não é se devemos ou não realizar pesquisas com
as células, mas como realizar e a que preço. Nós
temos centros de biotecnologia avançadíssimos, mas os
postos de saúde das cidades onde eles estão localizados
são péssimos. Em primeiro lugar, deveríamos atender
as necessidades mais urgentes de todos. Quantos milhares de iraquianos
nasceram perfeitos e agora estão vivendo estraçalhados
por armas sofisticadíssimas?
O ponto seguinte é a busca de luzes na própria
Teologia da Criação. Deixemos de ser a Igreja do não
para nos tornarmos a Igreja do sim – do sim à vida de todos
e do sim à saúde, mas sem ilusões. E a saúde
não é adquirida somente na loteria genética: ela
é uma conquista de cada pessoa, depende inclusive dos nossos
relacionamentos, pois quem não ama e não é amado
não é saudável.
Deus nos confiou a administração de
tudo, inclusive do nosso corpo. O problema começa quando a gente
pergunta: esse homem é o mesmo do ano passado depois de tantas
próteses e chips? E na medida em que começarmos a interferir
diretamente no código genético, a pergunta será:
qual é o meu corpo?
Deus nos confiou a administração de
nosso corpo desde que ela seja sábia – e para ser sábia
ela tem que olhar para o passado, o presente e o futuro. Nós
não somos donos do mundo. Quem somos nós para determinar
quem vai ou não nascer? E adianta realizarmos tanta pesquisa
genética se continuamos destruindo o meio ambiente? Essa é
uma contradição muito grande. Não há solução
fácil para problemas difíceis. As doenças são
problemas difíceis, fenômenos complexos que remetem ao
meio ambiente, às relações humanas, à alimentação
e às condições de vida.
Temos que aprender a conviver com os diferentes. Toda
essa ideologia conduz à padronização: todo mundo
com o mesmo sorriso, com o mesmo rosto, mesmo modo de andar... O primeiro
e maior desafio é conviver nas diferenças e louvar o Deus
que nos fez originais. Depois, vencer o medo diante do que é
novo. Todas essas conquistas são muito bonitas, e serão
ainda mais quando forem realmente democratizadas, quando todo progresso
científico e tecnológico nos ajudar a sermos mais irmãos
e mais irmãs.
Ao
final da palestra, frei Moser respondeu às perguntas da platéia.
Ele falou sobre temas polêmicos, como a eutanásia, e explicou
a posição da Igreja Católica em relação
às células-tronco.
Qual
a sua opinião sobre o aborto para fetos com anomalias?
Frei Moser: A primeira coisa que
me parece cada dia mais clara, do ponto de vista científico mesmo
– para não dizer somente religioso – é que
a vida se inicia efetivamente como humana a partir da fecundação.
E toda a vida deve ser respeitada, não importa em que fase esteja,
não importa se a consideremos normal ou anormal. Caso contrário,
o que vamos fazer com os iraquianos que perderam pernas e braços
na guerra? Vamos liquidá-los? O que vamos fazer com as pessoas
idosas, ou com as que estão na fase terminal de alguma doença?
Vamos apressar sua morte? Ou respeitamos a vida desde o momento da fecundação
até a morte ou nos julgaremos no direito de decidir quem vai
e quem não vai morrer.
Infelizmente, a lógica do mundo tem sido essa:
a lei do mais forte. Mas a lógica de Deus não é
essa, é a lei do mais fraco, do que precisa de mais amor e carinho.
Jesus afirma que nossa salvação vai depender exatamente
das nossas obras de misericórdia, e não cabe a nós
decidir quem vai viver ou quem vai morrer, cabe a nós oferecer
o melhor de nós mesmos para que todos consigam viver melhor.
E
a eutanásia?
É um tema que precisa ser discutido junto com
a questão do aborto. Aliás, eu seria um pouquinho incisivo
nesse ponto: hoje, na medida em que se discute o problema do aborto,
na realidade o que se quer legalizar é a eutanásia. A
previdência está falida e, portanto, é preciso apressar
a partida de muitos convidados para o banquete da vida – e também
não deixar que novos convidados entrem, sobretudo se eles não
tiverem aquele rosto e aquele perfil que julgamos perfeitos.
Eu acho que hoje, no Brasil, há um certo número
de pessoas que são superfinanciadas por multinacionais e empresas
de biotecnologia para nos provar isso e aquilo, que Deus não
existe, e por aí vai. Para eles, tudo é fruto do acaso,
tudo é química. Mas nós sabemos que cada segundo
da nossa vida é um verdadeiro milagre. O simples fato de eu estar
aqui falando para vocês é um milagre, considerando-se o
milagre da articulação de milhões de elementos
necessários para que isso aconteça.
Mas Deus é tão sábio que, para
sermos gerados, nós precisamos de quatro braços: o abraço
entre um homem e uma mulher. Para virmos à luz, pelo menos da
maneira convencional, nós precisamos de dois braços que
nos retirem do útero materno. E até para sermos conduzido
à sepultura nós precisamos de outros braços. Ou
seja: todos nós, de alguma maneira, somos deficientes. E por
outro lado, todos nós temos muitos talentos que talvez nem conheçamos.
As pessoas que têm necessidades especiais estão aí
para que possamos desenvolver os nossos talentos, sobretudo o amor e
a doação.
O
senhor acredita que os tratamentos mais modernos baseados na biotecnologia
vão beneficiar toda a população ou somente aqueles
pacientes com condições de pagar?
A medicina hoje pode prevenir doenças e restaurar
a saúde do paciente de uma maneira cada vez mais sofisticada.
O grande drama é que, para ter uma vida saudável, as pessoas
precisam ter uma série de necessidades básicas atendidas
que a medicina não pode oferecer, como amor e condições
mínimas de alimentação e higiene. Um terço
dos cerca de 6,3 bilhões de habitantes da Terra está sem
recursos mínimos necessários para levar uma vida humana.
Isso mostra a cegueira da nossa civilização: por um lado,
investimos em pesquisa e criamos expectativas de mais saúde e,
por outro lado, se produzem armas de guerra e bolsões de miséria
– porque a miséria e a fome não são frutos
do acaso, mas falta de vontade política e, sobretudo, maldade,
aquilo que nós chamamos de pecado.
Qual
é a posição da Igreja em relação
à cremação?
Não há problema nenhum. Nós viemos
do pó e ao pó retornaremos. Inclusive, eu, pessoalmente,
acho que vou deixar no testamento que prefiro ser cremado.
A
Igreja Católica ainda se oporia às células-tronco
se um dia essa técnica se tornasse realmente eficaz, ajudando
uma pessoa que tivesse sofrido um derrame, por exemplo, a voltar a andar
e falar?
Isso dependeria da procedência da célula.
Se fosse uma célula adulta, daquelas que você pega do seu
próprio corpo, não haveria problemas, ao contrário,
seria uma maravilha. Todo verdadeiro progresso humano nos levará
a glorificar o Deus que nos ensina os caminhos para vivermos melhor.
Mas se essa técnica só se mostrar eficaz com a utilização
de células de embrião – o que eu acho que ainda
assim não vai acontecer – a Igreja é contra. Ninguém
tem o direito de matar um irmão para viver. Pelo contrário:
nós temos que dar a vida pelo nosso irmão para que ele
viva.
Isso é um crime, sobretudo porque dá
a entender que os males do mundo vêm da genética. Não,
eles vêm do pecado, da fome, da exploração, vêm
da tortura, enfim, de toda a maldade humana. Esse é o problema.
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