| liberdade
de expressão, base de qualquer democracia madura, é garantida
através de uma imprensa livre. É justamente neste ponto
que o jornalismo – homenageado no dia 07 de abril, mês das
revistas regionais do Rotary – deixa de ser apenas uma atividade
empresarial para se tornar uma função de interesse público,
cujas responsabilidades devem ser constantemente examinadas pelos profissionais
da área e pela sociedade. Esta avaliação foi o
centro da exposição do jornalista Adolfo Martins, presidente
do Grupo Folha Dirigida, no seminário “Ética, um
princípio que não pode ter fim”, realizado pela
Brasil Rotário no final do ano passado em parceria com a Associação
Comercial do Rio de Janeiro e a Folha Dirigida.
Leia a seguir a reprodução da palestra de Adolfo Martins.
Assimetrias
Não há como refletir sobre o papel ético
da mídia sem desenhar, em linhas gerais, o entorno da sociedade
sobre a qual essa mídia atua, que ela espelha, influencia e questiona
– ou deveria questionar. A mídia é um espelho que
reflete a realidade, mas também pode ser um instrumento que cobra
mudanças. São assimetrias da riqueza concentrada
com a pobreza massificada; do conhecimento com a ignorância; do
doutor com o analfabeto; do privilégio com a exclusão;
da vida real com a vida telerreal; do cidadão pleno com o cidadão
mínimo.
São assimetrias que emolduram uma realidade
de angústias, perplexidades e temores, e que clamam por mudanças,
justiça, emprego e dignidade. São assimetrias, enfim,
que sinalizam desencontros – da economia com o desenvolvimento
social; da política com os bons costumes; do crescimento com
a distribuição de renda; da globalização
com o humanismo; do mercado com o indivíduo; da participação
política com a alienação.
São assimetrias cuja síntese é
a própria violência social, clamando por mudanças
que sejam articuladas pela construção da cidadania como
horizonte para uma convivência social marcada pela inclusão,
incentivada pela democratização do conhecimento e pela
abertura de oportunidades do trabalho socialmente útil.
Entendemos assim que, do ponto de vista ético,
o trabalho da mídia deve ter sua centralidade focada na
responsabilidade social e na valorização das pessoas.
A ética jornalística deve ser entendida como a liberdade
de informar exercida com responsabilidade. Essa vaguidade conceitual
deve ser materializada através da informação correta,
da crítica construtiva, da denúncia responsável,
da investigação criteriosa, da opinião transparente,
do debate plural e também do reconhecimento e da mobilização
de energias aos que travam o bom combate, nas mais variadas frentes,
e que não renunciam às suas cotas de contribuição
social.
Espaço
para reflexão
O jornalismo precisa cumprir, na sua plenitude, a
vocação de oxigenar o tecido social com o relato do que
acontece nos diversos segmentos. Deve fazer isso ancorado por uma diretriz
de consistente seriedade. Deve ser uma trincheira da liberdade de expressão,
exercitando-a através do acolhimento da pluralidade de opiniões.
E deve também ter noção do seu papel de estimular
a reflexão sobre temas-chave como inclusão, democratização
do conhecimento, ética na política e nas outras esferas
e, sobretudo, a busca do desejado equilíbrio social.
O jornalismo deve, certamente – e recorrendo
ao próprio jargão jornalístico – cuidar de
sua diagramação ética; formatar uma linha
editorial cidadã; acionar as rotativas e as telas para a
oxigenação de idéias; deve consumir suas tintas
e imagens com a veracidade dos fatos; e deve fazer de sua circulação
e de sua audiência uma plataforma para mobilizar energias, ecoar
vozes do inconformismo e clamar pelo aprimoramento da sociedade. O jornalismo
não deve se deixar seduzir pelos sofistas contemporâneos,
aqueles que acham, sempre em proveito próprio, que a versão
é sempre muito mais importante que o fato.
O jornalismo também não pode se transformar
num mero caleidoscópio de informações ajuntadas
de forma aleatória, desconexa e isolada de seu entorno social.
Nesse sentido, talvez se possa afirmar que, pela própria subjetividade
dos atores que envolvem o trabalho jornalístico, torna-se difícil
a busca da objetividade fria, da neutralidade teórica, da imparcialidade
ideológica. A informação deve, de alguma forma,
estar contextualizada, oferecendo algum sentido analítico. E,
quantas vezes, o jornalismo não abre espaço para poliglotas
de sonhos sociais, para polífonos de esperanças humanas,
para propagadores de utopias políticas, ideólogos do solidarismo,
defensores do empreendedorismo e para crentes do construtivismo humano?
Esta talvez seja uma das funções nobres
do jornalismo: quando ele se coloca como um elemento desencadeador de
discussões e debates sobre temas da maior relevância para
a sociedade. O jornalismo, entretanto, na sua missão de informar
e de influenciar a opinião pública, não está
desconectado do seu conceito de indústria e atividade empresarial.
Isso, entretanto, sob o enfoque ético, não
lhe dá o direito de se transformar em balcão de negócios,
de calar por astúcia, sonegar fatos por conveniência, omitir
posições por cumplicidade, barganhar independência
por esperteza ou trincar sua integridade por sobrevivência. O
grande patrimônio do jornalismo é, essencialmente, a busca
incessante da credibilidade. É isso que lhe confere grandeza,
que lhe permeia a força e fideliza o leitor. Essa credibilidade
é construída pela aliança com a comunidade a que
se propõe servir como espelho de sua própria fermentação
social, econômica, política ou esportiva.
Ética
e educação
Para firmar essa aliança, entretanto, torna-se
indispensável que se tenha clareza sobre quais são esses
interesses, que tipo de comunidade se deseja servir e que tipo de sociedade
se espera ajudar a construir. Na verdade, a ética do cidadão
é a plataforma e a essência de qualquer proposta ética
nos diversos segmentos sociais. O jornalista, o médico, o advogado,
o porteiro, o vendedor, o professor, enfim, qualquer profissional só
poderá dar sua contribuição ética se tiver
sedimentado seus valores éticos centrais como cidadão.
Certamente, os valores inerentes à ética só fazem
sentido se estiverem inscritos no conjunto da sociedade, como um sistema
interligado.
Nesse processo de reflexão e sedimentação
de alguns princípios éticos basilares e valores morais
fundamentais que sinalizem alguma luz no fim do túnel, o papel
da educação é importante, assim como é importante
não confundirmos informação (a matéria-prima
do jornalismo) com conhecimento (esse degrau crescente do pensar crítico).
Na realidade, uma informação é deslocada por outra
informação; um conhecimento agrega-se a outro conhecimento.
E é o conhecimento que consegue se contrapor
às forças ocultas ou visíveis que tentam imobilizar
mudanças sociais através da penumbra de um determinismo
fatalista que apregoa uma sociedade pré-moldada, sem história,
sem perspectiva, sem esperanças, sem utopias e prisioneira de
si mesma. E não basta dar um sentido meramente utilitarista ao
conhecimento, transformando-o em mero instrumento para satisfazer as
necessidades do mercado de trabalho. É preciso que ele seja um
instrumento para a vida e para o exercício da cidadania plena.
Por isso, é fundamental uma permanente visão
humanista, injetando valores do espírito, instigando o inconformismo
intelectual para que se formem pessoas plenas, abrindo-lhes caminhos
para a inclusão social e também para a inclusão
política e midiática – aquela que ajuda a percorrer,
criticamente, esse cipoal de informações e ajuda a cobrar
da mídia o constante aprimoramento do exercício de sua
função social. Apoiemo-nos na conceituação
de ética que, nas palavras da filósofa Marilena Chauí,
“é a parte da filosofia que se dedica à análise
dos próprios valores e das condutas humanas, indagando sobre
seu sentido, sua origem, seus fundamentos e finalidades”.
Edificando
valores
Ethos, no seu sentido originário grego, significa
a toca do animal ou a casa humana, local onde o homem edifica seus valores.
Pois cada um de nós, através das pequenas atitudes e dos
pequenos exemplos, deve cuidar dessa casa interna, procurando o abrigo
para o verdadeiro crescimento humano, através da argamassa ética,
da necessária reflexão sobre a alienação
política e social que tem sido refletida pela violência,
pelo simulacro, pela desumanização, pela catástrofe
ecológica e pela concentração de poder. E que,
por isso, é preciso, cada vez mais, que a mídia abra seu
espaço para questionar, debater e buscar alternativas para uma
sociedade indigente, que sufoca, estrangula e, muitas vezes, transforma
o homem num ser perambulante, à espera de uma prótese
do espírito, como se estivesse com suas esperanças e seus
valores éticos amputados.
A mídia pode e deve dar sua contribuição,
acolhendo também as vozes daqueles que clamam contra a perversidade
de qualquer sistema social e econômico que produza o deficiente
cívico, que massifique o cidadão mínimo, que forme
o analfabeto político ou que multiplique o indigente desprotegido.
Ainda dentro de suas possibilidades, a mídia também pode
amplificar as idéias reflexivas sobre o dever ético de
não se render à desilusão, de não pactuar
com promessas que se esvaem como fumaça, nem com propostas que
estouram como bolhas ou soluções panacéicas que
se rompem como teias de aranha.
E também poderia construir um coro com todos
os que acreditam na força da educação como estopim
democrático para alterar a rota de colisão social, para
recalcular a equação dos privilégios e recontabilizar
a concentração de riquezas. E pode reforçar a idéia
dos que acreditam que não haverá equilíbrio social
possível, não haverá distribuição
de renda viável, dignidade humana palpável, democracia
estável, nem desenvolvimento sustentável fora da matriz
educacional.
“Os meios são frações dos
fins”, disse o educador Anísio Teixeira. Que a mídia,
balizada por sua crescente influência nos novos tempos, possa
ser uma fração importante nessa busca de revitalização
dos nossos valores éticos.
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