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Esperanto é um anseio de paz

Aumenta de importância, a cada dia, a língua
criada por Zamenhof no final do século 19

José Alves Fortes

m algum lugar de um passado longínquo, o poderoso rei Nemrod, para provar sua incomensurável força, mandou construir uma torre que, de tão alta – posto que infinita – haveria de ser o caminho para instalar seu reino no céu, de onde passaria a dominar os povos da Terra: a Torre de Babel. A certa altura, ele pegou seu arco e arremessou uma flecha de ouro contra Deus, desafiando o senhor de todas as coisas, aquele que arquitetou o Universo.
   Imediatamente, os raios cruzaram o firmamento e, como castigo a tamanha insanidade e desrespeito, o Criador fez com que as centenas de obreiros e escravos envolvidos na construção da torre começassem a falar línguas diferentes, impossibilitando assim qualquer compreensão entre eles. Os encarregados pediam água e lhes traziam pedra, pediam madeira e recebiam barro, e assim por diante, até que tudo se desmoronou.
   Desde então, a humanidade vem refletindo a Torre de Babel, tais os conflitos e divergências culturais enraizados há séculos nas mentes, nos espíritos e nos corações dos homens.

   CL 2004 e o Esperanto
   O Conselho de Legislação – que é o parlamento do Rotary International – é convocado a cada três anos. Em 2004, ele aconteceu na histórica cidade de Chicago, nos EUA, berço de nossa organização. Um dos delegados brasileiros, o EGD José Marques Zago, intérprete das aspirações do distrito 4530, defendeu um Projeto de Resolução propondo que a língua esperanto fosse reconhecida pelo board do RI como mais um instrumento de aproximação entre as nações rotárias. Decidi apoiá-lo, indo também à tribuna do conclave. Não logramos o êxito esperado. Entretanto, jamais me arrependi daquele gesto por conhecer, em muitos distritos do nosso país, a crescente prática e simpatia por esse idioma, por insignes personalidades, rotárias ou não, e figuras públicas portadoras de inquestionável credibilidade.
   Em Minas Gerais, citaria o EDRI Hipólito Sérgio Ferreira, o ex-reitor da Universidade Federal de Juiz de Fora José Passini, que oficializou o esperanto no Curso de Letras, o professor Maurício Santiago Couto, matemático de renome, e o líder esperantista Elio Lopes de Oliveira.
   Para minha alegria de professor de inglês e simpatizante do esperanto, deparei com um excelente artigo na página 32 da The Rotarian de fevereiro, mês da compreensão mundial, parte de uma ampla reportagem sobre a necessidade de se aprender algum idioma, além do nativo, como instrumento capaz de aproximar as pessoas e as nações na busca da paz. O texto detalha o trabalho que rotarianos amantes do esperanto vêm desenvolvendo desde 1928, quando foi criado o Grupo de Companheirismo Mundial de Esperantistas. Meu grande interesse pelo assunto levou-me a traduzir este artigo para o português.

   Uma língua comum
   Desde que foi criado em 1928, o Grupo de Companheirismo Mundial de Esperantistas tem trabalhado para favorecer o entendimento entre as pessoas de diferentes origens. Aproximadamente 100 membros desse grupo – o primeiro no Rotary – usam o esperanto para estabelecer amizades e cultivar a compreensão e a boa-vontade internacionais. Membros do grupo falam em Rotary Clubs, publicam um jornal informativo e organizam estandes nas convenções internacionais.
   O esperanto foi desenvolvido como idioma em 1887 pelo médico Ludwig Lazar Zamenhof, que estava transtornado pelo ódio racial entre os alemães, judeus, russos e poloneses em sua cidade natal, hoje conhecida como Bialystok, na Polônia. Zamenhof escreveu em uma carta: “Este lugar onde eu nasci e passei minha infância deu a direção para todos os meus esforços futuros. Nesta cidade, mais que em qualquer lugar, um indivíduo observador sente a forte carga das diferenças lingüísticas e é convencido, todo o tempo, de que a diversidade das línguas é a única ou, pelo menos, a principal causa que separa a família humana e a divide em grupos conflitantes. Eu continuei dizendo a mim mesmo que, quando fosse crescido o bastante, certamente lutaria para destruir esse mal”.
   Aos 19 anos de idade, Zamenhof tinha criado sua própria língua como uma forma de unir as pessoas de diferentes origens raciais. Com base no latim e nas línguas derivadas dele – as chamadas línguas românticas – no esperanto cada palavra é pronunciada exatamente da forma como é escrita, e não há letras surdas. Os substantivos não têm gênero e terminam em o; há somente uma conjugação verbal; todos os plurais são formados da mesma maneira; e um prefixo pode ser adicionado a qualquer palavra para transformá-la em seu oposto.
   O número de pessoas que falam o esperanto não é preciso. Estimativas oscilam entre 100 mil e 8 milhões, com um levantamento fixando o número em 2 milhões. Entre as pessoas notáveis que falam o esperanto, estão muitos vencedores do Prêmio Nobel, a campeã do Mundial Feminino de Xadrez, ZsuZsa Polgar, e Tivadas Soros, pai do financista George Soros. Em 1965, o astro da TV William Shatner – o Capitão Kirk do seriado norte-americano “Jornada nas Estrelas” – trouxe essa língua para a indústria cinematográfica ao protagonizar um filme de terror (que acabou tornando-se cult) todo falado em esperanto: “Incubus”. No front literário, livros como “O Senhor dos Anéis” e “Cem Anos de Solidão”, assim como as peças teatrais de Shakespeare, foram traduzidos para o idioma.
   E quase todo ano, desde 1905, um congresso internacional de esperanto tem sido realizado em alguma cidade do mundo – em 2006, o encontro aconteceu em Florença, na Itália. No primeiro congresso, ocorrido na França, Zamenhof discursou para 688 falantes de esperanto, oriundos de 20 países. “Nós mostraremos ao mundo que o entendimento entre as pessoas de diferentes nações é perfeitamente possível”, ele disse. “Deixemos que venham até nós aqueles que afirmam que uma língua neutra, produzida pela inteligência, não pode prosperar. Eles mudarão de idéia – e se converterão”.




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