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algum lugar de um passado longínquo, o poderoso rei Nemrod, para
provar sua incomensurável força, mandou construir uma
torre que, de tão alta – posto que infinita – haveria
de ser o caminho para instalar seu reino no céu, de onde passaria
a dominar os povos da Terra: a Torre de Babel. A certa altura, ele pegou
seu arco e arremessou uma flecha de ouro contra Deus, desafiando o senhor
de todas as coisas, aquele que arquitetou o Universo.
Imediatamente, os raios cruzaram o firmamento e, como
castigo a tamanha insanidade e desrespeito, o Criador fez com que as
centenas de obreiros e escravos envolvidos na construção
da torre começassem a falar línguas diferentes, impossibilitando
assim qualquer compreensão entre eles. Os encarregados pediam
água e lhes traziam pedra, pediam madeira e recebiam barro, e
assim por diante, até que tudo se desmoronou.
Desde então, a humanidade vem refletindo a
Torre de Babel, tais os conflitos e divergências culturais enraizados
há séculos nas mentes, nos espíritos e nos corações
dos homens.
CL
2004 e o Esperanto
O Conselho de Legislação – que
é o parlamento do Rotary International – é convocado
a cada três anos. Em 2004, ele aconteceu na histórica cidade
de Chicago, nos EUA, berço de nossa organização.
Um dos delegados brasileiros, o EGD José Marques Zago, intérprete
das aspirações do distrito 4530, defendeu um Projeto de
Resolução propondo que a língua esperanto fosse
reconhecida pelo board do RI como mais um instrumento de aproximação
entre as nações rotárias. Decidi apoiá-lo,
indo também à tribuna do conclave. Não logramos
o êxito esperado. Entretanto, jamais me arrependi daquele gesto
por conhecer, em muitos distritos do nosso país, a crescente
prática e simpatia por esse idioma, por insignes personalidades,
rotárias ou não, e figuras públicas portadoras
de inquestionável credibilidade.
Em Minas Gerais, citaria o EDRI Hipólito Sérgio
Ferreira, o ex-reitor da Universidade Federal de Juiz de Fora José
Passini, que oficializou o esperanto no Curso de Letras, o professor
Maurício Santiago Couto, matemático de renome, e o líder
esperantista Elio Lopes de Oliveira.
Para minha alegria de professor de inglês e
simpatizante do esperanto, deparei com um excelente artigo na página
32 da The Rotarian de fevereiro, mês da compreensão mundial,
parte de uma ampla reportagem sobre a necessidade de se aprender algum
idioma, além do nativo, como instrumento capaz de aproximar as
pessoas e as nações na busca da paz. O texto detalha o
trabalho que rotarianos amantes do esperanto vêm desenvolvendo
desde 1928, quando foi criado o Grupo de Companheirismo Mundial de Esperantistas.
Meu grande interesse pelo assunto levou-me a traduzir este artigo para
o português.
Uma
língua comum
Desde que foi criado em 1928, o Grupo de Companheirismo
Mundial de Esperantistas tem trabalhado para favorecer o entendimento
entre as pessoas de diferentes origens. Aproximadamente 100 membros
desse grupo – o primeiro no Rotary – usam o esperanto para
estabelecer amizades e cultivar a compreensão e a boa-vontade
internacionais. Membros do grupo falam em Rotary Clubs, publicam um
jornal informativo e organizam estandes nas convenções
internacionais.
O esperanto foi desenvolvido como idioma em 1887 pelo
médico Ludwig Lazar Zamenhof, que estava transtornado pelo ódio
racial entre os alemães, judeus, russos e poloneses em sua cidade
natal, hoje conhecida como Bialystok, na Polônia. Zamenhof escreveu
em uma carta: “Este lugar onde eu nasci e passei minha infância
deu a direção para todos os meus esforços futuros.
Nesta cidade, mais que em qualquer lugar, um indivíduo observador
sente a forte carga das diferenças lingüísticas e
é convencido, todo o tempo, de que a diversidade das línguas
é a única ou, pelo menos, a principal causa que separa
a família humana e a divide em grupos conflitantes. Eu continuei
dizendo a mim mesmo que, quando fosse crescido o bastante, certamente
lutaria para destruir esse mal”.
Aos 19 anos de idade, Zamenhof tinha criado sua própria
língua como uma forma de unir as pessoas de diferentes origens
raciais. Com base no latim e nas línguas derivadas dele –
as chamadas línguas românticas – no esperanto cada
palavra é pronunciada exatamente da forma como é escrita,
e não há letras surdas. Os substantivos não têm
gênero e terminam em o; há somente uma conjugação
verbal; todos os plurais são formados da mesma maneira; e um
prefixo pode ser adicionado a qualquer palavra para transformá-la
em seu oposto.
O número de pessoas que falam o esperanto não
é preciso. Estimativas oscilam entre 100 mil e 8 milhões,
com um levantamento fixando o número em 2 milhões. Entre
as pessoas notáveis que falam o esperanto, estão muitos
vencedores do Prêmio Nobel, a campeã do Mundial Feminino
de Xadrez, ZsuZsa Polgar, e Tivadas Soros, pai do financista George
Soros. Em 1965, o astro da TV William Shatner – o Capitão
Kirk do seriado norte-americano “Jornada nas Estrelas” –
trouxe essa língua para a indústria cinematográfica
ao protagonizar um filme de terror (que acabou tornando-se cult) todo
falado em esperanto: “Incubus”. No front literário,
livros como “O Senhor dos Anéis” e “Cem Anos
de Solidão”, assim como as peças teatrais de Shakespeare,
foram traduzidos para o idioma.
E quase todo ano, desde 1905, um congresso internacional
de esperanto tem sido realizado em alguma cidade do mundo – em
2006, o encontro aconteceu em Florença, na Itália. No
primeiro congresso, ocorrido na França, Zamenhof discursou para
688 falantes de esperanto, oriundos de 20 países. “Nós
mostraremos ao mundo que o entendimento entre as pessoas de diferentes
nações é perfeitamente possível”,
ele disse. “Deixemos que venham até nós aqueles
que afirmam que uma língua neutra, produzida pela inteligência,
não pode prosperar. Eles mudarão de idéia –
e se converterão”.
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