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“Mia” de Lourdes Villiers Farrow,
filha do diretor de cinema John Farrow, de Hollywood, e da legendária
atriz Maureen O’Sullivan teve uma infância dourada. Porém,
no seu nono aniversário, Farrow caiu ao chão durante uma
brincadeira, e não conseguiu se levantar. Os médicos diagnosticaram
poliomielite, que teve um surto nos anos 1950. Ela ficou hospitalizada
por oito meses, e sua infância foi bruscamente interrompida. “A
escritora Susan Sontag disse que todos nós carregamos dois passaportes:
um para a Terra do Bem, e outro para a Terra da Doença,”
observou Farrow em data recente. “A qualquer instante, o passaporte
para a Terra do Bem pode ser cancelado, e nós ficamos isolados
na Terra da Doença.” Sua vida mudou profundamente, a partir
do confinamento em hospital. Desde então, ela tem se dedicado
a causas humanitárias. Em setembro de 2000, foi escolhida pela
ONU como Embaixadora da Boa Vontade, e tem viajado em missões
humanitárias para Angola, Botsuana, Nigéria, África
do Sul e Sudão. “Minha tarefa principal é absorver
o que for possível, e relatar ao mundo o que está sucedendo,
de forma a obter maior interesse e a ajuda das pessoas,” diz Farrow.
“Quando falo, sinto-me como se estivesse dando voz àquelas
almas sofredoras e silentes.”
Ela concedeu esta entrevista a Vince Aversano, editor-chefe
da The Rotarian, no escritório de Nova York do Unicef.
Durante
muitos anos você tem desenvolvido um trabalho humanitário,
em especial em colaboração com o Unicef. Como começou
esse relacionamento?
Fui indicada Embaixadora da Boa Vontade em 2000, na
primeira Cúpula Global dos Parceiros Polio Plus, um encontro
que reuniu os líderes no apoio ao combate à pólio.
Fiz uma palestra e afirmei que me sentia na obrigação
moral de estar ali, em nome de todas as crianças do mundo atingidas
pela pólio, pois eu mesma tinha sido acometida pela doença
quando criança, e meu irmão de 12 anos, Thaddeus, contraiu
a pólio quando vivia num orfanato, na Índia.
Como você ficou sabendo da existência
do Rotary?
Antes da minha ligação com o Unicef,
eu mal tinha ouvido falar do Rotary. No meu imaginário, o Rotary
era uma sociedade secreta, mas eu nem disso tinha certeza. A partir
do meu envolvimento com a campanha contra a pólio, tornei-me
muito consciente do que é o Rotary, e sou imensamente grata e
orgulhosa por fazer parte de uma parceria tão significativa.
Qual foi a sua primeira experiência
real, no trabalho em cooperação com o Rotary?
O primeiro rotariano que encontrei foi numa missão
da ONU à Nigéria, em 2001, para ajudar num Dia Nacional
de Imunização. Na verdade, o evento durou vários
dias, e 40 milhões de pessoas foram imunizadas contra a pólio.
Meu filho Ron estava comigo, e aquela foi uma preciosa experiência
para ele.
De que forma a missão a afetou?
Meus olhos foram abertos. Visitei quatro países,
onde o Unicef desenvolvia programas educacionais e sanitários.
Constatei como a cadeia funciona; para alcançar cada criança
– rios abaixo, montanhas acima, viajando no dorso de camelo e
em canoa – tudo para imunizá-los. Foi gratificante ver
a cooperação entre rotarianos, a Organização
Mundial da Saúde (OMS) e a população civil. Vi
voluntários, escoteiros, professores e policiais unir suas forças
à procura de cada criança. Nosso alvo era imunizar todas
as crianças abaixo dos cinco anos de idade. Foi uma experiência
valiosa, levando em conta a minha própria história, como
acometida pela pólio.
Você afirmou que a sua infância
era “mágica,” até que a pólio lhe atacou.
Descreva a sua experiência.
Eu vivia uma vida alegre e uma existência mágica,
despreocupada. Mas a pólio lançou-me na outra Terra, a
da incerteza, do medo, da dor e mesmo da morte. A pólio era,
na época, epidêmica. O medo assolava toda a América.
As pessoas não iam aos cinemas. Não se nadava em piscinas
públicas. Mas nós tínhamos a nossa própria
piscina e sala de exibição, e eu nem pensava na pólio
quando, por ocasião do meu nono aniversário, eu simplesmente
caí ao chão e não pude me levantar. Duas punções
na espinha, e eu me encontrava no setor público para doenças
contagiosas do Hospital Central de Los Angeles, com o diagnóstico
de pólio. Pensei que poderia morrer.
Você afirmou, também, que o estigma
da pólio era quase tão doloroso quanto a doença
em si mesma.
Quando retornei para minha casa, oito meses depois
de ter ficado num pulmão de aço (NE: equipamento que era
usado para permitir a respiração), minha família
mudou-se para novo endereço, e só o meu pai ficou na casa.
A casa foi repintada. O papel de parede e o carpete foram removidos.
A piscina foi esvaziada. Demos o cachorro. Não havia cura e nem
prevenção, e ninguém sabia como o mal era transmitido.
Tornei-me uma pária. Meus colegas me evitavam. As pessoas tinham
receio de me convidar para qualquer coisa.
Você acha que o fato de ter contraído
a pólio ainda muito jovem condicionou o seu engajamento com o
bem-estar das crianças?
Creio que adquiri um senso exagerado de comiseração
por qualquer pessoa que sofra e que tenha o conhecimento precoce da
existência deste outro mundo – o da doença e do estigma.
O conhecimento traz a responsabilidade. Assim, este pode ser um dos
motivos que me fizeram adotar 10 crianças, muitas delas necessitadas
de cuidados especiais. É bem provável que este sentido
de responsabilidade e de comiseração tenha nascido nos
corredores dos hospitais.
Seu irmão adotivo, Thaddeus, contraiu
a pólio. Como é a vida dele?
É uma vida muito dura. Ele se levanta penosamente
da cama e arrasta-se para o banheiro. Veste-se e desliza pelos degraus
até se erguer em direção à cadeira de rodas.
Ele não tem o uso das pernas e um dos braços é
muito fraco. Vivemos numa pequena comunidade rural, em que ele é
a única pessoa que se locomove em cadeira de rodas na sua escola.
Nestes últimos anos, temos a vacina, e o fato de Thaddeus nunca
a ter tomado diz muito sobre a nossa sociedade e sobre a comunidade
internacional. Os casos de pólio paralisante limitam-se a menos
de 1.000, no mundo todo. É encorajador, mas embora muito amargo
para o meu Thaddeus.
Você representava o Unicef em sua primeira
viagem a Darfur, no Sudão, em 2004. Com quem você se encontrou
e o que foi discutido?
Encontrei-me com alguns ministros, e desejava que
a comunidade internacional acompanhasse as minhas visitas. Eu queria
dar a impressão de que nós os estávamos procurando
para lhes pedir maior responsabilidade em relação aos
seus cidadãos. Era uma situação complicada, pois
ninguém queria conhecer o problema. Nós não podíamos
simplesmente chegar e dizer: “Sabemos que você está
perpetrando atos de genocídio ou de limpeza racial,” porque
a prioridade do Unicef é manter abertos os canais de comunicação.
Este é um assunto muito delicado, e caminha-se sobre uma linha
diplomática tênue, para não ver o Unicef ser expulso
da região, o que seria catastrófico para essas pessoas.
Mesmo assim, queremos dizer aos senhores: “Rogo que assumam sua
responsabilidade. A comunidade internacional importa-se com isto.”
Você acha que a sua mensagem atingiu
os objetivos?
Não, de forma alguma. À época,
o número de mortos listados alcançava a casa dos 70.000.
Tratava-se de uma subestimação grosseira, não só
em virtude dos massacres humanos, como das doenças e da fome.
Os números atuais são de 200.000 a 450.000. É impossível
saber. Alguns agentes de saúde ainda se encontram na região,
mas à medida que a violência cresce, também cresce
a insegurança, e eles deverão se retirar. Se isto ocorrer,
assistiremos mais centenas de milhares de mortes nos próximos
meses.
Qual a sua maior esperança, resultante
dessa viagem?
Poucas foram positivas. A mais gratificante foi ver
aqueles trabalhadores voluntários dedicarem-se com determinação,
mesmo a despeito das difíceis e perigosas circunstâncias,
para que suas muitas vezes desconhecidas organizações
prosseguissem com o seu trabalho diário. Eles são verdadeiros
heróis. Aqueles atos de bravura e o comportamento das mulheres
e crianças nos acampamentos serviram-me de inspiração
– eles ainda trazem a esperança estampada em suas faces!
Numa entrevista, no seu retorno, você
afirmou que as mulheres nos acampamentos de Darfur tinham que fazer
“uma espécie de escolha de Sofia,” entre alimentar
seus filhos e sobreviver. Fale um pouco a respeito disso.
As mulheres do acampamento de Darfur precisam de lenha
para cozinhar os alimentos que o Programa Mundial de Alimentação
lhes dá, que consiste numa espécie de milho, duro e cru.
A cocção leva cerca de duas horas e meia e as mulheres
precisam buscar lenha fora dos acampamentos. Os homens não podem
ir, porque se arriscam a ser mortos. As milícias árabes,
as Janjaweed, cercam os acampamentos em caráter permanente. Assim,
as mulheres saem à busca da lenha cada vez mais longe, à
medida que os meses avançam. Elas também são violentadas
e mortas. As mulheres mais velhas saem em defesa das filhas. O mesmo
lhes sucede. É uma decisão torturante para as mulheres,
que não têm escolha.
Os horrores que você presenciou em tantos
lugares, em todos esses anos, afetaram de alguma forma a sua crença
na humanidade?
Por incrível que pareça, eles aumentaram
a minha fé nos seres humanos. Já vi o melhor e o pior
que um ser humano pode fazer. Foi o que enxerguei gravado nos rostos
das pessoas. Elas não têm seguro, proteção,
perspectivas e vivem num clima de terror diário, e mesmo assim
pudemos observar como amam seus filhos e mostram o fervor com que esperam
e pedem a nossa ajuda. Os trabalhadores humanitários estão
fazendo todo o possível para ajudar. Não se pode mensurar
o altruísmo e a nobreza de que gente como esta é capaz.
Eu gostaria que existisse nas escolas uma disciplina dedicada desde
cedo ao estudo do genocídio, dirigida aos homens, em especial,
pois estes atos bárbaros são cometidos, na sua maior parte,
pelo sexo masculino. Eu adoraria, ainda, ver as pessoas aprenderem sobre
a resolução pacífica de conflitos, pois este assunto
pertence, também, à natureza dos seres humanos.
Logo depois desta entrevista, Farrow viajou mais uma
vez a Darfur, uma região do Sudão, como Embaixadora da
Boa Vontade. Ela escreveu um editorial para o Chicago Tribune, em 25
de julho, e concluiu: “Darfur só pode ser salva a partir
de uma força da ONU muito efetiva. Espantosamente, a ONU e a
comunidade mundial limitaram-se a simplesmente concordar, parecendo
satisfeitas por deixar o genocídio prosseguir.” Atualmente,
a situação de Darfur permanece instável.
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