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Em Salt Lake City, local da Convenção do RI deste ano,
uma coisa é certa: você vai encontrar aventura, não
importa a direção em que ande. No espaço de um
dia, por exemplo, é possível visitar Las Vegas e sete
parques nacionais. A editora sênior da The Rotarian, Janice Chambers,
esteve em dois deles – os Parques Nacionais de Arches e de Canyonlands
– e também em Moab, uma cidade do Oeste americano que tem
a cara de seu participativo Rotary Club.
O
sol se põe na terra dos cânions e compõe a luz do
cenário cinematográfico em que termino meu jantar. O céu
explode em vermelho-fogo e brilhantes tons de rosa que se espalham pelas
escuras paredes rochosas. Lá embaixo, o rio Colorado segue seu
rumo. Esse é o lugar exato onde John Wayne estrelou “Rio
Grande”, inesquecível obra do mestre John Ford, que foi
rodado aqui, assim como centenas de outros filmes, aproveitando esse
cenário espetacular e grandioso, repleto de esculturas naturais,
cânions escarpados, rios turbulentos e, por toda parte onde se
olhe, a famosa rocha vermelha dessa região, que brilha ao receber
os raios de sol. Chamado de “o lugar mais bonito do mundo”
pelo escritor Edward Abbey, o Parque Nacional de Arches fica na cidade
de Moab, a poucos minutos de onde estou hospedada agora: os chalés
de Red Cliffs, do rotariano Colin Fryer.
A
exemplo da maioria dos moradores da região, ele chegou aqui há
muitos anos à procura de um novo tipo de vida. Homem elegante
e bem-sucedido, ele perseguia um sonho de infância: ter um rancho.
Depois de alguns anos e diversos acontecimentos inesperados, Colin Fryer
é hoje dono de um vinhedo, de um resort, de estábulos
para montaria e de um museu do cinema, que fica próximo ao seu
salão para degustação de vinhos.
Mesmo sendo de fora, ele dá a impressão
de sempre ter vivido aqui. Colin é um dedicado sócio do
RC de Moab, cidade que mistura forasteiros como ele, aposentados ricos,
praticantes radicais de mountain bike, velhos hippies, ex-esquiadores
e alguns mineradores remanescentes do tempo em que a cidade era a capital
mundial do urânio. O pequeno centro de Moab ainda guarda um pouco
do antigo encanto – um tanto kitsch, é verdade –
como uma loja gigantesca encravada numa rocha que vende ossos de dinossauro
e um bar que, além de vender margarita (um drink feito à
base de tequila), também é um cyber café.
Com o passar dos anos, a região sofreu muitas
modificações. As ruínas mais antigas, deixadas
pelos povos indígenas, possuem milhares de anos. A partir de
1877, quando os mórmons começaram a se fixar na região,
só os nômades Utes viviam aqui, às margens do rio
Colorado. Em meados do século 20, Moab prosperou com o boom do
urânio, mas quando o mercado mundial do produto caiu, a cidade
acompanhou sua decadência. As lojas ao longo da rua principal
foram fechando, e alguns empresários locais, como Bob Jones,
dono de uma loja de equipamentos para excursão, foram obrigados
a pensar em uma outra vocação econômica para a região.
Foi então que eles tiveram a idéia de promover Moab como
a capital mundial do mountain bike.
O plano deles deu tão certo que atualmente
a Slickrock, uma trilha extenuante feita de arenito, e que leva quatro
horas para ser concluída, é a mais conhecida do mundo.
Não demorou para que chegassem outros apaixonados por esportes
ao ar livre. Cheia de acidentes geográficos e terrenos de tirar
o fôlego, Moab é muito procurada por praticantes de caiaque
e caminhadas, ciclistas, observadores de pássaros e amantes de
qualquer tipo de excursão em terrenos áridos. A região
é ainda o ponto de parada de ônibus cheios de turistas
que visitam o Parque Nacional de Canyolands (onde os rios Colorado e
Green se encontram) e o Parque Nacional de Arches.
Procurada por aposentados e pessoas que querem uma
casa de veraneio, Moab está numa fase de se reinventar outra
vez. Os moradores vêm discutindo temas como a utilização
de veículos motorizados na região e os interesses de mineração
despertados pelo novo crescimento do mercado mundial de urânio.
Voluntarismo
Fundado em 1957, o RC de Moab representa um corte
vertical da comunidade local, uma ponte entre o novo e o antigo. Seguindo
a tradição da maioria dos companheiros de Utah, que ostentam
o maior grau de voluntarismo entre os rotarianos dos EUA, o clube de
Moab está envolvido ativamente em diversos projetos comunitários
locais e internacionais. Muitos desses rotarianos ainda se lembram da
época em que o mercado de urânio entrou em crise e Moab
virou uma cidade-fantasma. Um deles é Hans Weibel, um suíço
que se mudou para Utah na década de 1970, vindo de Vail, no Colorado.
No meu primeiro dia em Moab, Hans me levou para uma rápida viagem
de jipe ao longo de sua trilha preferida, a Fins and Things. Ao subir
aquelas rochas quase verticais, minha sensação era a de
estar num dos caminhões de brinquedo do meu filho, daqueles que
sobem paredes. Hans ria dos meus sustos enquanto fazia as manobras calmamente.
De volta à cidade, agora ele me apresenta a
Teresa King, ex-presidente do clube. Em 2004, durante a conferência
distrital realizada em Moab, ela queria fazer uma entrada triunfal que
combinasse com o cenário da região. Resultado: Teresa
chegou ao evento de pára-quedas. Ela lembra como Hans acabou
“amarelando” no último minuto e desistiu do salto.
Logo em seguida, é a vez de conhecer outro
sócio do clube, Joe Kingsley, o inventor do Glo Germ, um produto
largamente utilizado no combate a germes e bactérias em hospitais
e na indústria alimentícia dos EUA. Joe mudou-se para
Moab em 1968, no tempo em que ainda usava um longo rabo de cavalo. Em
alguns projetos desenvolvidos pelo clube, grandes quantidades de Glo
Germ foram doadas a países em desenvolvimento, que utilizam o
produto em programas de educação em higiene. A parada
seguinte de nosso passeio é a praça do Rotary, um lugar
extraordinário, cheio de instrumentos gigantes criados por um
escultor local. Hans Weibel (aquele, o do jipe) brinca de fazer música
com eles.
O espetáculo termina quando começa a
chover e somos obrigados a nos abrigar no jipe. Comento sobre a farra
feita pelas crianças, que continuam brincando na chuva. “Impossível
não gostar dela quando se mora aqui”, ele lembra. A tarde
começa a cair e nós vamos jantar na casa de Hans, encravada
na rocha, no alto de uma colina. Antes de irmos para a mesa, ele me
leva para ver umas pinturas rupestres (ecos de vizinhos muito antigos)
descobertas recentemente num canto próximo à porta de
entrada da casa. Durante o jantar, Hans conta sobre o trabalho que teve
para construir um abrigo para os gatos selvagens. “Há sempre
muito trabalho voluntário para se fazer por aqui”, acrescenta.
No dia seguinte, o rotariano Bob Jones – aquele
que é proprietário de uma loja de material para excursões
e um dos que primeiro notaram a vocação de Moab para os
esportes radicais – me presenteia com um passeio de jipe por uma
trilha. Sou acompanhada por um casal que comprou os tíquetes
para o passeio através de uma campanha de arrecadação
de fundos para a Youth Linc, uma organização sem fins
lucrativos baseada em Salt Lake City e que se dedica a levantar recursos
para a realização de viagens humanitárias à
África e à América Latina. Nosso trajeto inclui
os deslumbrantes cenários do Parque Nacional de Canyonlands,
ao sul da cidade, local onde os rios Green e Colorado escavaram cânions
com mais de 500 metros de profundidade. Para mim é um alívio
não estar ao volante nesta verdadeira montanha-russa.
À tarde, descemos algumas das famosas corredeiras
do lugar. No fim das contas, o que mais assusta nelas são mesmo
os nomes: Garganta do Diabo e Corredeira da Caveira. Aquele é
o passatempo predileto de Bob, que gosta de descê-las sozinho,
à noite, deixando a correnteza levá-lo. “Nessa hora
é possível ver as majestosas sombras das escarpas e todas
as estrelas”, ele conta. “Alguns dos passarinhos ainda estão
fora de seus ninhos, e produzem um som maravilhoso”.
Natureza
respeitada
É por isso que ele sempre arruma uma forma
de incluir o respeito ao meio ambiente em todos as suas atividades.
Por exemplo: Bob não utiliza seu barco a jato quando precisa
atravessar o rio Green, e conseguiu convencer outros moradores da região
a fazerem o mesmo. “Nós procuramos trabalhar em conjunto
e nos ajudarmos mutuamente. Essa é uma das características
mais notáveis de nossa região”, ele explica. Bob
é um rotariano dedicado, muito envolvido em programas destinados
aos jovens de Moab.
Na manhã seguinte, é a vez de conhecer
o Parque Nacional de Arches, na companhia de sua superintendente, a
rotariana Laura Joss. Nossas primeiras paradas são o novo centro
para visitantes e o escritório de Laura, que trabalhou em diversos
parques nacionais dos EUA, inclusive o do Grand Canyon. Apesar das freqüentes
mudanças, ela sempre se associa a um Rotary Club – para
ter contato imediato com a comunidade, ela explica.
Uma das grandes preocupações dos administradores
do parque é manter os visitantes atentos, seja através
de conselhos ou com a distribuição de folhetos informativos.
O perigo existe em qualquer lugar onde há vida selvagem, mas
em Arches os desafios são ainda maiores por causa do sol e do
calor que não dão trégua, da escassez de água
e dos animais venenosos. O cenário, no entanto, compensa os riscos.
As diferentes tonalidades das rochas vermelhas formam esculturas surpreendentes,
que estão lá há milênios. O problema é
que, à medida que mais gente descobre a existência do lugar,
o aumento do número de visitantes passa a representar uma ameaça
ao ecossistema – mesmo no caso das pessoas preocupadas em preservá-lo.
“Nosso maior desafio é encontrar formas de proteger os
arcos de pedra para evitar danos e vandalismos, mas sem coibir as visitações”,
declara Laura Joss.
Depois de reforçar nossos estoques de água,
vamos até o Landscape Arch, um dos 2.000 arcos de arenito do
parque. No caminho, passamos por fantásticas formações
rochosas, algumas com nomes curiosos, como “Os Três Boatos”.
Nosso destino final é o arco mais comprido do conjunto, com cerca
de 100 metros. No trajeto de volta à cidade, Laura explica que
os povos Hopi acreditam que os arcos são sagrados e habitados
por espíritos – e por isso jamais passam por baixo deles.
“Muitos descendentes diretos dos povos indígenas ainda
vivem na região”, ela conta. “Os arcos de pedra são
os protagonistas de várias histórias contadas por eles”.
Passo a última noite da viagem no chalé
Red Cliffs. À medida que o sol se põe e o brilho das rochas
vermelhas vai desaparecendo, Colin Fryer fala de sua experiência
como rotariano, das amizades que fez no clube e de como o Rotary ajuda
as vidas a mudarem – a dele, inclusive. “Minha dica é
que os companheiros aproveitem a viagem e venham até Moab depois
da convenção. Aqui eles poderão relaxar e conversar
sobre as experiências que viverão juntos em Salt Lake City”,
ele sugere. “Essa mistura de deserto, montanhas e belezas naturais
que marca a geografia de nossa região é um prato cheio
para que as pessoas se inspirem, reflitam e tenham boas idéias”.
Confesso que deixo Moab com uma certa relutância.
Ao chegar em casa, abro um livro sobre a região e me encanto
ao ler o que o autor diz sobre ela: “Quando temos um espaço
aberto, temos tempo livre para respirar, sonhar, ousar e brincar. Tempo
para falarmos mais com Deus e nos mexermos com mais liberdade. Será
que é nesse espaço que nasce a inspiração?” |