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15 anos de idade, deu-se minha iniciação na obra de Erico
Verissimo, aproveitando o espólio bibliográfico de meu
pai. Antigas brochuras de primeira edição da Livraria
do Globo, já então com as páginas amarelecidas
e o olor característico. Recuando ainda mais no tempo, recordo
que os primeiros contatos com os livros do notável escritor foram
meramente físicos, manuseando as lombadas ou fixado na iconografia
de “Gato Preto em Campo de Neve” (título que me provocava
emoções indefinidas), ou mesmo intrigado com o expressionismo
daquela capa de um azul profundo e quatro letras garrafais, em vermelho:
SAGA.
A propósito, os títulos dos livros de
Erico sempre fascinaram e continuam a fascinar seus leitores: o bíblico
“Olhai os Lírios do Campo”, o perturbador “Caminhos
Cruzados”, o poético “Um Lugar ao Sol”, o shakesperiano
“O Resto é Silêncio”. A leitura de “O
Tempo e o Vento” veio mais tarde, mas foi tão contundente
o impacto causado em mim que ela se desdobrou, quase simultaneamente,
em duas etapas integrais: a primeira, em Jaguarão; e a segunda,
alguns meses depois, no meu quarto de estudante em Pelotas. A terceira
por certo virá, a seu tempo e conforme os ventos.
Alumbramento
A intenção destas considerações
preliminares é dizer que, na adolescência, a leitura dos
livros de Erico Verissimo fez-me participar com Vasco da Guerra Civil
Espanhola, sentir o forte humanismo do doutor Seixas caminhando pelas
ruas de Porto Alegre, ser o escritor Tonio Santiago. Clarissa –
um nome para mim tão aberto e sonoro – muitos anos depois
viria a servir de inspiração para o registro civil de
minha primeira filha.
Um acontecimento inusitado, a Universíade –
os jogos esportivos universitários mundiais – levou milhares
de estudantes do Rio Grande e de todo o Brasil à capital gaúcha
em setembro de 1963. Distraído na manhã do dia 02 eu ia
subindo a rua da Praia em direção à praça
Annes Dias quando, na calçada oposta, reconheci Erico. Ele próprio,
em sentido contrário, descendo a ladeira rumo à Livraria
do Globo. Foi um alumbramento, para lembrar Manuel Bandeira.
Sem hesitar, atravessei a rua e passei a segui-lo,
observando-lhe o corpo levemente inclinado no bem cortado blaser de
tweed, as calças escuras, uma das mãos no bolso, a outra
segurando alguns papéis cuidadosamente enrolados. À hesitação
inicial, seguiu-se a mais manifesta indecisão, oscilando entre
abordar o escritor ali mesmo, em plena rua da Praia, e o receio de ser
imprudente, de não merecer mais que duas palavras e... adeus!
Como sua sombra, acompanhei-o até a interna
escada de caracol que dava acesso ao andar superior da Livraria do Globo.
Mas faltou coragem para lhe dirigir a palavra, qualquer palavra, e o
resultado foi a volta à casa de meu tio, Aluízio Corrêa
Franco, com a frustração de haver perdido uma chance que,
acreditava, não se repetiria.
Durante o almoço, Aluízio Franco –
que privara com Erico na época do comentado grupo que freqüentava
a Livraria do Globo para discutir literatura e política –
animou-me a que lhe telefonasse. Impaciente, ele não esperou
qualquer iniciativa e levantou o fone. Do outro lado da linha, um afável
e paciente Erico respondeu que me esperaria às quatro horas da
tarde em sua residência da rua Felipe de Oliveira, 1415, no bairro
de Petrópolis.
O
encontro
Mafalda, mulher do escritor, atendeu a porta e conduziu-me
a uma ampla sala, dominada pela estante abarrotada de livros que cobria
toda a parede lateral. Sentamo-nos frente a frente, em confortáveis
bergères, sob um portrait de Clarissa, filha do casal. Durante
três horas, discorreu-se (óbvio que muito mais o ouvi do
que falei) sobre os mais diferentes assuntos, sendo que os dominantes
foram seus livros e suas personagens; mas também conversamos
sobre música, muita música, capítulo em que Erico,
amante das composições de Bach, discorria com a desenvoltura
de um especialista, ainda que fosse um diletante em teoria musical.
Mas o tema não me era estranho, pelo hábito que tinha
de, pelo menos duas horas por dia, sintonizar a rádio do Sodre,
o Servicio Oficial de Difusión Radiotelevisión y Espetáculos,
de Montevidéu, no Uruguai, que só tocava música
clássica. Não faltou a análise dos compositores
de sua geração e dos regentes que pessoalmente conheceu.
Ao final do encontro, entre o ritual das despedidas,
o escritor retira da estante um volume sobre filosofia, “As Doutrinas
Existencialistas”, de Regis Jolivet, e redige uma personalizada
dedicatória. Então já à porta, com um último
aperto de mão, a promessa de novos encontros.
De regresso, escrevi para A Folha (o semanário
de Jaguarão, que no mês que vem vai completar 70 anos)
um longo artigo, com duas páginas inteiras, a que dei o título
de “Rápido Perfil de Erico Verissimo”. O “seu”
Anysio, proprietário do jornal, ficou entusiasmado – e
mais ainda eu, com a façanha de aos 19 anos ter entrevistado
o notável “contador de histórias”. O artigo
e o livro dado por Erico soavam-me como dois autênticos troféus.
Postei a carta, em cujo envelope anexei um exemplar
do jornal. A resposta tardou, mas veio. Tornei a escrever, e Erico respondeu-me
com um bilhete manuscrito:
“Prezado amigo:
Só agora, depois de dois terríveis meses
que culminaram com o falecimento de minha mãe, é que tenho
cabeça para tratar de minha correspondência. É por
isso que vai com tanta demora esta carta que lhe leva o abraço
por suas generosas palavras a meu respeito no perfil que escreveu para
A Folha.
Creia na simpatia de quem subscreve.
Cordialmente,
Erico Verissimo”
Mas
a promessa de um novo encontro estava fadada a não mais se realizar.
Lembrança
viva
Dois anos depois, estando em Porto Alegre, tinha planos
de visitá-lo. Mas sua filha havia chegado há pouco dos
EUA, e Maurício Rosemblatt (pertencente ao seu inner circle)
me desentusiasmou. Foi o bastante para eu reprimir o impulso.
No dia 28 de novembro de 1975, saindo para uma visita
ao Castelo de Pedras Altas (a senhorial residência na campanha
gaúcha de Joaquim Francisco de Assis Brasil) com os companheiros
do Rotary Club de Jaguarão (que naquele ano me cumpria presidir),
ouvi na Rádio Guaíba a notícia do falecimento de
Erico Verissimo. Tutta speranza perduta, como nos versos de Dante, de
nos reencontrarmos.
Mas sua lembrança, esta sim, segue viva dentro
de mim. Até hoje recordo comovido a grande figura humana, já
famosa e reconhecida internacionalmente, que durante três horas
dedicou seu precioso tempo e exerceu sua infinita paciência para
ouvir um jovem desconhecido e dar-lhe desmesurada atenção,
como se eu, naquele instante, fosse a mais importante das criaturas.
A obra literária de Erico Verissimo é imensurável,
mas não é menos verdade que o ser humano que a criou em
nada a ela é menor.
Sobre Erico, já li boa parte da fortuna crítica
existente, da qual destaco os estudos de Flávio Loureiro Chaves,
meu particular amigo, que foi um interlocutor privilegiado do escritor.
Mas foi na leitura de “Navegação de Cabotagem”,
a autobiografia de Jorge Amado, que colhi este testemunho à altura
do grande ser humano que foi Erico Verissimo: “Perdeu-se a forma
de confrade igual à dele; já não se faz hoje em
dia”.
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