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Lembrando Erico Verissimo

O dia em que um jovem estudante foi recebido
na casa de seu ídolo, em Porto Alegre

Eduardo Álvares de Souza Soares

os 15 anos de idade, deu-se minha iniciação na obra de Erico Verissimo, aproveitando o espólio bibliográfico de meu pai. Antigas brochuras de primeira edição da Livraria do Globo, já então com as páginas amarelecidas e o olor característico. Recuando ainda mais no tempo, recordo que os primeiros contatos com os livros do notável escritor foram meramente físicos, manuseando as lombadas ou fixado na iconografia de “Gato Preto em Campo de Neve” (título que me provocava emoções indefinidas), ou mesmo intrigado com o expressionismo daquela capa de um azul profundo e quatro letras garrafais, em vermelho: SAGA.
   A propósito, os títulos dos livros de Erico sempre fascinaram e continuam a fascinar seus leitores: o bíblico “Olhai os Lírios do Campo”, o perturbador “Caminhos Cruzados”, o poético “Um Lugar ao Sol”, o shakesperiano “O Resto é Silêncio”. A leitura de “O Tempo e o Vento” veio mais tarde, mas foi tão contundente o impacto causado em mim que ela se desdobrou, quase simultaneamente, em duas etapas integrais: a primeira, em Jaguarão; e a segunda, alguns meses depois, no meu quarto de estudante em Pelotas. A terceira por certo virá, a seu tempo e conforme os ventos.

   Alumbramento
   A intenção destas considerações preliminares é dizer que, na adolescência, a leitura dos livros de Erico Verissimo fez-me participar com Vasco da Guerra Civil Espanhola, sentir o forte humanismo do doutor Seixas caminhando pelas ruas de Porto Alegre, ser o escritor Tonio Santiago. Clarissa – um nome para mim tão aberto e sonoro – muitos anos depois viria a servir de inspiração para o registro civil de minha primeira filha.
   Um acontecimento inusitado, a Universíade – os jogos esportivos universitários mundiais – levou milhares de estudantes do Rio Grande e de todo o Brasil à capital gaúcha em setembro de 1963. Distraído na manhã do dia 02 eu ia subindo a rua da Praia em direção à praça Annes Dias quando, na calçada oposta, reconheci Erico. Ele próprio, em sentido contrário, descendo a ladeira rumo à Livraria do Globo. Foi um alumbramento, para lembrar Manuel Bandeira.
   Sem hesitar, atravessei a rua e passei a segui-lo, observando-lhe o corpo levemente inclinado no bem cortado blaser de tweed, as calças escuras, uma das mãos no bolso, a outra segurando alguns papéis cuidadosamente enrolados. À hesitação inicial, seguiu-se a mais manifesta indecisão, oscilando entre abordar o escritor ali mesmo, em plena rua da Praia, e o receio de ser imprudente, de não merecer mais que duas palavras e... adeus!
   Como sua sombra, acompanhei-o até a interna escada de caracol que dava acesso ao andar superior da Livraria do Globo. Mas faltou coragem para lhe dirigir a palavra, qualquer palavra, e o resultado foi a volta à casa de meu tio, Aluízio Corrêa Franco, com a frustração de haver perdido uma chance que, acreditava, não se repetiria.
   Durante o almoço, Aluízio Franco – que privara com Erico na época do comentado grupo que freqüentava a Livraria do Globo para discutir literatura e política – animou-me a que lhe telefonasse. Impaciente, ele não esperou qualquer iniciativa e levantou o fone. Do outro lado da linha, um afável e paciente Erico respondeu que me esperaria às quatro horas da tarde em sua residência da rua Felipe de Oliveira, 1415, no bairro de Petrópolis.

   O encontro
   Mafalda, mulher do escritor, atendeu a porta e conduziu-me a uma ampla sala, dominada pela estante abarrotada de livros que cobria toda a parede lateral. Sentamo-nos frente a frente, em confortáveis bergères, sob um portrait de Clarissa, filha do casal. Durante três horas, discorreu-se (óbvio que muito mais o ouvi do que falei) sobre os mais diferentes assuntos, sendo que os dominantes foram seus livros e suas personagens; mas também conversamos sobre música, muita música, capítulo em que Erico, amante das composições de Bach, discorria com a desenvoltura de um especialista, ainda que fosse um diletante em teoria musical. Mas o tema não me era estranho, pelo hábito que tinha de, pelo menos duas horas por dia, sintonizar a rádio do Sodre, o Servicio Oficial de Difusión Radiotelevisión y Espetáculos, de Montevidéu, no Uruguai, que só tocava música clássica. Não faltou a análise dos compositores de sua geração e dos regentes que pessoalmente conheceu.
   Ao final do encontro, entre o ritual das despedidas, o escritor retira da estante um volume sobre filosofia, “As Doutrinas Existencialistas”, de Regis Jolivet, e redige uma personalizada dedicatória. Então já à porta, com um último aperto de mão, a promessa de novos encontros.
   De regresso, escrevi para A Folha (o semanário de Jaguarão, que no mês que vem vai completar 70 anos) um longo artigo, com duas páginas inteiras, a que dei o título de “Rápido Perfil de Erico Verissimo”. O “seu” Anysio, proprietário do jornal, ficou entusiasmado – e mais ainda eu, com a façanha de aos 19 anos ter entrevistado o notável “contador de histórias”. O artigo e o livro dado por Erico soavam-me como dois autênticos troféus.
   Postei a carta, em cujo envelope anexei um exemplar do jornal. A resposta tardou, mas veio. Tornei a escrever, e Erico respondeu-me com um bilhete manuscrito:
   “Prezado amigo:
   Só agora, depois de dois terríveis meses que culminaram com o falecimento de minha mãe, é que tenho cabeça para tratar de minha correspondência. É por isso que vai com tanta demora esta carta que lhe leva o abraço por suas generosas palavras a meu respeito no perfil que escreveu para A Folha.
   Creia na simpatia de quem subscreve.
   Cordialmente,
   Erico Verissimo”

   Mas a promessa de um novo encontro estava fadada a não mais se realizar.

   Lembrança viva
   Dois anos depois, estando em Porto Alegre, tinha planos de visitá-lo. Mas sua filha havia chegado há pouco dos EUA, e Maurício Rosemblatt (pertencente ao seu inner circle) me desentusiasmou. Foi o bastante para eu reprimir o impulso.
   No dia 28 de novembro de 1975, saindo para uma visita ao Castelo de Pedras Altas (a senhorial residência na campanha gaúcha de Joaquim Francisco de Assis Brasil) com os companheiros do Rotary Club de Jaguarão (que naquele ano me cumpria presidir), ouvi na Rádio Guaíba a notícia do falecimento de Erico Verissimo. Tutta speranza perduta, como nos versos de Dante, de nos reencontrarmos.
   Mas sua lembrança, esta sim, segue viva dentro de mim. Até hoje recordo comovido a grande figura humana, já famosa e reconhecida internacionalmente, que durante três horas dedicou seu precioso tempo e exerceu sua infinita paciência para ouvir um jovem desconhecido e dar-lhe desmesurada atenção, como se eu, naquele instante, fosse a mais importante das criaturas. A obra literária de Erico Verissimo é imensurável, mas não é menos verdade que o ser humano que a criou em nada a ela é menor.
   Sobre Erico, já li boa parte da fortuna crítica existente, da qual destaco os estudos de Flávio Loureiro Chaves, meu particular amigo, que foi um interlocutor privilegiado do escritor. Mas foi na leitura de “Navegação de Cabotagem”, a autobiografia de Jorge Amado, que colhi este testemunho à altura do grande ser humano que foi Erico Verissimo: “Perdeu-se a forma de confrade igual à dele; já não se faz hoje em dia”.




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