| Em
março de 1808, dom João VI chegava ao Rio de Janeiro para
governar daqui o então vasto império colonial português.
Com seu plano para escapar do apetite conquistador de Napoleão,
dom João tornava-se o primeiro monarca europeu a visitar uma
colônia na América. Uma decisão polêmica,
que o levou a ser acusado de covardia em sua própria terra, mas
que muitos historiadores têm se esforçado para reabilitar
como uma estratégia brilhante de um rei inteligente.
O fato é que o Brasil nunca mais seria o mesmo
depois da passagem da família real portuguesa, e mesmo que à
época dom João não percebesse, aportava com ele
o espírito de liberdade que nos mobilizaria nos anos seguintes,
e que seu filho, Pedro – apenas um menino em 1808 – transformaria
em independência 14 anos depois, a conselho do pai.
É com uma análise desse dom João
estrategista que a Brasil Rotário começa uma série
de três artigos, assinados pelo historiador Francisco de Souza
Brasil, companheiro do RC de Copacabana, RJ (D.4570), e que serão
publicados nesta e nas próximas duas edições em
comemoração aos 200 anos da chegada da família
real portuguesa ao Brasil – a viagem que mudou para sempre os
rumos da nossa história. .
apoleão
não teve nenhum projeto geopolítico para além da
Europa. Ao conquistar a Espanha, deixou a América espanhola à
sua própria sorte. Ele não se interessou nem mesmo pela
Guiana Francesa, à qual assistiu, com indiferença, ser
ocupada por Portugal após a chegada de dom João VI ao
Brasil. A presença de Napoleão no Egito se deveu somente
a três fatores: derrotar a esquadra inglesa (que não conseguiu),
conquistar aquele canto do Mediterrâneo (para evitar que dali
se armasse uma ofensiva contra a “sua” Europa) e, incrivelmente,
por mera curiosidade quanto àquelas ruínas exuberantes,
ainda mal conhecidas e enterradas nas areias do deserto.
Dona Carlota Joaquina, irmã do rei prisioneiro
da Espanha, exigiu de seu marido, o príncipe regente dom João,
a invasão do Uruguai, tendo em vista que o Vice-Reino do Rio
da Prata se desfazia. Dom João, a contragosto, a atendeu. Ele
não queria incorporar ao Reino Unido uma nação
hispânica e, embora ibérica, estranha a Portugal. Mas,
atendendo à ambiciosa esposa, ocupou Montevidéu, anexando
aqueles destroços do Vice-Reino do Rio da Prata ao Brasil, com
o nome de Banda Oriental.
Se Napoleão sonhava com um projeto geopolítico
para a Europa, e somente para ela, dom João alimentava um projeto
muito maior, que abrangia o novo continente que Portugal descobrira
e que ainda dominava. Isso não era uma visão nova na história
de Portugal: lá atrás, em 1553, Martim Afonso de Souza,
retornado do Brasil a Portugal, perguntou ao rei dom João III
o que ele achava sobre a mudança da corte para a colônia
do Brasil. Respondeu dom João: “Doidice seria viver um
rei na dependência de seus vizinhos podendo ser monarca de outro
maior mundo”.
Em 1580, com a morte do cardeal dom Henrique, ficou
vago o trono português em linha reta: o rei dom Sebastião
não deixara herdeiro e seu velho tio, celibatário por
ser prelado, também não. Só um filho de dom Manoel
I, o Venturoso, avô de dom Sebastião, o príncipe
dom Luís, deixara um filho bastardo, dom Antônio, o Prior
do Crato. Como Felipe II, rei da Espanha, também era neto de
dom Manoel, e legítimo, a tese da legitimidade prevaleceu. Dom
Antônio, preterido na sucessão, propôs a mudança
para o Brasil e, assim, salvar a independência de Portugal. Não
vingou a idéia, e Portugal terminou anexado à Espanha
entre 1580 e 1640.
Em 1646, o padre Antônio Vieira foi a Paris
com a missão de negociar o casamento do príncipe Teodósio
de Bragança com a Grande Demoiselle, como era conhecida a filha
do Duque de Orléans, tio de Luis XIV. Como o príncipe
era menor de idade, o padre Antônio Vieira propôs que o
duque de Orléans fosse o regente do trono de Portugal, pois era
desejo de dom João IV fundar um novo reino no Brasil.
Em 1772, o marquês de Pombal sugeriu a dom José
I que ele transferisse sua corte para o Rio de Janeiro (especificamente
para o Rio, e não genericamente para o Brasil), com o objetivo
de resguardar a coroa portuguesa das belicosas e ambiciosas coroas européias.
E em 1807, às vésperas da invasão de Napoleão,
o conde da Ega, embaixador de Portugal em Madri, defendeu a vinda para
o Brasil, pelo menos do príncipe herdeiro, dom Pedro, para assegurar
a legitimidade portuguesa contra a ameaça napoleônica que,
um ano mais tarde, se confirmaria.
Como
voltar?
Anos mais tarde, como os tempos já eram outros
na Europa, dom João VI avaliou: quais seriam suas opções
diante da nova realidade? Transferir a capital do reino para o Rio de
Janeiro em definitivo foi uma delas, mas o Portugal europeu não
se conformaria com isso, e certamente o deporia. Acrescente-se que a
Constituinte Portuguesa, reunida em Lisboa, o reconhecera em 1820 como
o legítimo monarca de Portugal, exigindo seu relutante retorno.
A outra saída imaginada por dom João VI foi renunciar
ao trono português e tornar-se rei do Brasil. Uma opção
impossível, no fim das contas, que trairia a unidade nacional
do reino, fazendo-o não somente trocar o certo pelo duvidoso
como, também, acabar exposto aos olhos de Portugal e da história
como um traidor.
A última opção de dom João:
voltar a Portugal e deixar no Brasil seu filho, o príncipe herdeiro,
como regente, com instruções precisas para que ele proclamasse
a independência do Brasil antes que, a exemplo da órfã
América Espanhola, “aventureiros” (na expressão
do próprio dom João) lançassem mão dele.
Acertadamente, dom João optou pela última
alternativa. Ele voltou para Portugal e deixou aqui, para nós,
tudo aquilo que de lá trouxera em 1808. Uma herança que
ainda está entre nós, uma riqueza inestimável do
nosso patrimônio cultural.
O incompreensível é vermos escritores
brasileiros falarem mal de dom João VI. Que os portugueses não
o amem, até se compreende (ainda que, com a vinda ao Brasil,
se tenha legitimado o Reino de Portugal, lá na Europa ocupado
pelo usurpador francês, o general Junot). O grande historiador
português Oliveira Martins, no século 19, é um de
seus maiores detratores. No caso, mais por razões ideológicas
que por qualquer outro motivo, já que Martins era um feroz inimigo
da monarquia, qualquer que ela fosse. Mas entende-se o seu ressentimento
de português aliado à sua militância socialista.
Mas o Brasil produzir uma historiografia contra o
nosso bondoso rei, que sentido faz?
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