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A Independência da Paz
        Francisco Souza Brasil*

   Comemoramos no sete de setembro a nossa Independência.  Convido os compa-
nheiros à meditação, nestas linhas que se seguem, sobre esta data:
   Em 1822 o Brasil já  estava  estruturado.  Não era mais  colônia, elevado
que fora a reino unido. Napoleão, indiretamente, nos prestara um grande ser-
viço, ao nos tornar sede da corte:  o Portugal legítimo (e, não, o usurpado)
estava aqui.  E aqui ficou durante doze anos.
   Ao contrário do Brasil, onde a coroa  portuguesa mantinha a  legitimidade
em território português na  América contra o usurpador francês que se insta-
lava em Lisboa, Espanha tinha a sua família real aprisionada e  Fernando Bo-
naparte subia ao trono.
   As colônias espanholas na América,  órfãs da metrópole,  iniciaram um pe-
noso processo de independência,  consolidado quase sempre com sangue.  Se  a
idéia de emancipação era um consenso,  o que fazer, depois  de obtida  esta,
suscitava controvérsias.
   Na Argentina, o Congresso Constituinte de  Tucumán proclama a independên-
cia, em 9 de julho de 1816.  A "Acta de Independência de las Províncias Uni-
das del Rio de la Plata" não prescrevia a forma de governo. Belgrano e Riva-
davia desejaram o reinado de um  infante espanhol.  Garcia, um  príncipe  de
Bragança. San Martin chegou a pensar em um monarca inca. O primeiro Chefe de
Estado escolhido teve o título indefinido de "director supremo".
No México, o sacerdote Hidalgo, cura de Dolores,  ensaia a independência - o
famoso  "Grito de Dolores", em 1810.  O movimento é afogado  em um banho  de
sangue. Nova tentativa: Francisco Xavier Mina, em 1817, igualmente derrotado
e fuzilado.  Agostin de Iturbide é proclamado imperador,  realizando a inde-
pendência, em 18 de maio de 1822.  Entretanto, pronunciamentos militares re-
petidos forçam Agostin I a renunciar, em 19 de março de 1823. Deportado para
a Itália, retorna clandestinamente, é preso e fuzilado (19 de julho de 1824)
O autor da independência do México é executado pelos próprios mexicanos.
   D.José de San Martin conquista a independência para o Chile, nas batalhas
de Chacabuco (1817) e Maypu (1818).  Em Caracas, Simón Bolivar declara a in-
dependência das  "Províncias Unidas de Venezuela"  (5 de julho de 1811).  Os
espanhóis revidam, e vem a guerra.  Os revolucionários contam com as provín-
cias de Merida, Trujillo e Caracas.  Redige-se uma Constituição em 21 de de-
zembro daquele ano, mas as províncias de Cumaná, Margarita, Barcelona e  Ba-
ziscas não a aceitam.  E, para complicar,  os espanhóis  pareciam  firmes em
Coro, Maracaibo e Guaxiana, que lhes eram fiéis, e hostis aos republicanos.
O Grande Francisco de Miranda assume a ditadura. É derrotado, preso, e morre
na prisão. Bolivar se refugia em Curaçao.  Enquanto isso, Santiago Mariño se
autoproclama  "Dictador del Oriente",  e é derrotado pelo legalista espanhol
Ceballos.  Bolivar retorna e vence outro legalista espanhol, Cajigal, na ba-
talha de Carabobo, mas Boves, mais um legalista, o derrota em La Puerta.
   Se o inimigo comum é o legalista espanhol,  os "Libertadores" não  se en-
tendem entre si. É o início do caudilhismo,  penoso fenômeno que se  segue à
independência da hispanoamérica.  Fenômeno que o Brasil não conhecerá.
   Bolivar intenta fazer de Venezuela e Nova Granada um só país.  Retornando
do exílio, derrota os legalistas em Boyacá,  e proclama a  "República de Co-
lombia", compreendendo Venezuela, Nova Granada e Quito.  Prossegue a guerra.
Bolivar envia Sucre ao Equador,  com o fito de anexá-lo à Colômbia.  Sucre é
derrotado pelos realistas em Ambato,  Bo1ivar não chega a tempo  de socorrê-
lo. Quem o socorre é D.José de San Martin, o qual, vencendo a batalha de Pi-
chincha, entra em Quito e incorpora o Equador à Colômbia.
   San Martin e O'Higgins preparam a expedição militar libertadora do  Peru.
San Martim entra em Lima,  e a independência do  Peru é proclamada  em 28 de
julho de 1821.
   Dois grandes líderes avultam,  e não está afastada a  hipótese de um con-
fronto entre eles: o argentino-chileno San Martin, e o venezuelano-granadino
equatoriano Bolivar. Encontram-se em Guayaquil. San Martin, o herói desambi-
cioso, cede,  e se retira do Peru,  que há pouco lhe  concedera o título  de
"Protector".  A guerra prossegue, os regionalismos inconciliáveis e as ambi-
ções vão desenhando com sangue os mapas dos novos países que surgem.
   Deste turbilhão escapa o Paraguai, a seu modo.  Um civil, médico,  velho,
solteirão, sem nenhum carisma, filho de portugueses radicados em  Barbacena,
nas Minas Gerais, muito feio de aparrência,  proclama a independência e ime-
diatamente isola o país do vespeiro platino: D. José Gaspar de Francia.  Di-
tador onipotente,  por vinte e sete anos governou o Paraguai com mão de fer-
ro.  Mas não era sanguinário.  Avesso às pompas do poder, discreto, retraído
até, "El Supremo" fechou o seu país: lá não se entrava, e de lá não se saía.
Artigas, o caudilho uruguaio, ali refugiado, teve que ali ficar até  morrer.
Bompland,  ultrapassando inadvertidamente a fronteira,  ali viveu,  forçado,
nove anos.  Esse modo extravagante de governar  mereceu referência  chistosa
de Thomas Carlyle.  Mas  "El Supremo" teve  quem o admirasse:  Augusto Comte
dedica-lhe um dia no seu Calendário Positivista. 
   Entre 1816, com a Argentina, até 1827, com o Uruguai,  toda esta  América
estará independente. Serão quinze países novos.
   No Brasil, nada de semelhante.  Dom João VI amava o Brasil. Aqui fôra co-
roado rei de Portugal.  O corpo de sua falecida mãe repousava em terra cari-
oca.  Os banhos de mar no Cajú e em Paquetá aliviavam as suas doenças de pe-
le, fruto, talvez, de uma hereditariedade excessivamente consangüínea.  Após
a libertação de Portugal, não queria voltar para lá.  Mas, resignou-se. Por-
tugal, livre,  restaurara a monarquia  "em nome d'El Rey", e o  rei era ele.
Deixou aqui o filho herdeiro da coroa.
   Dom Pedro,  legítimo sucessor do rei de Portugal,  por conselho deste  se
adianta aos fatos inexoráveis, precipitando-os, ao invés de aguardá-los. Não
segue a História. A faz. A conduz. A proclamação da Independência assegura a
unidade nacional.  Do Oiapoque ao Chuí, um só Brasil. Pequenas resistências,
a maior delas na Bahia,  logo debelada:  o general luso Madeira de Mello  se
recusa a reconhecer a independência, crendo, deste modo, ser fiel ao monarca
ao qual jurara fidelidade.  Fato isolado e de rápido desfecho. 
   A paz é a grande lição que a independência do Brasil dá ao mundo. Com ex-
ceção do Brasil, nenhum país de tais dimensões se forjou sem guerra. Vem-nos
à lembrança o grande país do norte, o Canadá. Mas lá não houve, nem há, uni-
dade nacional - Aqui ela existe.  Não passa pela cabeça  brasileira a  idéia
de secessão do  nosso território, em nenhuma hipótese.  Falamos a mesma lín-
gua. Nossa cultura não guarda particularismos.
Quem aqui está, daqui é: somos todos brasileiros. A nossa nacionalidade nun-
ca foi negada a quem quer que aqui chegasse, e a quisesse.
   Rotary é um movimento  vitorioso também  no Brasil porque seus  objetivos
encontraram ressonância em nossa índole pacífica, onde o ideal de servir  se
sobrepõe à violência, e onde o companheirismo se afirma acima das paixões.
Ou, apesar delas.

*O autor é sócio do Rotary
Club de Copacabana, RJ
(D.4570)

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