Implicações da Globalização no Mercosul
Everaldo Scaini*
Já decorridos mais de seis anos de resultados profícuos, ainda há os que
interrogam se as condicionantes justificadoras do Mercosul persistirão
transcendendo a diversidade de questões históricas e ou emergenciais conse-
qüentes das tantas articulações.
O que temos constatado é que as novas atividades internas e externas im-
plícitas ao bloco, nos tem mostrado, a cada dia, a importância de levar
adiante as estratégias e técnicas negociadoras vigentes. A viabilidade do
Mercosul, é verdade, depende bem mais do que acordos institucionais já al-
cançados, para oferecer o dinamismo conveniente a todos os partícipes.
Ampliações
Nessa perspectiva, perseguindo as complementaridades já definidas por
Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, no "acordo-marco" de Assunção de
1991, os presidentes em exercício anunciam ampliações no comércio intrablo-
co. Atualmente, o Chile e a Bolívia, esta em incorporação, já são sócios
dos países fundadores. E de outra parte, o Mercosul, alastra-se ampliando
acordos com o México, Guatemala, Costa Rica e Guianas, além de outros, e
com países andinos como o Peru, Equador, Venezuela e Colômbia, os quais
também já demonstram interesse em efetiva participação.
A Venezuela, desde o encontro da Ilha Margarita, com acordo ratificado
por 23 presidentes ibero-americanos, trabalha para juntar os cinco países
do Pacto Andino ao Mercosul, criando uma zona de livre comércio com dez
países, incluindo o Chile. O ministro venezuelano de Relações Exteriores,
Miguel Angel Burelli, disse: "Temos esperança de que para março sejam acor-
dadas as bases de uma integração bloco a bloco entre a Comunidade Andina e
o Mercado Comum do Sul. "O chefe diplomático destacou, como muito provável,
que o acordo seja obtido antes da Cúpula das Américas, em Santiago do Chi-
le. Isso levaria a uma composição, com um número até maior de países rumo à
constituição de uma grande aliança estratégica regional, o ALCSA - Associa-
ção de Livre Comércio Sul Americana, que representa um instrumento de con-
fronto ao Alca - Associação de Livre Comércio das Américas.
O fato inquestionável é que o Mercosul constituiu-se na mais sólida in-
tegração econômica, jamais levada a efeito na América Latina, que multipli-
cou o volume de comércio e proporcionou um interessante entrelaçamento de
capitais entre os mais diferentes agentes econômicos. É nesse contexto que,
estrategicamente, os atuais responsáveis pelos destinos do bloco, inclinam-
se, cada vez mais, pela harmonização das políticas macroeconômicas, dando
solidez à integração que vem sendo uma das grandes metas da economia inter-
nacional dos últimos anos.
Economia globalizada
Efetivamente a década de 90 pode ser apontada por suas profundas trans-
formações no cenário global. A conclusão das negociações multilaterais so-
bre o comércio, dentro da Rodada Uruguai do GATT - General Agreement on
Tariffs and Trade, a nova divisão econômica das relações internacionais e a
globalização da economia nas áreas de produção, de consumo e a globalização
dos mercados financeiros, facilitada pela revolução da telemática, são no-
vidades na análise econômica do mundo de hoje, em que o capital, os bens e
os serviços não conhecem fronteiras. O GATT, de simples Acordo Geral de Ta-
rifas, passou a Organização Mundial do Comércio - OMC, desde primeiro de
janeiro de 1995, com o mesmo status e poder político das demais organiza-
ções multilaterais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional -
FMI. Como conseqüência, assim como todos os tratados obedecem ao Tratado de
Viena de 1923/1969, todas as relações comerciais são regidas segundo as re-
gras da OMC e, mesmo as antigas normatizações do comércio, só podem ser
utilizadas segundo as suas regras.
Outra característica marcante é a nova organização das relações econômi-
cas em espaços regionais abertos, onde o crescimento do comércio intrabloco
é conseguido pela manutenção dos laços comerciais desses espaços com os
seus principais parceiros internacionais. Os exemplos de espaços regionais
vêm se multiplicando nos últimos anos. A OMC tem registrado mais de uma
centena de processos de integração comercial e econômica entre os seus mem-
bros.
Etapas
No Mercosul, um pretenso Mercado Comum, ainda num estágio de União Adua-
neira Incompleta, o objetivo já é torná-lo, também, uma União Econômica
(veja boxe abaixo). Para alcançá-la, entretanto, será necessário transpor
etapas inevitáveis para a sua consecução. O que temos tido é que depois das
fronteiras abertas e com a obtenção de avanços consideráveis, determinados
fortemente pelos acordos de Las Lenhas e de Ouro Preto, alguns entraves
ainda persistem, como o atraso na liberação de cargas nas fronteiras, co-
brança múltipla de impostos, burocracia em excesso, barreiras fitossanitá-
rias, monopólios estatais, legislações contraditórias, os quais são proble-
mas que as vantagens recíprocas deverão eliminar. Eles vêm obstaculizando a
adequada convergência entre as políticas comerciais para conformação do que
pretendemos, circunstancialmente dificultando empresas e, assim, prejudi-
cando negócios.
O que nos obrigamos em nível de Mercosul, pelas implicações decorrentes
da globalização, é garantir competitividade a todos os que produzem e a to-
dos os que comercializam. Nessa contingência em que são primordiais a qua-
lidade e a produção em escala, é imperioso ter produtos sempre mais módicos
e mais qualificados para competir nos mercados.
| Níveis de Integração |
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Os países se têm estabelecido em blocos preferenciais de comércio em
cinco tipos de associação. Resumidamente, são elas:
1. Áreas de preferências comerciais: redução de tarifas aduaneiras sobre
alguns produtos;
2. Zonas de livre comércio: eliminação total de tarifas intraregionais;
exemplo: Nafta;
3. Uniões Aduaneiras: tarifa intrazona zero e externa comum, sem barrei-
ras não tarifárias; exemplo: Mercosul - União Aduaneira Incompleta;
4. Mercados comuns: Uniões Aduaneiras com livre mobilidade dos fatores de
produção e harmonização de políticas econômica, fiscal, cambial e monetá-
ria;
5. Uniões econômicas e monetárias: Mercados Comuns com moeda comum, banco
central único, câmbio fixo e instituições supranacionais. Exemplo: União
Européia.
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Confrontos estratégicos
Muitas etapas harmonizadoras já foram vividas na União Européia, que
tendo iniciado suas atividades desde 1957 com a Carta de Roma e se reestru-
turado profundamente, em 15 países, pelo Acordo de Maastricht em 1992, vem
sendo exemplo para todos os demais blocos preferenciais de poder. Por esse
tratado, três pilares deveriam sustentar a união: uma moeda comum, uma po-
lítica externa e de segurança comum e uma política interna e judiciária co-
mum. Longe de ser um documento perfeito, a introdução de seus pareceres, na
adoção da moeda comum, contribuiu para a alta taxa de desemprego ou da
"precarização dos empregos". A política externa comum, simplesmente não tem
existido, enquanto os outros pilares mal resistem ao peso das disparidades,
pois, a União Européia é, efetivamente, pouco unida. Com isso, já multipli-
cam-se as discussões sobre Maastricht; entretanto, a União Européia tem o
potencial de vir a ser o protótipo de uma sociedade aberta. É esse poten-
cial que a torna tão almejada, um propósito de tantas afinidades, princi-
palmente para os países do Leste Europeu e para nós da América Latina. A
Europa caminha para uma moeda e um banco central únicos e conta com um par-
lamento em Estrasburgo, uma Corte de Justiça em Luxemburgo e os escritórios
centrais em Bruxelas. O Mercosul tem tido na União Européia o seu maior
parceiro comercial, fonte de instruções e de investimentos.
Essa União Européia na defesa de suas estratégias, tem ficado à espreita
de que nos acordos do Alca sejam atingidos os interesses das empresas euro-
péias e suas possibilidades de expansão na América Latina. Segundo o Siste-
ma Econômico Latino Americano SELA, com sede em Caracas e que reúne 27 paí-
ses da região, a cúpula Europa-América não pode contentar-se em ser um sim-
ples confronto ao Alca e deve fixar o conceito de solidariedade entre as
partes.
O Grupo do Rio ou Grupo Permanente de Consulta e Coordenação Política,
resultado de uma fusão, em 1986, entre o Grupo de Contadora - México, Co-
lômbia, Venezuela e Panamá - e o Grupo de Apoio - Argentina, Brasil, Uru-
guai e Peru - deverá reunir-se, no Panamá, de 11 a 12 de fevereiro de 1999,
com os chanceleres da União Européia, numa prévia para a Cúpula Europa -
América Latina prevista para o próximo ano, a qual deverá reunir os chefes
signatários dos tratados de Assunção e Maastricht, o que representaria um
avanço apreciável em termos de integração.
Estados Unidos
Os Estados Unidos, por seu lado, desde a reeleição de Bill Clinton, vol-
taram a fortalecer sua posição de sócio natural e poderoso para a constru-
ção de uma zona de livre comércio, unindo as Américas. A Alca proposta e
ratificada por 34 países, em dezembro de 1994, em Miami, e sequenciada em
Denver (Colorado), Cartagena (Colômbia), e depois, Florianópolis e Belo Ho-
rizonte, no III Encontro das Américas, tem como meta estender o Alca, um
Nafta adaptado- North American Free TradeAgreement, entre os países do con-
tinente até 2005. O bloco, hoje formado por Canadá, Estados Unidos e Méxi-
co, exerce grande influência sobre a América Central e o Caribe, por secu-
lar tradição de vínculos comerciais e com tendências naturais, como bem sa-
bemos, de estender-se para a América do Sul. A reunião presidencial, pre-
vista para Santiago do Chile, deverá ser o ponto de partida para a real
formação do Alca. Para nós brasileiros haveria uma clara vantagem em ter
acesso preferencial ao mercado americano. Mas, qual é o preço que nos co-
brariam por isso? Quais as vantagens e quais as ameaças implícitas nas pro-
posições? A globalização oferece mais benefícios do que custos, porém este
trade-off resulta, sem lugar a dúvidas, favorável para as grandes empresas
e bancos de inversão norte-americanos. Corrobora essa assertiva a defini-
ção do conceituado norte-americano John Kenneth Galbraith: "Globalização
não é um conceito sério. Nós americanos, o inventamos para dissimular nossa
política de entrada econômica nos outros países".
Países Asiáticos
A bacia do Pacífico, no processo de "japanização" da Ásia, adotou sete
indústrias-chaves e, através da microeletrônica, robótica e máquinas-ferra-
mentas, computação, telecomunicação, aviação civil, biotecnologia e mate-
riais vinha promovendo transtornos inimagináveis há poucos anos, pois,
tornou-se, de longe, a região de maior crescimento do comércio mundial. Se-
gundo Ishihara, em "O Japão que pode dizer não", a guerra das superpotên-
cias militares seria substituída pela guerra econômica no século XXI, afir-
mando que o Japão venceria a guerra.
As economias do leste da Asia, incluindo as do subcontinente indiano,
abandonaram os padrões normais de políticas cambiais e de comércio exte-
rior, decididamente antiexportador, tendo superado com sucesso as restri-
ções de oferta ao crescimento das exportações de manufaturados. Antes de 25
de junho de 1987 quando chegou ao fim o milagre econômico da Ásia, pela
queda do baht tailandês, havia uma opinião quase generalizada de que as
economias da região manteriam uma expansão ad infinitum, entretanto, o que
há alguns meses era um exemplo brilhante de uma política sólida e cresci-
mento excepcional, hoje enfrenta retração econômica, quebras generalizadas,
austeridade social e instabilidade política. Acrescente-se a agravante de
que os mercados globais, em sua maior parte, não estão regulados e não há
probabilidade de que isso se modifique. Como os mercados financeiros glo-
bais dirigiram seu fogo contra os capitais asiáticos, de Bankok a Seul, fo-
ram destruídas, uma a uma, moedas antes estáveis. Há grandes fluxos de ca-
pitais percorrendo o mundo, os quais são administrados profissionalmente,
no propósito de obter os melhores resultados de inversão. Esses movimentos
podem favorecer um país ou abandoná-lo, consequenciando prosperidade ou
tempos difíceis com veredictos inapeláveis. Entretanto, numa retrospectiva,
constatamos que os asiáticos têm sido inteligentes no contorno de adversi-
dades principalmente pela qualidade de seus cidadãos. Nas atuais circuns-
tâncias é imperioso avançar mas está cada vez mais difícil construir a tec-
nologia para o avance. Segundo Robert B. Reich, no mundo globalizado o pa-
trimônio fundamental passou a ser a aptidão e o conhecimento dos cidadãos.
A riqueza passa às mãos dos países com povo mais apto e de maior conheci-
mento, ao mesmo tempo em que condena os menos aptos a um padrão de vida em
declínio. Vivamos, pois, o desfecho!
Conclusões
À revelia desses paralelismos e confrontos, dentro da competitiva e mu-
tante economia global, o Mercosul, reforçado na democracia como sistema po-
lítico, marcha, com proposta para este ano, em direção a uma moeda e a um
passaporte únicos para os cidadãos do Mercosul e será declarado "zona de
paz" afastando para sempre da Patagônia (Argentina) à Amazônia Brasileira o
fantasma de qualquer conflito armado. Para o Mercosul o desafio é continuar
avançando e consolidando o desenvolvimento econômico, a exploração racional
de seus recursos e conseguir, com isso, um sólido crescimento para susten-
tar a integração regional e a inserção, cada vez maior, no contexto dos
grandes blocos do mundo.
Isoladamente, qualquer país sul-americano não reuniria facilmente poder
de barganha para negociar frente a blocos como União Européia, Ásia Pacific
Economic Cooperation - Apec; Associação das Nações do Sudeste Asiático -
Asean; Nafta, ou mesmo outros. A multiplicação do poder de influência, como
bloco, é que tem emprestado força política e fortalecido a identidade e as
credenciais internacionais desse conjunto de países. A inserção comercial
da região com a Europa, os Estados Unidos e a Bacia do Pacífico deverão dar
o perfil da região para o próximo século. Com isso, cada país membro não
pode pensar em seu futuro, dissociado do futuro do Mercosul, o qual precisa
continuar a aprofundar a liberdade de comércio intra-regional e a integra-
ção com o restante do mundo. A regionalização, enquanto união das forças
locais, impõe-se como estratégia competitiva para criar e sustentar vanta-
gens no objetivo primário da conquista de maior bem estar para seus povos.
*O autor é sócio do Rotary
Club de Araranguá-Centenário, SC
(D.4650)
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