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Os 500 anos do Descobrimento
e as relações Portugal-Brasil


Nesta segunda matéria sobre as comemorações dos
500 anos do descobrimento do Brasil, entrevistamos o
Dr. Francisco Treichler Knopfli, embaixador de Portugal

Lourenço Cazarré *

Brasil Rotário - O Rotary em nosso país vai comemorar intensamente o Descobrimento do Brasil. O que o senhor acha dessa iniciativa?
aaEmbaixador - O Rotary, por ser um movimento mundial que reúne milhões de pessoas dispostas a servir à comunidade, é o organismo adequado para se envolver nestas comemorações, que se querem dinâmicas e dialogantes. Se em cada reunião de Rotary houver alguns minutos de reflexão sobre o futuro do Brasil e das relações luso-brasileiras, se a mensagem passar aos clubes de jovens, Interact e Rotaract, sem dúvida, no ano 2000, haverá inúmeros cidadãos dispostos a fazer dessa passagem de século um marco e a sentir a importância das nossas duas pátrias no contexto mundial. O século XXI verá sem dúvida outros países de língua portuguesa firmarem-se econômica e comercialmente e muito dos seus dirigentes serão rotarianos. Grande ajuda terão os nossos políticos do novo século se um número cada vez maior de cidadãos tiver consciência da importância da participação das associações privadas no desenvolvimento equilibrado dos países.

aaBR - O senhor poderia nos relatar alguns dos principais eventos que estão sendo preparados por Portugal para a comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil?
aaEmbaixador - Existe uma comissão bilateral que emana das duas comissões nacionais que têm por missão específica, justamente a partilha das ações que visem a realização de atividades em ambos os países visando a comemoração da viagem de Cabral. A este propósito deverá acentuar-se que se espera que estas comemorações proporcionem também uma ampla reflexão de todos nós sobre o futuro dos nossos países. Já estão previstas inúmeras exposições para os próximos dois anos, quer em Portugal, quer no Brasil, na continuidade do que vem sendo realizado: "Os Reinóis do Brasil", "Da Colônia ao Reino", "D.João VI", "O Descobrimento do Brasil", "A Obra de Landi" etc. Haverá também seminários, cite-se "D.Pedro, o Estadista de Dois Mundos". Apoiar-se-á o Museu Aberto do Descobrimento em Porto Seguro. Daremos apoio à organização de uma regata oceânica, à construção de uma réplica de uma caravela, à revisão de manuais escolares na área da história em ambos os países. Refira-se ainda o importante congresso "Portugal-Brasil Ano 2000", com oito pólos de funcionamento em Portugal e no Brasil. O programa Resgate que microfilma, já há algum tempo e de forma sistemática, a documentação referente ao Brasil Colônia no arquivo Histórico Ultramarino.

aaBR - Como estão as relações diplomáticas entre Brasil e Portugal, cinco séculos após o descobrimento?
aaEmbaixador - Podemos afirmar que o relacionamento diplomático entre Portugal e o Brasil é excelente. No plano político-institucional, a prová-lo, estão as inúmeras visitas não só de membros de governo do meu país ao Brasil e responsáveis oficiais brasileiros a Portugal como também de entidades do setor privado de ambas as partes que correspondem, na maioria dos casos, a outras tantas iniciativas de cooperação em áreas tão diversificadas como as da administração pública, da cultura, e da criação de parcerias estratégicas fundamentais no plano econômico, financeiro e dos investimentos. Todas elas têm contribuído para reforçar o conhecimento recíproco, os propósitos partilhados e a comple-men-taridade de interesses que a tantos níveis nos ligam. São exemplos disso as visitas do presidente da Re-pública e do primeiro-ministro de Portugal, ano passado, ao Brasil; e a presença do presidente Fernando Henrique Cardoso na cerimônia de abertura da EXPO'98, em Lisboa. No plano político, propriamente dito, dispomos de uma excelente moldura de contatos regulares que nos permite concertar estratégias e posições face aos grandes temas da política internacional (caso das consultas políticas bilaterais em cada ano) e da agenda bilateral (como as cúpulas governamentais).

aaBR - Como o senhor vê o atual estágio do intercâmbio comercial entre os dois países? É o ideal, ou ainda pode ser melhorado?
aaEmbaixador - Até 1990, as trocas comerciais entre os dois países eram pouco expressivas e muito instáveis. A importação portuguesa de produtos brasileiros atingiu 2% do total de exportação do Brasil e, no sentido inverso, as exportações de produtos portugueses para o Brasil não ultrapassou 1% do total exportado. Com a gradual abertura comercial brasileira a situação tem-se alterado. Em 1995, ano representativo do novo curso, o mercado português de produtos brasileiros foi dentro da União Européia o oitavo no ranking, logo após as cinco grandes economias comunitárias (Alemanha, França, Itália, Reino Unido e Espanha). Essa evolução acompanha o aumento dos outros laços econômicos e financeiros entre os dois países, nomeadamente os investimentos, já que na atualidade estes fluxos tendem a desenvolver-se de forma associada. O déficit comercial de Portugal com o Brasil é uma constante nas trocas bilaterais da últimas décadas, e é compensado com as balanças de remessas financeiras, de turismo e outras, pelo que não é uma situação que apresente qualquer preocupação às autoridades dos dois países. Os itens principais de exportação de Portugal para o Brasil são: alimentos, minério de cobre, petróleo, geradores elétricos, moldes para a indústria de plásticos e livros. Os principais produtos de exportação do Brasil para Portugal são: couros e peles, soja, madeira, café, sisal, ferro e aço.

aaBR - O que se poderia fazer para incentivar ainda mais o intercâmbio cultural entre Portugal e Brasil? Em que área é hoje maior esse intercâmbio entre os dois países: literatura, artes, televisão, cinema?
aaEmbaixador - As áreas literárias, artísticas e cinematográficas são aquelas em que de forma regular se realiza a divulgação da cultura portuguesa no Brasil. A literatura está presente nos colóquios, congressos e seminários organizados pelas universidades brasileiras com o apoio do Instituto Camões e do Centro Cultural da Embaixada. Na área artística merecem destaque as dezenas de exposições anuais, apresentadas nas mais importantes cidades brasileiras, em particular naquelas em que existem consulados de carreira. Relativamente ao cinema têm-se organizado diversas semanas de cinema português, quer por iniciativa do Centro Cultural, quer a pedido de instituições brasileiras. Algumas televisões, por outro lado, têm acordos diretos, nomeadamente a TV Educativa e a TV Cultura com a RTP. A presença no Brasil, das cadeias por cabo, da RTP Internacional, permite que o público brasileiro tenha acesso direto à atualidade portuguesa, tal como os portugueses podem ter notícias do Brasil através das nossas cadeias por cabo.

aaBR - Como o senhor analisa a presença de telenovelas brasileiras em Portugal?
aaEmbaixador - As telenovelas de boa qualidade, que retratam quer a realidade da sociedade brasileira, quer os traços culturais distintos deste país, contribuem decerto para reforçar o conhecimento mútuo. A telenovela brasileira serve também para veicular uma forma diversa de falar português e só isso já é muito importante para oferecer uma dimensão diferente de uma parte do mundo lusófono aos portugueses e claro está, aos outros países da CPLP - Comissão de Países de Língua Portuguesa, onde as novelas também são apresentadas.

aaBR - Existe intercâmbio acadêmico entre os dois países? Em que áreas esse intercâmbio ocorre? É possível incrementá-lo ainda mais?
aaEmbaixador - O intercâmbio acadêmico existe, mas não com a assiduidade que todos nós gostaríamos que acontecesse. Há, sobretudo professores portugueses que vêm com freqüência ao Brasil, em áreas diversas, quer das humanidades, quer das ciências. A convite de instituições brasileiras, o Instituto Camões, o Centro Cultural e também a Comissão Nacional para os Descobrimentos, organizam sistematicamente ações no Brasil com professores universitários portugueses. Também existem acordos entre universidades que permitem a circulação de professores por períodos mais ou menos longos em áreas que vão do jornalismo ao direito, da história à literatura, da biologia à informática. Esta é uma área que pode ser desenvolvida sem limite. Desde que as universidades de ambos os países assinem protocolos bilaterais que contenham disposições nesse sentido.

aaBR - A embaixada tem informações sobre o número de portugueses que residem no Brasil? Quantos são os descendentes de portugueses?
aaEmbaixador - O número de cidadãos portugueses inscritos nos nove consulados de carreira e nos 41 consulados honorários de Portugal no Brasil é de cerca de 300 mil. Contudo, considerando a extensão do país e o fato de muitos portugueses não atualizarem as suas inscrições consulares, é muito difícil obter valores exatos. Por dados obtidos através dos consulados e das associações portuguesas e luso-brasileiras, pode-se estimar entre 500 a 700 mil a população portuguesa residente no Brasil. Relativamente ao número de luso-descendentes, temos conhecimento de um projeto de estudo que a Organização Mundial dos Luso-descendentes, com sede em São Paulo, pretende realizar. Estima-se que o número de luso-descendentes em 1º grau, (filhos de pai ou mãe portuguesa) seja de 1.330.000.

aaBR - É possível aos brasileiros, descendentes de portugueses, solicitar a cidadania portuguesa?
aaEmbaixador - Os cidadãos brasileiros podem obter a cidadania portuguesa desde que possam provar uma linha ascendente ininterrupta de cidadãos portugueses. Ou seja, o pai ou a mãe têm de ser portugueses. Existe ainda a possibilidade de poderem requerer a cidadania portuguesa no caso de disporem de um avô ou avó sobrevivo que seja filho de cidadão português. Nesse caso, o avô ou avó deverá requerer a nacionalidade portuguesa, permitindo aos filhos, posteriormente, solicitarem para si.

Francisco José Laço Treichler Knopfli
Embaixador aaaO embaixador de Portugal no Brasil, Francisco José Laço Treichler Knopfli, nasceu em 3 de julho de 1936, em Vila Viçosa. Licenciado em ciências sociais e políticas pela Universidade Técnica de Lisboa, da qual é hoje conselheiro vitalício, ingressou na diplomacia em 1963. Inicialmente, serviu nas embaixadas portuguesas no México, Guatemala e Equador.
aaaIndicado cônsul em Santos, SP, assumiu em 11 de novembro de 1970. Na época, pertenceu ao Rotary e ganhou o título de Cidadão Emérito. Desde 25 de novembro de 1997, desempenha a função de embaixador português no Brasil. É membro da Academia de Direito Internacional do México e possui a Ordem do Cruzeiro do Sul, no grau de Comendador e a grã-cruz da Ordem de Rio Branco, ambas do Brasil, além de inúmeras condecorações de outros países.

*O autor é escritor e jornalista.

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