Fale conosco Últimas notícias Conheça o Rotary Chat Página inicial


Os guias culturais

João de Scantimburgo*

   Na história cultural da França está presente, sempre, o maitre à penser, o guia do pensamento, o líder cultural, cuja palavra é diretriz para seus adeptos. Vem de longe, do lluminismo, dos antecedentes da Revolução Francesa, onde as Sociétèes de Pensée representaram papel decisivo no irrompimento das grandes transformações que se Ihe seguiram.
   O maitre à penser é, pois, uma figura pinacular, da qual emanam conceitos que são assimilados pelos seus discípulos. Os dois últimos e maiores maitres à penser da segunda metade do século da França. foram Jean Paul Sartre, filósofo, romancista, biógrafo, teatrólogo, panfletário, e Raymond Aron, seu colega na École Normale, sociólogo, politicólogo e grande doutrinador. Pode-se dizer que um e outro encheram a segunda metade do século com seus livros, seus artigos, mas, evidentemente, com suas idéias. Chegou a tal ponto a influência de um e outro, que os adeptos de Sartre diziam preferir errar com ele do que acertar com Aron. Sartre era marxista e Aron liberal. Sartre fazia comícios nas portas das fábricas, enquanto Aron dava aulas e escrevia para jornais e revistas, fazia conferências e palestras, ouvidas por milhares de interessados.
   Durante o período da guerra fria Sartre exerceu considerável influência sobre a juventude francesa. Sua pregação esteve na origem dos tumultos de 68. Infatigável. produzindo extensos trabalhos, filósofo existencialista, corrente que conquistou seguidores no após guerra e perdurou durante anos, foi, com vigor, um demolidor da democracia, que pretendeu abater. Seu antigo colega da École Normale, do outro lado da área de combate, pregava o liberalismo, como solução dos problemas políticos e econômicos das nações.
   Tão infatigável quanto Sartre, Aron expunha, no entanto, com mais lógica, embora com menos estilo literário do que seu opositor. Mas, no final, acabou ganhando a partida Raymond Aron, pois ruiu o Muro de Berlim, a URSS se desfez e o sistema comunista está sepultado sob os escombros de suas ruínas. embora ainda haja comunistas fanáticos, ansiando pela ressurreição do sinistro regime que levou ao túmulo 100 milhões de mortos. Passando da França para o Brasil, tivemos, de fins do século passado até recentemente, e embora já morto, o maior maitre à penser de nosso país, Rui Barbosa. Tão grande foi o culto votado ao formidável baiano, que chegavam seus adoradores a considerá-lo um semideus. Seus caudalosos discursos eram ouvidos em silêncio total, embora sua voz fosse fanhosa. Escritor barroco, dono de um estilo opulento, com páginas de rara beleza, e, por isso mesmo, antolôgicas, Rui Barbosa pregou o liberalismo, defendeu as liberdades, escreveu milhares de páginas para combater o arbítrio na República, de cuja proclamação foi um dos responsáveis, ainda que tendo confessado ser republicano do dia seguinte.
   Dono de cultura extensa, embora alheio à reflexão filosófica, que não o seduziu, Rui Barbosa doutrinou e alcançou eco com sua doutrinação. Está hoje, neste fim de século, menos lembrado, mas ainda, de tempos em tempos, é citado por seu amor à liberdade e sua rigorosa integridade ética. Por seu apostolado cívico é figura pinacular no Panteon simbôlico da cultura brasileira. Daí, o Dia da Cultura ser comemorado na data de seu nascimento, 5 de novembro.
   Numerosas idéias pregadas por esse extraordinário lutador estão superadas, mas o núcleo de seu pensamento, a defesa da liberdade, esse continua intacto, e, por isso, merece a nossa reverência, de par com o nosso respeito à sua fulgurante contribuição cultural ao Brasil.

* O autor é membro da Academia
Brasileira de Letras e sócio do
Rotary Club de São Paulo, SP
(D.4610)

Voltar
Voltar