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Falando no XXl Instituto Rotário do Brasil, em Brasília, o embaixador de Portugal no Brasil, Francisco José Laço Treichler Knopfli, disse que os laços que unem as duas nações desde a chegada de Pedro Alvares Cabral, no ano de 1500, "se perpetuaram ao longo de meio milênio, cimentando forte e inabalável amizade que hoje se projeta no futuro, fundada na perenidade e no valor absoluto dos laços de sangue, língua, cultura e passado comuns".
O embaixador lembrou que a descoberta do Brasil - "imortalizada na prosa simples mas plena de simbolismo de Pero Vaz de Caminha" - foi um dos momentos culminantes dos grandes movimentos de navegação que marcaram indelevelmente a História a partir do século XV, período em que Portugal desempenhou papel primordial, acima de qualquer outra potência. Ao entrar na era dos descobrimentos, Portugal virou-se para as costas africanas, ao sul de Marrocos, para as rotas do Oriente e para o Atlântico Sul onde sobressaiu o descobrimento do Brasil. Já naquela época - destacou o diplomata -, os portugueses dispunham da "técnica e da ciência que nos haviam ficado dos contatos anteriores com as potências marítimas mediterrâneas das campanhas no Norte da África, desenvolvidas e aperfeiçoadas com a clarividência das elites que então nos governavam, sob a égide da Dinastia de Aviz, obedecendo a reconhecidas considerações de ordem econômica e geopolítica". Depois de ressaltar que a aventura portuguesa dos descobrimentos é universalmente tida como um verdadeiro projeto nacional que deu corpo a um ímpar desígnio histórico, o embaixador afirmou que, por esse motivo, a descoberta do Brasil não foi obra do mero acaso. "Nem o aportar de Cabral a Santa Cruz foi fruto de um qualquer acidente de navegação como alguns já pretenderam, correspondendo antes a uma estratégia clara e previamente definida de Portugal e a um conhecimento científico profundo no Mundo da época. Aspectos que, aliás, foram determinantes na negociação do Tratado de Tordesilhas em 1494." A colonização brasileira foi obra pensada. já que os reis portugueses pretenderam lançar as bases de uma verdadeira e efetiva organização territorial e administrativa das novas terras, que iam da foz do rio Amazonas, no atual Estado do Pará, até ao que hoje é o Estado de Santa Catarina. "Marcava, assim, Portugal, o sentido da ocupação definitiva do território assente no sistema das capitanias hereditárias, já utilizado com êxito nas ilhas atlânticas: primeiro. atribuindo à iniciativa particular a posse e usufruto das terras, experiência que deixou sinais de sucesso, pelo menos, em S. Vicente, no litoral paulista, e em Pernambuco; depois, através de um regime de administração por delegação direta do Monarca que inaugurou o sistema do Governo-Geral no Brasil, com sede inicial na Bahia, e que transitou depois para o Rio de Janeiro, já em 1763, época em que o titular da representação real passava então a ter o título de vice-rei", esclareceu Francisco Knopfli. As riquezas Com um sistema de administração colonial implantado no terreno, os governantes portugueses quiseram desenvolver e aproveitar as inúmeras riquezas da terra brasileira. Logo teve início o ciclo da cana-de-açúcar. Já no século XVII o Brasil seria o primeiro produtor mundial de açúcar. A nova riqueza acabou propiciando o que o embaixador chamou de "atlantização da política externa de Portugal". Essa tendência é compreensível, diante das condicionantes geopolíticas então impostas a Portugal no contexto europeu, com o seu conseqüente afastamento das conexões e laços continentais. Embora a restauração da Independência de Portugal, em 1640, tenha feito com que Portugal se voltasse novamente para a Europa, o Brasil continuaria a desempenhar papel proeminente na política externa portuguesa. "Evidenciavam-se, então, as principais coordenadas e linhas de força de uma diplomacia própria em que a vocação atlântica se afirmava, naturalmente, como traço caracterizador determinante e onde o Brasil era peça fundamental". O embaixador português abordou em seu pronunciamento também os primeiros movimentos que davam conta do surgimento de uma consciência propriamente brasileira, de amor e apego à terra que brancos, portugueses ou descendentes de portugueses, negros vindos da África e indios nativos indistintamente partilhavam". Para o diplomata, a revolta genuína dos locais contra a presença do invasor holandês que assolou o Nordeste brasileiro durante o dominio espanhol em Portugal traduziria, por antecipação, essa natural capacidade de integração e adaptação de muitas raças e povos a uma terra que já então considerávam sua e que veio a constituir uma das maiores riquezas do Brasil moderno. Rio, capital do reino A efetiva aproximação entre Portugal e Brasil viria, em 1808, com a trânsferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro. De 7 de março de 1808 até 26 de abril de 1821, o Rio funcionou como a capital da Monarquia portuguesa, fato que teria extraordinário significado para o futuro político do Brasil. Para o embaixador português, é fácil imaginar as transformações sofridas no Brasil com a instalação da família real e da máquina política e admi-mstrativa portuguesa, cerca de 15 mil pessoas. Esse acontecimento propiciou "a criação de uma aristocracia e nobreza locais e de quadros superiores que haveriam de constituir as elites dirigentes da Nação", assinalou o diplomata português. Entre os grandes benefícios decorrentes da instalação da família real portuguesa no Brasil, o embaixador Knopfli destacou o livre acesso à atividade industrial; a criação das escolas de Medicina na Bahia e no Rio, da Academia Militar, no Rio de Janeiro; do Banco do Brasil e o Jardim Botânico. Além disso, foram abertos os portos e permitiu-se a entrada de estrangeiros, o que contribuiu para abrir o Brasil ao mundo e dotá-lo de um capital humano que se revelaria fundamental para a construção da independência. Os fatos Analisando os fatos históricos, do descobrimento até a vinda da família real para o Brasil, o embaixador Knopfli disse que hoje se pode ver claramente que a estratégia dos governantes portugueses foi a de dotar o Brasil de sólidas estruturas de poder, culturais e de organização, que concorreram para a estabilidade territorial do imenso território. O Brasil - acrescentou - sempre foi visto como uma natural extensão territorial de Portugal, tendo em vista estreita relação corn base em elementos humanos, sociológicos, lingüísticos e culturais. O mesmo não ocorreu com a Àfrica onde a ocupação efetiva só se deu mais tardiamente. O Brasil deixou de ser colônia já em 1816, quando passou a fazer parte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. O movimento que culminou com a independência do Brasil viria seis anos depois, em meio ao que o embaixador de Portugal descreveu como uma conjuntura internacional marcada pela fragmentação do império espanhol nas Américas e pelos ventos emancipacionistas que sopraram no que é hoje a América Central na esteira da revolução dos Estados Unidos, da Revolução Francesa e do fenômeno napoleônico. O processo de separação entre os dois países foi, porém, bastante diferente do que se deu em relação à América espanhola - ressaltou o diplomata português -, tendo em vista os particulares condicionalismos históricos, marcados pela longa permanência da corte portuguesa no Brasil e pelos laços que se criaram nessa ocasião. Desse modo, 0 fato de o Brasil, recém-independente, ter permanecido no regime monárquico que se havia originado em Portugal foi determinante para a manutenção da unidade territorial do novo país. A independência brasileira foi reconhecida por Portugal em 1825, e desde então, não obstante as vicissitudes vencidas, o caminho percorrido, nas relações bilaterais, tem sido "muito fecundo", concluindo o embaixador. |
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* O autor é escritor e jornalista
profissional (prêmio Esso 1985)