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Dona Ruth Cardoso fala da Comunidade Solidária

A revista dos rotarianos brasileiros sente-se honrada por haver entrevistado, com exclusividade, a professora Ruth Cardoso, esposa do Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, fato não muito comum na imprensa. A Comunidade Solidária, presidida pela professora Ruth Cardoso, tem muitos pontos em comun com a Fundação Rotária do Rotary International, já que ambas as instituições desenvolvem programas dirigidos à educação, saúde e combate à pobreza.

Lourenço Cazarré*

   Brasil Rotário - A Comunidade Solidária surgiu para tentar unir, em parcerias, organismos oficiais e entidades, com a finalidade de superar a miséria, a fome e a exclusão. Hoje, a senhora acha que a meta inicial - a união entre sociedade civil e Estado - foi atingida?
   Dona Ruth Cardoso
- Sem dúvida, a Comunidade Solidária surgiu como um espaço de interlocução entre o Governo e a Sociedade Civil. E hoje, quatro anos depois, temos a convicção de que este objetivo foi alcançado. Todos os Programas que foram gerados dentro da Comunidade Solidária tem uma ampla participação das forças da sociedade civil, que apoiam, com recursos humanos, técnicos e financeiros, as iniciativas que têm por objetivos combater as desigualdades sociais em nosso país.

   BR - Um dos objetivos da Comunidade Solidária é o aprofundamento da noção de solidariedade no Brasil. O brasileiro é solidário?
Dona Ruth Cardoso    Dona Ruth
- Eu tenho reafirmado, desde muito antes de começarmos a trabalhar na Comunidade Solidária, que o brasileiro é, sem dúvida, solidário. Talvez faltasse visibilidade a esta característica. Mais que isso, falta ao brasileiro a consciência de que muitas de suas ações no cotidiano são ações voluntárias. Pessoas que participam de uma associação de pais e mestres, por exemplo, estão sendo voluntárias. Profissionais que dedicam parte de seu tempo à entidades de classe, também. Mas isso não é visto como uma ação movida pela solidariedade, como uma ação voluntária.

   BR - Fala-se que no mundo moderno - em função da vida agitada, da violência e do desemprego - há menos solidariedade. A senhora concorda com essa afirmação? A solidariedade é um valor em baixa?
   Dona Ruth
- Ao contrário, eu penso que a solidariedade é um valor que cresce na vida das pessoa sem momentos de crise. A vida moderna e suas dificuldades não são fator de inibição da ação solidária. Na verdade, o que precisamos é dar às pessoas condições de exercerem sua solidariedade. E isso nós, da Comunidade Solidária, temos feito por meio do Programa Voluntários, parte do Programa de Fortalecimento da Sociedade Civil. Dez capitais brasileiras já contam com Centros de Voluntariado, que aproximam quem quer trabalhar voluntariamente de quem precisa deste tipo de trabalho.

   BR - Dizia-se, antigamente, que o brasileiro estava acostumado a esperar do Estado a solução para todos os seus problemas. Pela sua vivência no programa, ao longo dos últimos anos, a senhora pode dizer se essa afirmação ainda é verdadeira? Essa mentalidade ainda existe ou está mudando ?
   Dona Ruth
- Penso que isto está mudando, sim. As pessoas têm consciência de que sempre é possível acrescentar ações ao que é trazido pelo governo. Na verdade, vemos que não há possibilidade, hoje, de deixar somente ao governo, ou somente à sociedade, a solução dos enormes problemas sociais que temos. É preciso desenvolver ações em parceria.

   BR - A existência da Comunidade Solidária significa, em parte, a falência da atuação do Estado em determinadas áreas, que podem ser melhor atendidas por entidades civis, leigas, religiosas, empresas. Como a senhora avalia a atuação dessas entidades no Brasil ?
   Dona Ruth
- Esta questão pode ser vista de uma outra forma. Hoje é consenso que os nossos problemas sociais são de tal modo grandes, que não é possível lutar contra eles a não ser unindo esforços. Temos uma herança pesada de exclusão social. Ao Estado cabe realizações universalistas, em áreas importantes como saúde e educação, por exemplo, e isto vem sendo feito. A sociedade, as comunidades podem e devem acrescentar à ação do Estado outras iniciativas que possam gerar melhorias para as pessoas que necessitam de apoio para estar incluídas, como cidadãs, na sociedade.

   BR - A Fundação Rotária, a maior fundação privada do mundo, desenvolve uma dezena de projetos voltados para a educação, saúde, treinamento de lideranças, cooperação e solidariedade. Que mensagem a senhora teria para os 57 mil rotarianos brasileiros?
   Dona Ruth
- Vejo a atuação da fundação Rotária, como também de outras instituições da mesma natureza, como extremamente importante num país como o nosso, que vem trabalhando para superar suas dificuldades sociais. Sem a ajuda de grupos sociais mais privilegiados, certamente teríamos maiores dificuldades para lutar contra a pobreza e a exclusão social no Brasil.

   BR - Nesses anos em que vem coordenando a Comunidade Solidária, a senhora certamente teve algumas surpresas, certamente fez descobertas interessantes. Que mais a impressionou nesse trabalho? Dê exemplos.
   Dona Ruth
- Sinceramente, não tive surpresas. Tive, sim, a confirmação de que é possível trabalhar em conjunto para superar dificuldades. Todos os nossos projetos foram realizados, avaliados, e estão crescendo cada vez mais. Isto só reafirma aquilo que já sabíamos: unindo esforços, trabalhando com objetivos claros e propostas realistas, alcançamos sucesso em nossas ações.

   BR - A Fundução Rotária tem um programa que auxilia rotarianos envolvidos como voluntários em projetos do Rotary. O Programa Voluntários, da Comunidade Solidária, também propõe-se a buscar o envolvimento dos cidadãos em iniciativas concretas de combate à exclusão social. Este programa tem tido sucesso? O voluntariado é um valor que avança no Brasil?
   Dona Ruth
- O Programa Voluntários, que já mencionei anteriormente, tem tido um desempenho bastante adequado à realidade brasileira. Os Centros estão se desenvolvendo bem, e, embora ainda tenham um trabalho bastante intenso pela frente, já há frutos bastante interessantes. Em Limeira, no interior de São Paulo, por exemplo, uma cidade que já tinha tradição nesta área, o Centro deu um grande impulso ao voluntariado. Podemos dizer que este é um valor que avança no Brasil.

   BR - O Programa Subsídios para Professores Lecionarem em Países em Desenvolvimento, do Rotary, também se parece ao Programa Universidade Solidária, que leva jovens estudantes ao interior do pais para conhecerem a realidade social, atuando sobre ela. Esses programas pressupõem noção de responsabilidade civil. A pergunta é: o Brasil mais rico preocupa-se com o Brasil mais pobre? O brasileiro mais rico preocupa-se com o mais pobre?
   Dona Ruth
- O Brasil se preocupa com o Brasil. Não é possível imaginarmos que aqueles que são mais ricos desejam viver num país que tem uma sociedade contaminada pela pobreza e pela exclusão. Prova de que esta preocupação existe é que temos tido a contribuição de inúmeras empresas e instituições que não ganham com isso mais que a sensação de estar trabalhando para um futuro melhor. Como exemplo disto, podemos citar que os aportes financeiros feitos por empresas aos programas da Comunidade Solidária não são acompanhados de isenção fiscal, e nem por isso deixam de acontecer. É uma prova de que estas organizações não são movidas pelo interesse financeiro.

   BR - Para alcançar o sucesso e sobreviverem, entidades como o Rotary e a Comunidade Solidária precisaram ter gerência eficiente e moderna, mais recursos humanos bem treinados e motivados. O Estado brasileiro está proporcionando à Comunidade Solidária recursos humanos e financeiros suficientes para que ele se torne permanente e cada vez mais eficaz? Dê 2 exemplos.
   Dona Ruth
- A Comunidade Solidária funciona num espaço cedido pela Casa Civil da Presidência da República, que também paga os poucos funcionários necessários à manutenção da pequena estrutura que temos. Nenhum dos conselheiros é remunerado. Não utilizamos recursos orçamentários públicos. As parcerias que são feitas com órgãos públicos normalmente utilizam recursos técnicos. A Comunidade Solidária, não é, então, um organismo público.

Dona Ruth Cardoso    Esposa do Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, a professora Ruth Corrêa Leite Cardoso conquistou em 1959, na Universidade de São Paulo, seu título de mestrado em antropologia. Treze anos depois, obteve seu doutorado com a tese "Estrutura Familiar e Mobilidade Social: Estudo dos Japoneses no Estado de São Paulo".

   Entre as principais atividades acadêmicas desenvolvidas pela hoje presidente do Conselho Comunidade Solidária (programa social de combate à pobreza e à exclusão social), estão a coordenação do curso de pós-graduação na área de Ciências Politicas, da USP, de 1975 a 1978; e a organização de seminários de pesquisa e cursos no programa de pós-graduação em Ciências Políticas, de 1986 a 1990. No exterior, foi membro associada do Center for Latin American Studies, na University of Cambridge (Inglaterra, 1977) e professora associada na Maison des Sciences de L'Homme (Paris, 1977), e lecionou na Universidade do Chile, de 1965 a 1967.

   Entre seus muitos trabalhos publicados, estão artigos sobre mobilidade social no Brasil, participação política e cidadania, movimentos populares na América Latina, violência e política.


* O autor é escritor e jornalista
profissional (Prêmio Esso 1984).

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