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Político cuja habilidade é reconhecida até mesmo pelos seus adversários, o pernambucano Marco Maciel é o primeiro brasileiro a ocupar, por duas vezes, a vice-presidência da República. Freqüentemente encarregado, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, das mais delicadas operações políticas, tem dado provas de sua grande capacidade de articulação.Cultor da velha tradição política brasileira, que se destaca pela capacidade de evitar conflitos, Marco Maciel segue o estilo de Tancredo Neves, que, aliás, antes de morrer, o indicou para ministro da Educação. Nesta entrevista a Brasil Rotário, o vice-presidente fala do seu trabalho como coordenador, pelo lado brasileiro, da Comissão dos 500 Anos do Descobrimento e elogia o trabalho do Rotary no nosso país. Brasil Rotário - No dia 11 de janeiro teve lugar no palácio do governo do Estado de Pernambuco, em Recife, a reunião de instalação da Comissão de Honra para as Comemorações dos 500 Anos, da qual o senhor participou. Quais são, na sua opinião, os principais benefícios que Brasil e Portugal podem tirar dessas comemorações? Marco Maciel - A permanente valorização das identidades luso-brasileiras. inclusive no que diz respeito aos laços que unem o Brasil e Portugal à África lusófona, como bem destacou o sociólogo Gilberto Freyre. BR - O senhor poderia listar as principais atividades que estão sendo programadas pelo governo brasileiro para comemorar os 500 anos do descobrimento? Marco Maciel - Destaco, primeiro, a construção do complexo do Memorial do Encontro, no local onde foi rezada a Primeira Missa, em Cabrália, no sul da Bahia, e que englobará o Museu do Encontro - reunindo reproduções de peças e documentos históricos alusivos aos primeiros contatos dos navegantes portugueses com as populações nativas - e a Taba dos Indios, que abrigará cinco grandes ocas para que os índios pataxó, que lá habitam, possam expor sua produção artesanal e realizar suas manifestações culturais. Cabe mencionar, ainda, a realização de 12 exposições, no exterior, sobre a formação da nacionalidade brasileira, denominadas "Descobrindo o Brasil". Elas serão compostas de painéis fotográficos, originais e reproduções de peças e documentos históricos e recursos de multimídia. Outras propostas, igualmente de grande significação, estão sendo avaliadas pela Comissão Bilateral. BR - O fato de o Brasil estar vivendo uma crise econômica, com ajuste fiscal, pode atrapalhar as comemorações? Marco Maciel - Não acredito nessa possibilidade porque a característica maior de qualquer crise é a sua transitoriedade e essa porque passa o Brasil não é diferente. Quando pontuamos o descobrimento do Brasil estamos referenciando cinco séculos de história, geradores de valores permanentes de nacionalidade e de integração cultural com Portugal. BR - Que aspecto da colonização portuguesa no Brasil o senhor considera mais importante? O fato de falar-se uma única língua em todo o país? Ou a grande extensão do território brasileiro?
Marco Maciel - Considero como fundamentais à formação do caráter nacional a influência das culturas portuguesa e da África lusófona. Penso que a nossa convivência com os africanos que aqui chegaram deve ter nos estimulado à atitude receptiva aos estrangeiros que para cá se deslocaram, posteriormente, propiciando uma fantástica miscigenação de raças e uma estimulante diversidade cultural em nosso território.BR - Como o senhor vê as relações diplomáticas entre Brasil e Portugal, 500 anos após o descobrimento? São boas? O que se pode fazer para melhorá-las? Marco Maciel - Os dois países sempre mantiveram relações absolutamente fraternas. Algumas desavenças surgidas mais recentemente entre brasileiros e portugueses, no âmbito do mercado de trabalho, não chegam a comprometer essa construção de nossa harmônica e fraterna convivência. BR - O senhor considera satisfatório o atual intercâmbio cultural entre os dois países? O governo do Brasil empenha-se efetivamente para que os portugueses tenham conhecimento do atual estágio da cultura brasileira? Marco Maciel - O relacionamento cultural entre países não deve contar exclusivamente com a iniciativa dos estados. Cultura é uma manifestação da nação e não do estado, razão pela qual entendo que a empatia entre as sociedades é que deve servir de mola propulsora ao desenvolvimento social, cultural, político e econômico e, sob estes aspectos, o relacionamento entre Brasil e Portugal é um exemplo admirável. BR - E no campo da educação? Embora usando a mesma língua, o Brasil quase não tem intercâmbio universitário, por exemplo. Em que área do conhecimento o Brasil poderia receber estudantes portugueses em busca de especialização? Há algo sendo estudado neste sentido? Marco Maciel - Temos nos empenhado para simplificar a legislação que rege o assunto. É uma questão trabalhosa porque envolve diferentes exigências curriculares nos dois países. Uma medida de grande alcance na busca desta capilaridade no campo da educação foi tomada, recentemente, no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, através da criação do Instituto Internacional de Língua Portuguesa, com sede na Praia, capital de Cabo Verde.
BR - O senhor acha que o intercâmbio comercial entre Brasil e Portugal corresponde ao que seria de se esperar entre nações tão próximas? O que há de positivo, hoje, neste campo?Marco Maciel - Brasil e Portugal fazem parte de mercados comuns próprios, vale dizer, a União Européia e o Mercosul. O desenvolvimento do comércio internacional está hoje intimamente ligado ao desempenho dos blocos continentais que se formaram como conseqüência da globalização da economia mundial. Ainda assim, nas relações bilaterais, vale destacar os significativos investimentos portugueses ocorridos mais recentemente no Brasil. Portugal tem investido - e muito - no Brasil. E nós também já começamos a "descobrir" Portugal: várias empresas brasileiras estão presentes em Portugal, inclusive, pensando também nas potencialidades do mercado europeu. BR - Como o senhor vê a participação nas comemorações dos 500 anos de entidades associativas como o Rotary que, aliás, está engajado na tarefa de dar ressonância ao que se fará neste evento? Marco Maciel - Empresto grande importância à ação dos clubes de serviço na vida do país. Eles são capazes de mobilizar largos segmentos da sociedade em torno de ações governamentais. Vejo, portanto com muita simpatia e, porque não dizer, com muito entusiasmo e esperança tal participação. Por isso, o envolvimento do Rotary na propagação dos festejos do V centenário do Descobrimento é mais uma garantia de que atingiremos nossos objetivos de fazer deste episódio um marco na relação dos países. BR - O que o senhor diria às dezenas de milhares de rotarianos brasileiros que estão sempre engajados em iniciativas comunitárias tendentes a melhorar a vida dos cidadãos, a resgatar e promover talentos? Marco Maciel - O Brasil terá uma presença mais forte no mundo do próximo milênio. Somos, num território quase continental, um povo trabalhador que convive excepcionalmente bem com os demais. Chegou a hora da sociedade brasileira assumir o seu quinhão de responsabilidade na luta contra as desigualdades sociais, construindo assim uma nação mais justa. O Rotary, frise-se, há muito descobriu isso.
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* O autor é escritor e jornalista
profissional,Prêmio Esso 1984.