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A confusão mundial dos computadores poderá tirar o brilho da comemoração da virada do século. Cena 1: Chega o ano 2000, mas o mundo tem pouco a comemorar, porque o pesadelo dos dois dígitos que os videntes vinham agourando tornou-se realidade: os sistemas de computadores de toda parte estão lendo os "00" como 1900. A contabilidade de sua companhia não consegue calcular os juros; e procurar arquivos pela data está deixando todos loucos. Ao chegar em casa, à noite, você abre a correspondência e vê que os impostos que tem que pagar estão atrasados 100 anos.
Sua família estava indo para as Bahamas para as férias da virada do século, mas você é informado de que não há energia elétrica no aeroporto local e em muitos outros ao redor do mundo. Mas isso pode até ser positivo, pois há grande probabilidade de que as caixas registradoras de muitos restaurantes e lojas das Bahamas não consigam entender a data de validade de seu cartão de crédito, pois estará marcada para depois do ano 2000.Cena 2: Você dá as boas-vindas à mudança do calendário com um suspiro de alivio. É claro que houve alguns pequenos contratempos com os computadores. O elevador do prédio onde ocorreu a festa de Ano Novo ficou parado, mas o seu pai bem idoso não perdeu a pensão, como temia. Mesmo que a assinatura anual de sua revista tenha expirado na primeira semana, a viagem com a família para as Bahamas transcorreu sem incidentes. Qual das duas cenas irá prevalecer no ano 2000? Conseguiremos resolver a tempo o que já está sendo chamado de "o maior projeto de todos os tempos com um só tipo de informação"? Ou o caos reinará a partir da meia noite de 31 de dezembro de 1999? "O problema do ano 2000 afetará todas as pessoas e entidades do mundo que usam um computador, e até mesmo quem não os usa," diz Mike Royce, presidente da Royce Family Services, firma de consultoria em computadores de Concord, New Hampshire, EUA. "Ou seja, todas as áreas da vida - desde os elevadores até instituições financeiras e bancárias, passando pelos fornos de microondas." Os únicos que não sofrerão o impacto serão aqueles que vivem sem eletricidade e que plantam ou caçam para o seu sustento. Esse desastre, que é a maior ameaça à mais grandiosa festa de Ano Novo do século - tem vários nomes:"Y2K," "O Problema dos Computadores no Ano 2000", ou "O Bug do Milênio" - irá custar ao mundo milhões em dinheiro, e tudo por causa de dois dígitos. Quando os relógios chegarem a 11:59 da noite de 31 de dezembro, muitos computadores vão entrar em pane - a menos que sejam feitos os ajustes e que os sistemas de computação sejam adaptados a eles. Para agravar o problema, o ano 2000 é bissexto. As raízes do Y2K (termo mais usado) datam de três décadas atrás , na alvorada da era do computador, quando os programadores não estavam muito atentos para o próximo século. Para facilitar o trabalho e ter mais espaço na memória, os técnicos usaram somente os dois últimos dígitos para as datas, ou seja, "68" para 1968, ou "70" para 1970. "Esse atalho funcionou por um longo tempo, mas, ao chegarmos perto do ano 2000, muitas pessoas começaram a ficar nervosas, porque o sistema era uma receita de caos," explica Bud Hamilton, professor da Faculdade de Administração na Universidade do Estado da Geórgia, em Atlanta, EUA. Ele é um dos muitos profissionais que atualmente oferecem consultoria a respeito dos problemas advindos do Y2K. "Se os altos executivos das empresas acham que suas operações não acarretam sensíveis cálculos de dados pelo computador, eles deveriam passar um dia com o pessoal da contabilidade, dos serviços ao consumidor ou da emissão de boletas de cobrança," avisa Joseph M. Campos, advogado especializado em lei comercial, que trabalha para a Stanislaw, Ashbaugh LLP, um escritório de advocacia em Seattle, Washington, EUA. "Cada vez que um funcionário visualiza uma tela com o campo reservado ao ano, ele deveria pensar: "Programa do ano 2000", diz Campos, membro do Grupo de Soluções Legais para o Ano 2000.
As boas novas são que, quanto menor a empresa, menos dinheiro e tempo levará para os ajustes. "Uma empresa com menos de 10 empregados poderá ajustar o sistema informatizado por menos de dois mil dólares, "afirma a consultora de Y2K Juli-Ann Gaspar, professora de administração de finanças na Universidade de Creighton, Omaba, Nebraska, EUA. Entretanto, devido à presença maciça dos computadores em nossa sociedade, o custo envolvido na depuração dos programas para o próximo milênio é assustador: de 300 a 600 bilhões de dólares, de acordo com a Gartner Group, renomada empresa de pesquisas de marketing. A Gartner fez uma projeção dos gastos que algumas companhias norte-americanas terão com a reparação dos problemas do ano 2000: Electronic Data Systems Corporation, 144 milhões de dólares; Prudential Insurance, 150 milhões; State of California, 187 milhões; Chase Manhattan Bank, 250 milhões e Federal Express, 500 milhões. E esses números parecem pequenos quando comparados ao que o contribuinte americano irá pagar para consertar mais de um bilhão de linhas de códigos de programação dos computadores do Tio Sam: quatro bilhões de dólares, segundo previsões. Resolver o problema do Y2K terá um custo alto também em outros países; e alguns experts ainda se perguntam se a maioria conseguirá vencer o desafio. Robert Guenier, diretor-executivo da Força-Tarefa 2000, um grupo sem fins lucrativos que procura conscientizar as pessoas do Reino Unido, prevê que a solução do problema em seu país custará 51 bilhões de dólares, e que talvez não haja recursos suficientes para fazer o trabalho. "No Reino Unido, para resolver o problema, seria necessário o compromisso de toda a indústria de tecnologia de informação, e isso não irá acontecer," disse aos participantes de uma conferência em junho do ano passado, em Londres.
A máquina burocrática do governo dos EUA também está correndo com os ajustes. No serviço de Imposto de Renda, que tem 88 mil programas, 80 estruturas principais e 62 milhões de linhas de códigos de computador para checar, 80 empregados vêm trabalhando constantemente no Y2K desde janeiro de 1990. O mês de janeiro de 1998 marcou a conclusão de apenas metade do trabalho. Mas nesse jogo de estar preparado para a mudança do milênio, os grandes jogadores parecem ser mais a exceção do que a regra, de acordo com pesquisas recentes. As estimativas da porcentagem de usuários que ainda não estão prontos para o ano 2000 varia bastante: de cinco a 30% das companhias dos EUA e até 50% no resto do mundo. "Muitas agências, empresas e organizações ainda não compreenderam a seriedade do problema," conta Frank Connolly, professor na American University, em Washington, D.C., e especialista em Y2K. "Quanto mais se espera, maior é o risco. Produtos de software, recursos técnicos e experiência serão difíceis de encontrar quando o mundo inteiro começar a correr atrás deles, ao mesmo tempo, para resolver os problemas." Mas os especialistas assinalam que pôr o equipamento em ordem não é suficiente. É preciso também entrar em contato com outros profissionais, comerciantes. investidores, banqueiros, contadores e corretores de ações - qualquer um que use computadores - com quem mantemos relacionamento, para saber se eles já estão preparados. Se não estiverem, é preciso saber quando estarão. Se alegarem que já estão, é bom pedir confirmação por escrito. "Os computadores fizeram o mundo ficar tão conectado que é importante conversarmos com nossos parceiros de trabalho e clientes para fazer com que eles se conscientizem sobre o Y2K," aconselha Juli-Ann Gaspar, da Creighton. "Deveríamos estar todos perguntando uns aos outros: 'Você já está preparado para o ano 2000?" |
*O autor é jornalista free-lance e professor
de Biblioteconomia na Universidade Winthrop,
em Rock Hill, Carolina do Sul, EUA.
Traduzido da The Rotarian por Janete
Costa Nascimento.