![]() |
|

|
Quinhentos anos após a passagem de Pedro Álvares Cabral pelas idílicas paisagens do Sul da Bahia, os brasileiros começam a descobrir os detalhes que envolveram a viagem do navegador português. O autor da proeza é um jornalista, Eduardo Bueno, que se encarregou - com um texto direto e ágil - de escrever um livro - A Viagem do Descobrimento - para transmitir o máximo de informações sobre o assunto. Lê-se a obra de um fôlego, como se fosse um romance. Nesses tempos em que se contam os dias para as festas do V Centenário, essa é uma boa dica de leitura. O que fez com que um livro tratando um tema histórico, aparentemente árido, alcançasse essa cifra? A resposta é simples. Eduardo Bueno usou a linguagem do jornalismo – ágil, vibrante e direta – para responder àquelas muitas perguntas que nunca foram respondidas pelos historiadores, em geral mais empenhados em enfileirar datas, nomes de batalhas e árvores genealógicas. Erra quem acredita que o livro teve sucesso apenas porque se aproveita de um clima favorável criado a partir do início dos preparativos para a comemoração dos quinhentos anos da descoberta do Brasil. Na verdade, A Viagem do Descobrimento é uma obra rica em informações desconhecidas do grande público. O jornalista narra, com grande riqueza de detalhes, desde os preparativos para o envio à Índia da impressionante frota de Cabral até o final de sua estadia de dez dias pelo litoral baiano. De início, o autor mostra todos os intrincados interesses comerciais existentes por trás da expedição, financiada pelo rei português e ricos comerciantes italianos. "Todos esses capitães – assim como os principais pilotos e mestres – eram homens muito bem pagos... A maior remuneração evidentemente cabia ao comandante-chefe: sabe-se que Pedro Álvares Cabral recebeu dez mil cruzados pela viagem. Cada cruzado equivalia a 3,5 gramas de ouro", informa Bueno.
A partida das dez naus e três caravelas, cujo objetivo central era atingir a Índia - onde estavam as valiosas especiarias, principalmente a pimenta - foi um acontecimento grandioso em Lisboa, então com 60 mil habitantes. A bordo, os homens tinham rações iguais: 15 quilos de carne salgada por mês, mais cebola, vinagre e azeite. O alimento básico era biscoito, em geral podre e mal cheiroso. Para beber, cada marinheiro tinha direito a uma canada (1,4 litro) diária de vinho e uma canada de água. Depois de passar a linha do equador, a esquadra portuguesa teve de enfrentar, por dez dias, uma grande calmaria. Os barcos passaram então a navegar a apenas um nó (l,9 quilômetro) por hora, contra os cinco nós em que viajavam em condições mais propícias. Após 44 dias no mar, percorridos sete mil quilômetros, chegaram ao Brasil. "Por volta das seis horas da manhã de quinta-feira, dia 23 de abril de 1500, quando o sol nasceu na ampla baía em frente ao morro batizado de Monte Pascoal, a esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral estava ancorada a 36 quilômetros da costa", informa Bueno. A seguir, ele descreve pormenorizadamente tudo o que aconteceu durante os dez dias em que os navios de Cabral estiveram fundeados nas proximidades de Porto Seguro. Fala da boa acolhida que os índios deram aos portugueses em terras baianas e do seu espanto diante do machado. "Enquanto os marujos cortavam e recolhiam lenha, dois carpinteiros foram encarregados de fazer uma grande cruz. Ao verem os machados com que eles derrubavam uma árvore alta, talvez um cedro, os indígenas ficaram estupefatos... De um minuto para o outro, um bando de nativos, que com seus machados de sílex ainda vivia na idade da pedra, foi apresentado à Idade do Ferro... Com machado de pedra, a árvore que iria inserir o Brasil no circuito comercial mercantil da Europa levava cerca de três horas para ser derrubada. Com machado de ferro, um tronco de igual dimensão poderia ser cortado em apenas 15 minutos". Apesar de a nova terra ter sido descrita de maneira entusiástica, na carta de Pero Vaz de Caminha, a efetiva exploração do Brasil só começaria três décadas depois quando – diante da inviabilidade econômica da rota para a Índia –, os portugueses resolveram explorar o pau-brasil, que era usado como corante.
Nesse livro são contadas as peripécias dos primeiros homens brancos que viveram no Brasil, desde o descobrimento até 1531, quando teve início a ocupação do nosso território pelos portugueses. Esse livro revela um dos períodos mais fascinantes da história brasileira – os anos que vão da passagem de Pedro Álvares Cabral pela Bahia à chegada da primeira expedição de Martim Afonso de Souza. Resultado de uma extensa pesquisa em documentos da época, como diários de bordo, relatos de viagem e fragmentos de cartas, a obra reconstitui as aventuras de Caramuru, de João Ramalho, do misterioso Bacharel de Cananéia, de Francisco Del Puerto, que viveu 14 anos entre os nativos do Prata, e do aventureiro Aleixo Garcia, que saiu de Santa Catarina com um exército de dois mil índios para tentar atacar as cidades do Império dos Incas. Curiosidades do livro A Viagem do Descobrimento
|
*O autor é escritor e jornalista profissional,
Prêmio Esso 1984 e Prêmio Jabuti 1998.