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É possível evoluir sem destruir?

A realidade ambiental no Brasil mostra que o país ainda não conseguiu encontrar o equilíbrio entre progresso, preservação e saneamento

Luiz Otávio Alvarenga*

   O progresso e o desenvolvimento trazem benefícios inquestionáveis. Mas quando se dão de forma desordenada e mal planejada, sem políticas objetivas e leis rigorosas, provocam muitos malefícios. Especialmente ao meio ambiente. De norte a sul do Brasil, são inúmeros os casos de degradação ambiental provocados pelas transformações econômicas, embora todas as 27 unidades da federação possuam um órgão estadual de proteção do meio ambiente.
   Segundo a Abes (Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental), na maioria dos estados da região norte a poluição, sobretudo das águas, é causada pelo garimpo do ouro e pela extração de minérios. Na Amazônia, as principais agressões ambientais vêm da pesca predatória, do desmatamento e da exploração da madeira. Já Roraima sequer conhece a qualidade das águas dos seus rios por absoluta falta de equipamentos e técnicos qualificados.
   Ainda de acordo com a Abes, no sudeste e no sul as atividades industriais e de infra-estrutura são as que mais agridem o meio ambiente. Entre elas estão a construção de loteamentos, condomínios, shopping centers, marinas, portos, terminais de transporte e rodovias. A agricultura também contribui com uma grande parcela por causa do uso de agrotóxicos, biocidas e outros produtos químicos, que quase sempre acabam atingindo os rios e poluindo suas águas.
   Os esgotos lançados in natura direta ou clandestinamente nas galerias ou canais de drenagem são outro problema sério. No Brasil, segundo o presidente nacional da Abes, Antônio Marsiglia Netto, apenas 10% do esgoto coletado é tratado. "O que coloca a população permanentemente exposta a doenças até bem pouco tempo consideradas sob controle, como a cólera e a dengue", afirma, referindo-se aos casos de cólera ocorridos recentemente em Paranaguá, Paraná.
   Mas as doenças relacionadas à falta de infra-estrutura sanitária não estão restritas às cidades do interior. De tempos em tempos, elas se manifestam também nos grandes centros - como São Paulo, por exemplo, onde 60% do esgoto coletado é tratado. O Rio de Janeiro não fica atrás. Há dois meses, foi registrado um caso de cólera na Baixada Fluminense. "Em geral, as populações mais pobres são as que menos são atendidas pelos serviços de saneamento", diz Marsiglia.

      Conscientização
   Mas nem tudo são más notícias. Em abril, o presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou a lei da educação ambiental, que obriga, a partir do ano 2000, todas as escolas a incluir disciplinas que tenham fundamentos sobre meio ambiente. "Os livros terão que trazer ao menos um capítulo sobre meio ambiente", afirmou na ocasião o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, para quem a idéia não é apenas conscientizar, mas também despertar no aluno o interesse pela área ambiental.
   Projetos educacionais e de conscientização ambiental são realmente fundamentais e urgentes. Não só para salientar a importância da preservação mas também para elevar o nível de civilidade da população. Os cariocas, por exemplo, segundo a Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), jogam diariamente nas ruas do Rio cerca de 210 toneladas de lixo. Desse total, apenas 22% são recolhidos pelos garis onde deveriam estar, ou seja, nas lixeiras.
   O lixo - ou mais especificamente os catadores de lixo - é também uma preocupação da Abes. A idéia é erradicá-los até 2002. Para isso, a associação criou o Programa Lixo e Cidadania, que visa devolver a dignidade a milhares de pessoas em todo o Brasil que hoje sobrevivem das sobras e dos desperdícios dos mais afortunados. Para se ter uma idéia da gravidade do problema, um estudo recente mostrou que em alguns lugares os catadores já se encontram na sua terceira geração.

Do lixo à proteção
dos recursos hídricos
   O assunto, inclusive, foi tema do 20º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental, promovido pela Abes e realizado em maio no Rio de Janeiro (ver box). E uma das soluções apresentadas foi a de se incentivar, em parceria com o poder público, ONGs, universidades e a sociedade, a coleta seletiva, que propiciaria às famílias de catadores trabalho e renda. Segundo a Abes, a reciclagem no Brasil já está fortemente sustentada pela catação desses garimpeiros do lixo.
   Dono de 12% da reserva de água do mundo, o Brasil parece ter finalmente despertado para o fato de que rios, lagos e outras fontes estão morrendo, seja pela poluição ou pelo mau uso da água. Aparentemente, a criação, no Rio, da primeira Secretaria de Estado de Saneamento e dos Recursos Hí-dricos do país é um passo importante na tentativa de enfrentar o problema. Até porque, a Baía de Guanabara agoniza à espera da reativação do programa criado para a sua despoluição.

Congresso da Abes foi uma reedição da ECO 92

   Encontrar soluções para os problemas de saneamento e saúde pública do país. Esta foi a principal proposta do 20º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental, realizado de 10 a 14 de maio no Riocentro, Rio de Janeiro. Afinal, segundo a Abes, promotora do evento, 60% da população brasileira vive sem nenhuma infra-estrutura sanitária, aí incluído água, esgoto e lixo. "O congresso, na verdade, serviu como um estímulo à reflexão dos profissionais do setor, no sentido de que chegamos ao momento de reverter esse quadro", afirmou Eliane Pinto Barbosa, presidente do congresso e da Abes seção Rio de Janeiro.
   O congresso, que teve como tema central os Desafios para o Saneamento Ambiental no Terceiro Milênio, foi uma reedição da Conferência Eco 92. E também contou com a participação do Rotary. Na ocasião, por iniciativa dos rotarianos e sócios da Abes, Edson Avellar da Silva, EGD e diretor da Brasil Rotário, e Joper Padrão do Espírito Santo, membro do Conselho de Administração da Brasil Rotário e presidente da Prece (Previdência Complementar da Cedae), foi criada uma comissão para a filiação de brasileiros ao grupo de profissionais de meio ambiente do Rotary International.


*O autor é jornalista profissional.

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