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Antônio Carlos Magalhães,
presidente do Congresso Nacional


Um mestre nas artes e manhas da política brasileira

Lourenço Cazarré*

No meio político brasiliense existem muitas unanimidades sobre o atual presidente do Congresso Nacional. Até mesmo seus adversários reconhecem que o baiano Antônio Carlos Magalhães é um ás nas artes e manhas da política nacional. Também é consenso em Brasília que ACM é um especialista em marketing pessoal, com um talento especial para se manter – com surpreendentes declarações bombásticas – nas manchetes dos jornais e dos noticiários de televisão. Uma terceira opinião convergente diz respeito ao êxito da gestão de Antônio Carlos Magalhães na Presidência do Senado da República. Nos três últimos anos, ele tem conseguido manter em ritmo frenético as votações em plenário e os trabalhos das CPIs.

   Mas, dono de um temperamento explosivo que o leva a freqüentes debates com outros líderes, este baiano destoa da figura do tradicional político brasileiro, maneiroso e cordial. Ao lado de admiradores entusiasmados, ele cultiva também muitos e poderosos adversários.
   Aos 71 anos, este médico que governou por três vezes o seu estado natal, é hoje um dos mais influentes políticos do País. Casado com dona Arlete Maron Magalhães, o senador teve quatro filhos: Antônio Carlos Magalhães Júnior, Tereza Helena, Luiz Eduardo e Ana Lúcia. Dona Arlete é filha de Carlos Maron, um dos fundadores do Rotary Club de Itabuna (veja boxe abaixo). Nesta entrevista a Brasil Rotário, ele fala de seu trabalho à frente do Senado e mostra as idéias sobre administração e política que forjou ao longo de 40 anos de mandatos eletivos.
   Brasil Rotário – O senhor tem afirmado que o Senado vem trabalhando com o maior empenho, votando mais projetos nos últimos anos. Quais são os números do trabalho (CPIs, votações em plenário) do Senado nos últimos anos?
   Antônio Carlos Magalhães
– Fiz uma previsão logo no início do meu primeiro mandato de que os senadores não deixariam de cumprir as expectativas da nação. E, de fato, somente em 1997 foram aprovados 351 projetos e mensagens enviados pelo Executivo, de um total de 431 matérias apreciadas. Foram ainda aprovadas cinco emendas constitucionais e funcionaram duas CPIs, a dos Precatórios e a do Trabalho Infantil (mista). Mas considero a maior conquista a aprovação do novo Código Civil que tramitava no Congresso Nacional há 22 anos. No ano passado, foram aprovados 102 projetos e quatro emendas constitucionais, o que foi um esforço extraordinário do Senado, levando-se em conta que 1998 foi um ano de eleições em todo o país.
   Pesquisas de opinião têm apontado a classe política como a de menor conceito junto à opinião pública. O que o senhor acha disso?
   Os políticos são eleitos para representar o povo e trabalham sempre com temas muito delicados, muito difíceis. Por isso, nem sempre são compreendidos. Também nem sempre correspondem às expectativas. Mas não há só maus políticos. Seria errado imaginar isso. Como grupo, espelham as qualidades e, é claro, também os defeitos da sociedade. O que é importante é que o eleitorado se esforce e busque escolher bons políticos.
   O que, na sua opinião, os políticos deveriam fazer para melhorar seu conceito junto à sociedade?
   Devem fazer o que o Congresso e o Senado têm feito. Trabalhar incansavelmente para desempenhar suas funções políticas, seja na elaboração de leis, seja na apuração de irregularidades onde quer que estas ocorram.
   O senhor acha que o atual sistema de representação na Câmara e no Senado deve ser mantido? Ou deve ser mudado? Se mudado, como? O senhor é a favor do encurtamento dos mandatos dos senadores de oito para seis ou mesmo quatro anos?
   O sistema de democracia representativa, com o Senado e a Câmara, deve ser mantido. Ainda não se inventou um sistema melhor. O encurtamento dos mandatos limitaria a capacidade legislativa dos congressistas. Mas esse é um assunto que pode ser discutido, de modo que todos os seus aspectos possam ser corretamente pesados.
   O senhor acompanha a vida política do país há quarenta anos. O que aconteceu nesse tempo? O Brasil se modernizou? Continua atrasado em que setores?
   O desenvolvimento da vida política nacional deu-se de modo desigual, descontínuo. Houve períodos de avanço e de recuo. Hoje temos uma democracia plena e estamos recuperando a estabilidade que foi ameaçada no início deste ano. Precisamos avançar nas reformas, criar condições para acelerar o crescimento econômico e, sem dúvida, resolver definitivamente o problema da má distribuição de renda. Há muito trabalho pela frente, inclusive para melhorar as condições de emprego no país.
   Quais são, na sua opinião, as principais alterações que os parlamentares devem fazer quando votarem a reforma política?
   Esse é um tema muito polêmico, sobre o qual eu não gostaria de adiantar a minha opinião, porque ele está sendo objeto de considerações partidárias.
   Quais são os cinco maiores problemas brasileiros? E como se deve combatê-los?
   Simplificando muito, eu responderia que eles estão nas áreas de educação e saúde; que falta justiça social; que o Estado não funciona a serviço dos cidadãos e que nós precisamos reencontrar o caminho do crescimento econômico.
   Como o senhor vê a economia brasileira no mundo globalizado. Vamos ampliar nossa participação? Como? O que o Brasil pode vender e para quem?
   O Brasil vai dar certo. Vai aumentar sua presença econômica internacional. Não temos o direito de nos atemorizar ou de fraquejar. Vamos continuar a luta para que sejam eliminados os entraves comerciais – que formam o sistema protecionista dos países ricos – que limitam o acesso de nossos produtos aos mercados mais influentes. Estamos dispostos a vender para o mundo toda a sorte de produtos como alimentos, minérios, manufaturados – inclusive os de alta tecnologia, como os aviões – e também serviços.
   Qual o papel do Estado hoje em dia? De que temas ele deve cuidar prioritariamente?
   O Estado deve sair das atividades produtivas, mas deve dar ênfase muito maior ao seu papel nas questões sociais e na regulação da economia. O estado não deve ficar ausente ou comportar-se como um simples gendarme. A cidadania espera muito mais dele. Deve ainda encarregar-se decididamente dos aspectos de representação externa do país e da segurança pública.
   Como o senhor vê o trabalho do Rotary e de outras entidades não-governamentais que se dedicam à busca de soluções efetivas para os problemas sociais?
   O movimento associativista, as entidades não-governamentais ou semelhantes, têm hoje uma função muitíssimo importante. Devem partilhar ativamente a solução dos problemas nacionais e locais. Devem mobilizar seus membros para esforços cada vez mais importantes, como faz o Rotary.



O orgulho de Carlos Maron

   O rotariano Carlos Maron, sogro de Antônio Carlos Magalhães, bem que poderia ser um personagem de Jorge Amado, o maior romancista baiano de todos os tempos. Nascido em 1881, em Kaitule, no Líbano, como milhares de outros dos seus compatriotas, veio para o Brasil tentar a vida. Instalou-se no sul da Bahia que vivia o esplendor da economia cacaueira.
   Atuando na agricultura, ligado à exploração do cacau, Carlos Maron foi um dos fundadores, em 1941, do Rotary Club de Itabuna, a principal cidade do sul da Bahia.
   Segundo seu filho Wilson Maron, sócio do RC Bahia-Norte e diretor do jornal Correio da Bahia, Carlos Maron tinha um imenso orgulho em pertencer aos quadros do Rotary. Durante muitos anos foi considerado o rotariano mais idoso em atividade, fato registrado inclusive pela revista The Rotarian, órgão oficial do Rotary International. Ele viajava com freqüência ao Rio de Janeiro e a Brasil Rotário era seu ponto de parada obrigatória.
   Carlos Maron morreu aos 100 anos de idade.
   “Mesmo depois que nos mudamos para Salvador, papai continuou freqüentando o Rotary de Itabuna”, contou Wilson Maron a Brasil Rotário. Outro dos motivos de orgulho de Carlos Maron era o fato de ter a nacionalidade brasileira, que lhe foi concedida durante os anos do governo Vargas. Carlos Maron teve três filhos, Arlete, Ivete e Wilson.

* O autor é escritor e jornalista,
Prêmio Esso 1984 e Prêmio
Jabuti 1998.

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