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A hora e a vez de ações solidárias

O Rotary deve estar sempre sintonizado com as
necessidades históricas do momento


J. Cimino*

   As atividades do Rotary relativas a serviços que seus sócios prestam à comunidade, principalmente por serem voluntárias, têm que responder às necessidades existenciais do tempo em que se vive. Fazer simplesmente por fazer seria uma insensatez, por não ter objetivos definidos. Sem essa abertura para as condições de determinada época, o Rotary, em pouco tempo, tornaria-se caduco e seria tragado pelo torvelinho das forças da inércia, que arrastam para o passado, transformando em simples memória aquelas realidades que, atuando em determinada circunstância, não tiveram a sabedoria de se renovarem.
   Olhando ao nosso derredor, vemos centenas de famílias desamparadas, cujos chefes vivem o terrível drama do desemprego. Alhures, em países ditos do Primeiro Mundo, a globalização da economia está resultando em riqueza e bem-estar social como nunca os houve na História. Mas em outros, como o Brasil, seus resultados têm sido negativos, carreando para fora de suas fronteiras os recursos gerados com o suor e o sacrifício de seus cidadãos. Em tal quadro, os que ainda têm o privilégio de estar trabalhando vislumbram um futuro incerto e sombrio quanto ao trabalho, pois a crise socioeconômica parece se aprofundar com o passar dos dias. Tem-se a impressão de que o modelo de civilização que experimentamos neste final de século, está passando por uma forte transição que implicará mudanças profundas no mercado de trabalho. Nesse cenário de transformações aceleradas, os segmentos mais frágeis da sociedade, constituídos pela massa de assalariados, são os que mais estão sofrendo.

      Situação grave
   Se nos colocarmos no lugar de um pai de família que vive a angústia e o desespero de não ter como comprar alimentos, pagar aluguel, água e luz, logo nos apercebemos tratar-se de situação extremamente grave. O trabalho, que deveria ser o que de mais certo existisse no contexto humano, hoje é marcado pelo estigma da insegurança e da incerteza, gerando medo e pavor quanto ao futuro. Por outro lado, a paz e a tranqüilidade sociais se vêem ameaçadas, pois o desespero e a falta de perspectivas podem levar à prática da violência, com o objetivo de encontrar solução para a sobrevivência, custe o que custar.
   Como não se pode frear a marcha da História, nem mudar-lhe os rumos da noite para o dia, urge colocarmos todo o potencial do Rotary em alerta e em ação, para se encontrar alternativas de fontes de trabalho e de renda familiar para o contingente de desempregados que povoam nossas cidades. Pior que a crise é o estado de espírito daqueles que pensam que nada se pode fazer, resultando disso a acomodação e a desesperança.
   Vivemos numa sociedade em que a competitividade parece ter chegado ao seu extremo. Em tal contexto, a única alternativa de sobrevivência dos mais fracos, salvo melhor juízo, é a ação solidária, que pode ser institucionalizada em pequenas cooperativas.
   O panorama socioeconômico que, atualmente, descortinamos no Brasil, entristece-nos e nos constrange: o país de pires na mão ante o FMI; alto índice de desemprego; dívidas interna e externa enormes, cujos juros devoram suas receitas. Em conseqüência, setores essenciais como os da saúde e educação se deterioram aceleradamente. Do alto de sua autoridade, o governo força a massa de assalariados a apertar o cinto. O arrocho tem sido tamanho, a ponto de comprometer, não só a manutenção de nossas estruturas de serviços sociais, como a qualidade de vida dos cidadãos.
   A situação brasileira deste final de século, mutatis mutandis, é semelhante à da Inglaterra de 1844, onde os 28 tecelões de Rochdale, liderados por Robert Owen, em 21 de dezembro daquele ano, inauguraram, no mundo, o movimento cooperativista.
   As condições de trabalho, hoje, não são, de modo geral, desumanas como as que havia nos albores da era industrial. Mas, se as duras condições que o trabalhador enfrentava na época em que surgiu o movimento rochdaliano eram conseqüência das concessões do liberalismo econômico, atualmente as demissões de milhares de assalariados são fruto das concessões do neoliberalismo, à cuja sombra tudo se justifica, desde que se garantam a eficácia e o desenvolvimento econômico.
   Evidentemente, não se trata aqui de fazer crítica, sob o ponto de vista ideológico, ao neoliberalismo. Teoricamente, tal crítica seria válida, mas inócua sob o aspecto prático.

      A solução
   Concretamente, o que se pode e o que se deve fazer para remediar uma situação gerada no bojo da História ao longo de muitos anos e da qual somos também protagonistas?
   Vemos abrir-se diante do Rotary, entidade formada por líderes atuantes em suas comunidades, um cenário riquíssimo de possibilidades do mais alto sentido social e histórico: gerar trabalho e fontes de renda familiar, através da liderança voltada para a criação de pequenas cooperativas, a partir das condições concretas de cada realidade.
   Se os efeitos nefandos da crise econômica – desemprego, fome, déficit habitacional, violência, alto índice de mortalidade infantil e outros, nós os sentimos na comunidade histórica em que vivemos, por outro lado é também nela que vamos encontrar solução para superá-los.
   O Governo é uma realidade extremamente distante da comunidade. Não podemos ficar de braços cruzados e alienar nossa responsabilidade, esperando que tudo venha lá de cima. Os tempos demandam ações rápidas.
   Antes de tudo, é preciso acreditar na comunidade. Não se trata de fé platônica, utópica. Não, porque ela é um manancial de energias latentes, à espera de alguém que as acorde. O despertar de tais energias será conseqüência de forte exercício de liderança. Quando tal acontece, horizontes amplos começam a se abrir aos olhos de todos, que passam a vislumbrar a possibilidade de partir para a "aventura" do seu próprio desenvolvimento. Trata-se realmente de uma aventura, porque implica quebra de hábitos de acomodação com o status quo e de um voluntarioso rompimento com a letargia de um quotidiano sem perspectivas.
   No quadro dramático de desemprego em massa, a mais cruel ferida social dos nossos tempos, o cooperativismo emerge com toda a força como a alternativa de modelo mais eficaz. De fato, só através dele, os economicamente fracos poderão lograr sobrevivência, pois, unidos, tornam-se fortes.
   Julgamos que muito mais importante que fazer projetos que conduzam a soluções tão-somente paliativas, seria liderar a criação de pequenas cooperativas, cuja infra-estrutura poderia ser financiada pela Fundação Rotária, com o programa de Subsídios Equivalentes ou outro. Ou então, tentar encontrar solução de outra natureza para o desemprego.
   O Rotary Club de Barbacena se determinou a enfrentar o desafio de orquestrar um movimento, envolvendo as forças vivas da comunidade, no sentido de desencadear um processo de desenvolvimento comunitário consistente. Será feito um levantamento dos produtos básicos que a cidade importa de outras regiões, que servirá de subsídio para um adequado planejamento. Visa-se tornar a cidade, a médio e longo prazos, de importadora a exportadora de tais produtos, o que, é óbvio, incrementará a economia local. Em breve, o clube baterá às portas da Fundação Rotária, apresentando o projeto da primeira cooperativa a ser criada sob a sua liderança. A idéia é criar, de início, cooperativas de Apanhadores de Papel e de Embalagens Plásticas para reciclagem, as quais trariam um benefício adicional: resolveriam, pelo menos em parte, o problema do lixo. Posteriormente, fundar-se-ia outra cooperativa de Indústria Cerâmica, para a produção de tijolos, telhas e lajotas, para atender à construção civil local e exportar o excedente.
   Paralelamente às cooperativas, seria criada uma fundação para o Desenvolvimento Comunitário. Certo percentual da renda líquida das cooperativas iria constituir um fundo de recursos, que seria usado para desenvolver outros projetos. Cada cooperativa contribuiria para a fundação, até cobrir o montante dos recursos que recebesse como financiamento. Assim, dar-se-ia continuidade ao processo, de modo infinito.
   As idéias aqui propostas podem parecer sonhos inacessíveis, mas, se cada um dos clubes de Rotary disseminados pelo interior do Brasil fundar pelo menos uma cooperativa, ou outro tipo de organização solidária, milhares de famílias sairão, com dignidade, da sua condição de penúria e reencontrarão a alegria de viver.
   Não poderia ser esta uma causa a polarizar as preocupações do Rotary International, posto que o fenômeno do desemprego é a maior ameaça à sobrevivência dos segmentos menos favorecidos da população, principalmente dos países subdesenvolvidos? Sem dúvida não há causa mais humana, mais necessária e mais urgente.  


*O autor é sócio do Rotary Club
de Barbacena, MG(D.4580).

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