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Um longo caminho atapetado pelo ideal de servir

José Ribeiro Quadros*

   Um dos programas mais úteis à humanidade é, sem dúvida nenhuma, a vacinação contra a poliomielite, atualmente em plena e efervescente execução. Conforme os levantamentos da Organização Mundial de Saúde - OMS, no ano de 1965-1966, os países em desenvolvimento apresentavam índices elevados de óbitos, decorrentes de enfermidades que podiam ser evitadas através de vacinação.
   As estatísticas mostram que 1,7 milhão de crianças morriam e um número também elevado de outras crianças, embora salvas quanto à vida, amargavam, para sempre, sofrimentos de paralisias, disfunções e deformações musculares e esqueléticas. Essa trágica realidade motivou a Assembléia Mundial da Saúde a adotar a meta de combate à poliomielite.
   A motivação foi gerada não só pela existência de vacinas profícuas, mas, também, pelos avanços da tecnologia quanto à administração, que permitiram prevenir a tragédia de tantas vidas perdidas ou irremediavelmente mutiladas.

      Atuação do Rotary
   O Rotary também assumiu o compromisso de erradicar a pólio até o ano magno do seu centenário: 2005.
   Ao lado dessa heróica decisão projetou, também, que a Fundação Rotária e as organizações com as quais mantém parceria deveriam imprimir ações específicas contínuas, com o objetivo de celebrar o centenário da sua Fundação Rotária, em um mundo livre das doenças erradicáveis. Isto significa erradicar, da face da Terra, doenças como o sarampo, difteria, tétano, coqueluche e tuberculose, até o ano 2017.
   Recorde-se que o ano inaugural da Fundação Rotária por Arch Klumph, ocorreu quando este inspirado presidente do RI propôs, em 1917, a criação de um Fundo de Dotações para custear o bem pelo mundo, através de três valores: caridade, educação e progresso comunitário.
   O Rotary já desfrutava de uma atuação de êxito no campo das vacinações, quando enfrentou, de 1979 a 1983, dentro das normas do Programa 3H, o desafio de eliminar um surtoviral de poliomielite nas Filipinas. Sem dúvida, esse notório sucesso deve ter animado o board a ampliar as suas ações humanitárias através das imunizações.
   Com a aprovação do Conselho de Legislação, a partir de julho de 1986, a Fundação Rotária já disponibilizava 23,5 milhões de dólares para imunizar 160 milhões de crianças de zero a cinco anos de idade, em 33 países. Nessa ocasião ficou configurada a resolução de legendar as ações múltiplas, a serem desenvolvidas sob o título de Polio Plus, com o objetivo de combater a poliomielite, e, também, outras doenças erradicáveis, via imunização. Em 1985, apenas 85 países não registravam, nas suas bioestatísticas, casos de poliomielite e, pior ainda, em 1980 apenas 20% das crianças de zero a cinco anos, no mundo, haviam recebido a vacinação.
   Estampara-se, pois, um incomensurável campo de ações a desafiar a proficiência incorporada por RI, não só quanto aos meios de fornecer as "vacinas Sabin" correspondentes às atividades de vacinação projetadas, mas, também, em disponibilizar os subsídios que custeiam outras etapas estruturais dos misteres de uma vacinação em massa.
   Senão vejamos:

   a) Subsídios que suprem as dedicações insuficientes dos governos locais, além de inspirar a participação da mídia;
   b) Subsídios que coordenam a participação ativa das comunidades: voluntários;
   c) Subsídios que agilizam transportes para voluntários que participam das imunizações;
   d) Subsídios que absorvem os ônus da manutenção da corrente do frio na faixa de 4º a 8º Celsius;
   e) Subsídios que auxiliam comunidades com programas educacionais no adestramento de pais e adultos na mobilização social às vacinações;
   f) Subsídios que permitem o treinamento de técnicos de laboratório e dos agentes de saúde pública para qualificar o gerenciamento das "operações de vigilância sanitária".


      Imunizações aumentam
   A mobilização desse universo de ações prévias permitiu que, com cinco anos de vacinação, os índices, que eram de 20%, dessem um salto de qualidade passando para 80% de imunizações.
   Os dados epidemiológicos de 1991-92, entretanto, não permitem que se busque a sombra do descaso: as doenças evitáveis pela vacinação ainda respondiam pela causa mortis de 2.600.000 crianças no mundo; um número semelhante de crianças eram vitimadas por disfunções músculo-esqueléticas, isto é, aleijões; a cada cinco minutos ocorria no mundo uma morte ou um aleijão produzidos por doenças evitáveis pela vacinação.
   As boas notícias eram que, apesar do momento epidemiológico ainda grave, em países subdesenvolvidos, as vacinações de 1988 a 1993 já haviam protegido 500 milhões de crianças de zero a cinco anos de idade, em 97 países.
   Por outro lado, em 1995, o número de países beneficiados pelos subsídios Polio Plus foram elevados para 103 nações subdesenvolvidas. Esse fato legitimava o expressivo dispêndio de 23 milhões de dólares disponibilizados pela Fundação Rotária em nome do Ideal de Servir.
   No ano rotário 1995-96, as publicações já assinalavam que o número de países, nos quais a poliomielite havia sido erradicada, já era da ordem de 144.
   Existe uma exigência técnica de que só se legitima a ausência de notificação de casos de poliomielite em um país quando a notificação negativa perdura por cinco anos consecutivos. Esta observação, portanto, torna mais consagrador para a humanidade a grande melhoria do perfil epidemiológico do mundo, no que tange às doenças erradicáveis por via de imunização.
   O ano de 1996 foi um ano de eventos marcantes na história dos povos e do Rotary International.
   Anteriormente, foram exaltadas as conquistas da Polio Plus com referências às excelências de haver sido erradicada a poliomielite em 145 países no ano rotário 1995-96. No período 1996-97, expandiram-se as linhas de ação das imunizações. Esse ano foi cognominado como o "Ano da Vacina", numa homenagem ao cientista Eduard Jenner que, há 200 anos, na Inglaterra, inventou a vacina contra a varíola, descoberta esta que é a origem, naturalmente aprimorada ao longo do tempo, em que se baseia o procedimento de evitar as doenças, através da vacinação.
   Nesse mesmo ano rotário intensificaram-se as profícuas atuações dos Dias Nacionais de Imunização - DNI's -, particularmente na África, sendo realizadas imunizações em 29 países desse Continente da Esperança.
   As parcerias principais, representadas pelo Rotary International + OMS + Unicef + Centro de Controle e Prevenção dos Estados Unidos além de centenas de milhares de voluntários, realizaram as múltiplas tarefas, indispensáveis ao êxito de um esforço tão gigantesco em regiões tão subdesenvolvidas.
   As nações beneficiadas foram aquelas ao sul do Saara, portanto, as de mais acentuado "nível de pobreza". O total de crianças de zero a cinco anos imunizadas foi de 50 milhões de vidas, a um custo de 70 milhões de dólares da Fundação Rotária, distribuídos até 1997 e 1998. A meta a ser atingida é a erradicação da pólio na África, no ano 2000. Este foi um exemplo dos programados DNI's.
   Graças ao esforço de todos os elos dessa extraordinária corrente de ações, como, também, graças ao Ideal de Servir das legiões de denodados voluntários, já podemos contemplar um horizonte radioso:

   a) Em 1980 os índices de imunização, nos países em desenvolvimento, eram apenas 20% da população de zero a cinco anos;
   b) Em 1985 apenas 85 países não tinham casos de poliomielite, caracterizando incidência endêmica da doença;
   c) Em 1990 os índices de imunização, nos países subdesenvolvidos, evoluíram para 80% da população de zero a cinco anos;
   d) Em 1995 o número de países onde a poliomielite foi erradicada já alcançava a ordem de 145;
   e) Em 1997, mais de 15 novos países não identificaram nenhum caso de poliomielite. O progresso alcançado eleva para 160 o número de nações vitoriosas na erradicação da severa enfermidade.


   A vacinação, até 1993, registrava um número de imunizações da ordem de 500 milhões de crianças de zero a cinco anos em 97 países. Em 1997-98, o número de vacinados era da ordem de 1 bilhão e 200 milhões de crianças de zero a cinco anos de idade.
   Os 350 milhões de dólares consumidos oferecem, dos pontos de vista epidemiológico, social e humanitário, respostas tranqüilizadoras para a humanidade.
   Em janeiro de 1999, mais 107 milhões aumentaram a cobertura vacinal na África, acrescendo em 214 milhões o número de crianças do Continente da Esperança protegidas contra a pólio. Enquanto a Ásia, desde o Pacífico Ocidental ao Sudeste Asiático, atingindo até o Mediterrâneo oriental, deverá ser beneficiada e protegida por DNI's em vários dos quadrantes da sua grande extensão, com dotações já alocadas de 121 milhões de dólares, o que, potencialmente, representa 240 milhões a mais de crianças de zero a cinco anos imunizadas.
   Auguramos que todos estejamos vivos no ano 2005 para assistir, legitimamente, como protagonistas, às comemorações do alvorecer de um novo mundo sem a poliomielite.


*O autor é sócio do Rotary Club de São
Luís, MA(D.4490) e governador 1986-87.

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