![]() |
|
Os fatos que acontecem hoje são vistos por
nós com base em nossas opiniões pré-formadas, nossas ideologias e o modo em que
nos são apresentados pela mídia. O tempo, contudo, muda essas correlações de percepção da realidade e esses mesmos fatos passam a ser percebidos de forma inteiramente diversa. Tudo o que aconteceu no passado continua se modificando para nós, pela descoberta de novos fatos e pelas mudanças no modo de encarar a realidade, determinado pelas mudanças econômicas. A História se encarrega de nos esclarecer com mais exatidão e maior distanciamento os fatos do passado.
A média dos rotarianos brasileiros teve a sua formação educacional e cultural nas décadas de 30 a 60. Os fatos estavam acontecendo e a nossa visão a respeito deles era meio turva, porque não havia ainda ferramentas e cabedal intelectual para a percepção daquela realidade. À medida em que se formavam, esses homens reforçavam, modificavam ou rejeitavam aquela forma de ver os acontecimentos. Assim, lembrar alguns desses fatos, junto com a correlação ou simultaneidade de ocorrência, pode nos ajudar a refletir sobre como estávamos inseridos naquele ambiente, sem que percebêssemos várias facetas. Os anos do pontapé inicial Marco importante da nossa história recente, a Revolução de 1930 provocou influências tão fortes na vida do país que repercutem até hoje. Em um plano, foi o início da transição do país agrário para o industrial. Em outro foi o marco do fim da influência econômica inglesa para a entrada americana. No âmbito cultural, ao mesmo tempo em que digeria a proposta de brasilidade da Semana de Arte Moderna de 1922, deixava entrar a influência americana. Esta ganhou força com a Segunda Grande Guerra, pela chegada da Coca-Cola e Pato Donald/Zé Carioca. Era o momento do fim da influência cultural francesa, menos voltada para o saber prático e para a conformação de mentes pela indústria cultural. Fatos marcantes assinalaram a década de 30, como a chegada do dirigível Zepelin, a construção da estátua do Cristo Redentor, o surgimento da Rádio Nacional e do programa “Hora do Brasil”, o nascimento do Integralismo de Plínio Salgado e de sua revista “Anauê”; o fortalecimento do Partido Comunista e de seu jornal “Luta de Classes”. É de 1940 o surgimento da revista “O Cruzeiro”, a nossa “televisão” de muitos anos. Daquele período é também a invenção do médico Manuel de Abreu, a abreugrafia, que simplificou e barateou a radiografia inventada pelo alemão Roentgen. O fim da década marcou também o auge das negociatas do aventureiro Percifal Farquhar, que se apossara, no início do século, do subsolo brasileiro. Somente em 1945 conseguiu-se recuperar as jazidas, criando-se, então, a Companhia Vale do Rio Doce. Tempo de esperar e pensar A guerra na Europa fez o país crescer na produção de manufaturados e alimentos para abastecer as tropas aliadas, provocando, também, uma vasta criação intelectual. Da década de 30 vieram “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, e “História Econômica do Brasil”, de Roberto Simonsen. Em 1942 Caio Prado Jr. lança “Formação do Brasil Contemporâneo”. Em seguida vêm “Hiléia Amazônica”, de Gastão Cruls; “Sagarana”, de Guimarães Rosa; “Geografia da Fome”, de Josué de Castro; “Coronelismo, Enxada e Voto”, de Victor Nunes Leal; “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo e vários outros. O tempo de guerra foi uma época de trocas, em que o Brasil cedeu tropas, minérios, direitos de exploração de riquezas e recebeu o direito de construir sua primeira siderúrgica, de levar Carmen Miranda para Holywood e ler as historinhas do Pato Donald e do Zé Carioca. As tropas americanas no Nordeste trouxeram o fox-trote e deixaram surgir o forró, das festas “for all”. Foi a época também do surgimento da Consolidação das Leis do Trabalho, da Força Expedicionária Brasileira, da seita secreta Shindô-Remmei, da cassação dos comunistas, e da fundação da Escola Superior de Guerra. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e o Teatro Brasileiro de Comédia surgiram no final da década. Nela surgiram também a Fábrica Nacional de Motores, que produziu veículos inteiramente nacionais, e os conjuntos proletários do arquiteto Eduardo Reidy no Rio, um na Gávea, hoje com uma auto-estrada passando por baixo e outro em Benfica, que virou cabeça-de-porco, com a piscina transformada em lixeira e depois aterrada. Os projetos são premiados no exterior. Os anos da alegria A construção do estádio do Maracanã e da TV Tupi de São Paulo, em 1950/51, deram o tom de toda a década, de alegria, concórdia, com dramas e tragédias sufocadas pelo ambiente de entusiasmo e esperança do povo brasileiro. Até a música “Bota o Retrato do Velho”, de Haroldo Lobo e Marino Pinto chamava Vargas e seu trabalhismo para dar mais alegria ao povão. Morar em favela era uma alegria, como bradava “Lata d’Água na Cabeça”, de Luiz Antonio e Jota Junior. Vanja Orico mostrava a alegria no Nordeste, cantando “Mulher Rendeira”. Dorival Caymmi, com sua “Maracangalha”, chamava a Anália para uma ilha na baía de Todos os Santos. No Rio, a bossa nova dava os primeiros passos, com Tom Jobim compondo “Desafinado”. Para contar toda a alegria da década, “O Cruzeiro” ganhava tiragens perto do milhão de exemplares e surgiram “O Dia”, “Última Hora”, “Manchete”, “Senhor” e muitas outras publicações que não ganharam tanta fama. Jorge Amado lançava “Grabriela, Cravo e Canela” e Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”, para alegrar e divertir, enquanto a realidade ficava com Graciliano Ramos, com “Memórias do Cárcere” e João Cabral de Melo Neto, com “Morte e Vida Severina”. Raimundo Faoro mostrava quem são “Os Donos do Poder”, Anísio Teixeira afirmava que “Educação não é Privilégio” e Álvaro Vieira Pinto analisava tudo na “Ideologia do Desenvolvimento”. Em 1953/54, ocorreu a fundação da Petrobrás, hoje uma das maiores empresas do mundo. O consumo estava crescendo e surgiam os supermercados em 1957. No Rio Grande do Sul, foram encampadas duas concessionárias de serviços públicos americanas e em 1959 o presidente JK rompeu o acordo com o Fundo Monetário Internacional. A liberdade da mulher Em 1960 o país tinha 71 millhões de habitantes, quase o dobro da população de 1930. Era um país moderno, quase cosmopolita, com uma nova capital e uma cidade-estado, a Guanabara. A alegria dos anos 50 dura pouco tempo, mas o suficiente para Vinícius de Moraes lançar sua “Antologia Poética”, enquanto Ataulfo Alves cantava “Ó Mulata Assanhada”. Ziraldo lançava “O Pererê” e Millôr Fernandes, o “Pif-Paf”, este de curta duração. A moda feminina elegia os vestidos de lese e as saias arredondadas sobre muitas anáguas. A pílula anticoncepcional surgiu com força, dando à mulher liberdade e independência, possibilitando a revolução sexual que mudou as décadas seguintes. A Aids veio torpedear os tempos de alegria, mas só conseguiu disciplinar os relacionamentos. Nessa década surgiu a revista “Cláudia”, seguida de inúmeras outras, que levaram a mulher para o mundo do consumo, sem acrescentar nada como ser humano em posição de igualdade com o homem. O uso do humor como meio de protesto fez surgir o “Pasquim” já no final da década, quando Geraldo Vandré cantava “Vem, Vamos Embora”. Max Nunes acenava com a sua “Bandeira Branca” e Martinho da Vila preferia deixar tudo pra lá, com “Dinheiro, Pra Que Dinheiro?”. Pra saber mais A maior parte deste texto teve como inspiração e origem os dados de uma tabela denominada Sincronótico, do livro “Aos Trancos e Barrancos”, de Darcy Ribeiro. Publicado pela extinta Editora Guanabara Koogan, o livro está esgotado, mas sua consulta pode ser feita nas bibliotecas públicas. Vale a pena sair da rotina e entrar numa dessas casas, para reavaliar a visão que temos do tempo em que vivemos a maior parte de nossas vidas. Os fatos estão datados com rigor. Além do Sincronótico, que abrange o período 1900-1980, o livro conta em numerosos e minúsculos tópicos muitos fatos de grande correlação entre si, que mostram a razão do seu subtítulo: “Como o Brasil Deu no Que Deu”. |