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Quatro décadas de um Brasil que vimos passar
Uma viagem pela história brasileira, dos anos 30 aos anos 60

 José de Assis Faria

   Os fatos que acontecem hoje são vistos por nós com base em nossas opiniões pré-formadas, nossas ideologias e o modo em que nos são apresentados pela mídia. O tempo, contudo, muda essas correlações de percepção da realidade e esses mesmos fatos passam a ser percebidos de forma inteiramente diversa. Tudo o que aconteceu no passado continua se modificando para nós, pela descoberta de novos fatos e pelas mudanças no modo de encarar a realidade, determinado pelas mudanças econômicas. A História se encarrega de nos esclarecer com mais exatidão e maior distanciamento os fatos do passado.
   A média dos rotarianos brasileiros teve a sua formação educacional e cultural nas décadas de 30 a 60. Os fatos estavam acontecendo e a nossa visão a respeito deles era meio turva, porque não havia ainda ferramentas e cabedal intelectual para a percepção daquela realidade. À medida em que se formavam, esses homens reforçavam, modificavam ou rejeitavam aquela forma de ver os acontecimentos.
   Assim, lembrar alguns desses fatos, junto com a correlação ou simultaneidade de ocorrência, pode nos ajudar a refletir sobre como estávamos inseridos naquele ambiente, sem que percebêssemos várias facetas.

      Os anos do pontapé inicial
   Marco importante da nossa história recente, a Revolução de 1930 provocou influências tão fortes na vida do país que repercutem até hoje. Em um plano, foi o início da transição do país agrário para o industrial. Em outro foi o marco do fim da influência econômica inglesa para a entrada americana. No âmbito cultural, ao mesmo tempo em que digeria a proposta de brasilidade da Semana de Arte Moderna de 1922, deixava entrar a influência americana. Esta ganhou força com a Segunda Grande Guerra, pela chegada da Coca-Cola e Pato Donald/Zé Carioca. Era o momento do fim da influência cultural francesa, menos voltada para o saber prático e para a conformação de mentes pela indústria cultural.
   Fatos marcantes assinalaram a década de 30, como a chegada do dirigível Zepelin, a construção da estátua do Cristo Redentor, o surgimento da Rádio Nacional e do programa “Hora do Brasil”, o nascimento do Integralismo de Plínio Salgado e de sua revista “Anauê”; o fortalecimento do Partido Comunista e de seu jornal “Luta de Classes”. É de 1940 o surgimento da revista “O Cruzeiro”, a nossa “televisão” de muitos anos. Daquele período é também a invenção do médico Manuel de Abreu, a abreugrafia, que simplificou e barateou a radiografia inventada pelo alemão Roentgen.
   O fim da década marcou também o auge das negociatas do aventureiro Percifal Farquhar, que se apossara, no início do século, do subsolo brasileiro. Somente em 1945 conseguiu-se recuperar as jazidas, criando-se, então, a Companhia Vale do Rio Doce.

      Tempo de esperar e pensar
   A guerra na Europa fez o país crescer na produção de manufaturados e alimentos para abastecer as tropas aliadas, provocando, também, uma vasta criação intelectual. Da década de 30 vieram “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, e “História Econômica do Brasil”, de Roberto Simonsen. Em 1942 Caio Prado Jr. lança “Formação do Brasil Contemporâneo”. Em seguida vêm “Hiléia Amazônica”, de Gastão Cruls; “Sagarana”, de Guimarães Rosa; “Geografia da Fome”, de Josué de Castro; “Coronelismo, Enxada e Voto”, de Victor Nunes Leal; “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo e vários outros.
   O tempo de guerra foi uma época de trocas, em que o Brasil cedeu tropas, minérios, direitos de exploração de riquezas e recebeu o direito de construir sua primeira siderúrgica, de levar Carmen Miranda para Holywood e ler as historinhas do Pato Donald e do Zé Carioca. As tropas americanas no Nordeste trouxeram o fox-trote e deixaram surgir o forró, das festas “for all”.
   Foi a época também do surgimento da Consolidação das Leis do Trabalho, da Força Expedicionária Brasileira, da seita secreta Shindô-Remmei, da cassação dos comunistas, e da fundação da Escola Superior de Guerra. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e o Teatro Brasileiro de Comédia surgiram no final da década.
   Nela surgiram também a Fábrica Nacional de Motores, que produziu veículos inteiramente nacionais, e os conjuntos proletários do arquiteto Eduardo Reidy no Rio, um na Gávea, hoje com uma auto-estrada passando por baixo e outro em Benfica, que virou cabeça-de-porco, com a piscina transformada em lixeira e depois aterrada. Os projetos são premiados no exterior.

      Os anos da alegria
   A construção do estádio do Maracanã e da TV Tupi de São Paulo, em 1950/51, deram o tom de toda a década, de alegria, concórdia, com dramas e tragédias sufocadas pelo ambiente de entusiasmo e esperança do povo brasileiro.
   Até a música “Bota o Retrato do Velho”, de Haroldo Lobo e Marino Pinto chamava Vargas e seu trabalhismo para dar mais alegria ao povão. Morar em favela era uma alegria, como bradava “Lata d’Água na Cabeça”, de Luiz Antonio e Jota Junior. Vanja Orico mostrava a alegria no Nordeste, cantando “Mulher Rendeira”. Dorival Caymmi, com sua “Maracangalha”, chamava a Anália para uma ilha na baía de Todos os Santos. No Rio, a bossa nova dava os primeiros passos, com Tom Jobim compondo “Desafinado”.
   Para contar toda a alegria da década, “O Cruzeiro” ganhava tiragens perto do milhão de exemplares e surgiram “O Dia”, “Última Hora”, “Manchete”, “Senhor” e muitas outras publicações que não ganharam tanta fama.
   Jorge Amado lançava “Grabriela, Cravo e Canela” e Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”, para alegrar e divertir, enquanto a realidade ficava com Graciliano Ramos, com “Memórias do Cárcere” e João Cabral de Melo Neto, com “Morte e Vida Severina”. Raimundo Faoro mostrava quem são “Os Donos do Poder”, Anísio Teixeira afirmava que “Educação não é Privilégio” e Álvaro Vieira Pinto analisava tudo na “Ideologia do Desenvolvimento”.
   Em 1953/54, ocorreu a fundação da Petrobrás, hoje uma das maiores empresas do mundo. O consumo estava crescendo e surgiam os supermercados em 1957. No Rio Grande do Sul, foram encampadas duas concessionárias de serviços públicos americanas e em 1959 o presidente JK rompeu o acordo com o Fundo Monetário Internacional.

      A liberdade da mulher
   Em 1960 o país tinha 71 millhões de habitantes, quase o dobro da população de 1930. Era um país moderno, quase cosmopolita, com uma nova capital e uma cidade-estado, a Guanabara. A alegria dos anos 50 dura pouco tempo, mas o suficiente para Vinícius de Moraes lançar sua “Antologia Poética”, enquanto Ataulfo Alves cantava “Ó Mulata Assanhada”. Ziraldo lançava “O Pererê” e Millôr Fernandes, o “Pif-Paf”, este de curta duração.
   A moda feminina elegia os vestidos de lese e as saias arredondadas sobre muitas anáguas. A pílula anticoncepcional surgiu com força, dando à mulher liberdade e independência, possibilitando a revolução sexual que mudou as décadas seguintes. A Aids veio torpedear os tempos de alegria, mas só conseguiu disciplinar os relacionamentos. Nessa década surgiu a revista “Cláudia”, seguida de inúmeras outras, que levaram a mulher para o mundo do consumo, sem acrescentar nada como ser humano em posição de igualdade com o homem.
   O uso do humor como meio de protesto fez surgir o “Pasquim” já no final da década, quando Geraldo Vandré cantava “Vem, Vamos Embora”. Max Nunes acenava com a sua “Bandeira Branca” e Martinho da Vila preferia deixar tudo pra lá, com “Dinheiro, Pra Que Dinheiro?”.

      Pra saber mais
   A maior parte deste texto teve como inspiração e origem os dados de uma tabela denominada Sincronótico, do livro “Aos Trancos e Barrancos”, de Darcy Ribeiro. Publicado pela extinta Editora Guanabara Koogan, o livro está esgotado, mas sua consulta pode ser feita nas bibliotecas públicas.
   Vale a pena sair da rotina e entrar numa dessas casas, para reavaliar a visão que temos do tempo em que vivemos a maior parte de nossas vidas. Os fatos estão datados com rigor. Além do Sincronótico, que abrange o período 1900-1980, o livro conta em numerosos e minúsculos tópicos muitos fatos de grande correlação entre si, que mostram a razão do seu subtítulo: “Como o Brasil Deu no Que Deu”.



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