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A segurança e a soberania
da Amazônia Brasileira


   O Diretor do Departamento Geral de Pessoal do Exército, General do Exército Alcedir Pereira Lopes, é um apaixonado pela Amazônia, região que conhece como poucos.
   Comandante do Comando Militar da Amazônia até recentemente, é o único oficial general que serviu na região como General de Brigada, General de Divisão e General de Exército. Outros serviram na Amazônia por mais tempo, mas sem exercer o comando nos três postos de oficial general.
   Nesta entrevista, o General Alcedir esclarece vários pontos obscuros sobre a realidade daquela região e desmente informações alarmistas que correm mundo. Faz compreender que as ações militares dos Estados Unidos da América do Sul e a campanha mundial para a internacionalização da Amazônia são temas que não causam tanta preocupação.


   Brasil Rotário - O senhor foi aplaudido de pé na conferência do distrito 4720, em Santarém, Pará. Poderia repetir alguns itens da sua fala?
   General Alcedir - Falei muito sobre a Amazônia e sobre a atuação do Exército brasileiro na região. Citei os perigos que a Amazônia corre se nós não tivermos um plano de defesa e infelizmente não temos. Fiz ver que estamos preocupados, não com uma possível invasão, como falam por aí. Isso não é o caso. Temos duas preocupações hoje na Amazônia. Uma delas é com o efetivo nosso, que precisa aumentar um pouquinho, não muito. A outra grande preocupação - o governo brasileiro não está dando a importância devida ao assunto - é o problema da fumigação química que os americanos pretendem fazer nas plantações de coca dos colombianos. Eu estive conversando com oficiais generais americanos e eles mesmos não têm muita certeza do resultado do lançamento desse produto. Eu acho que isso é um perigo para a Amazônia, porque todos os rios que entram em território brasileiro, na fronteira entre Tabatinga e São Joaquim, vêm da Colômbia e irão trazer esses produtos para o nosso território. Não se sabe qual é o tempo em que esse produto continua ativo dentro d'água. Os próprios americanos não sabem.

   O que as Forças Armadas, em especial o Exército, vêm fazendo hoje na Amazônia?
   As Forças Armadas têm procurado colocar suas tropas estrategicamente em face da atuação de guerrilheiros, seja do lado do Peru, seja do lado da Colômbia. Não que esse pessoal pretenda invadir o Brasil, porque não é verdade. Como a nossa fronteira é muito mal demarcada, nenhum dos lados sabe exatamente onde está a linha divisória. Por isso, volta e meia se passa de um país para o outro, sem se saber de que lado está. Isso é um perigo. Um dia desses tivemos um problema na chamada Aldeia 31, nas nascentes dos rios Javari e Moa, na divisa do Acre e uma tropa peruana passou para o lado do nosso território. Nós temos um tempo de reação muito demorado, porque os meios que o Exército tem de deslocamento de tropas na fronteira são basicamente helicópteros do Exército e alguns aviões da FAB. Por mais que se queira agilizar essa reação, ela não é rápida. A principal preocupação das Forças Armadas hoje na Amazônia deve ser a agilidade e a rapidez no deslocamento de tropas, da área mais interior do Comando Militar da Amazônia para a linha de fronteira.

   O que o senhor diz a respeito do projeto Calha Norte?
   Ele foi criado em 1985, no governo José Sarney, e aos poucos foi sendo abandonado, diminuindo seu impacto e sua importância, tendo em vista a distribuição de verbas. Chegamos à década de 90 numa situação muito ruim para o projeto. Mas logo após a posse do Ministro Geraldo Quintão, da Defesa, se conseguiu conscientizar a área financeira do governo, que é uma área muito difícil, porque esse pessoal não se preocupa muito com o aspecto da segurança, infelizmente. Mas se conseguiu, no ano passado, entre 12 e 15 milhões de reais para o Projeto Calha Norte. No ano anterior foram somente 600 mil reais. Em 2001 a previsão é de conseguirmos 21 milhões de reais.

   Além do Projeto Colômbia, os EUA têm tropas hoje em 20 locais da América do Sul, próximos da fronteira brasileira. Isso é preocupante?
   Não, não é muito preocupante. Os Estados Unidos realmente lançaram várias bases e pistas de pouso próximas de nossas fronteiras, nos países vizinhos. Eles têm pistas grandes no Paraguai, Bolívia, Peru, Venezuela e Colômbia. Nós julgamos que isso aí apenas vai ajudar no combate ao narcotráfico. Isso é o objetivo principal dos EUA. Eu tenho conversado com generais americanos e realmente a preocupação deles é com o narcotráfico. Eles não conseguem combater o consumo dentro da parte continental dos EUA e então vêm combater a produção, o que é um problema muito sério. Com isso, é lógico que vão ter uma vigilância muito grande sobre a nossa Amazônia também, porque seus aviões são de longo alcance. Mas eu penso que isso até vai nos ajudar. Com a ativação do programa do Sivam e do Sipam, a partir de julho de 2002, eu acho que teremos condições, cada vez melhores, de defendermos nossas fronteiras.

   A campanha para a internacionalização da Amazônia em todo o mundo está forte. Já em 1817 o capitão americano Mathew Fawry fez um mapa da América do Sul, no qual a Amazônia estava destacada do Brasil. O que diz disso?
   Não é bem assim. Em 1902 um barão alemão já dizia que a Amazônia é muito importante para o mundo e que talvez ela devesse ser internacionalizada. Ao longo do século XX tivemos várias declarações de autoridades, como Miterrand, Al Gore e outros. Eles mostraram a preocupação quanto à importância da Amazônia. É preciso que os brasileiros se conscientizem de que a Amazônia é importante para o mundo, o que não quer dizer que vamos deixar que o americano ou outro qualquer povo entre aqui. É preciso que saibamos explorar as riquezas da Amazônia, sem devastar o meio ambiente. A preocupação do resto do mundo para com a Amazônia é basicamente com o meio ambiente. Se mostrarmos que temos competência para a exploração das riquezas, que são incomensuráveis, eles ficarão mais quietos e mais tranqüilos. Preocupante é acharem que a devastação da Amazônia é fruto da nossa incompetência e, na verdade, é um pouco, porque o governo não exerce a sua autoridade na região. Temos milhares de madeireiras clandestinas atuando na Amazônia Oriental, principalmente. A Amazônia Ocidental está muito bem preservada, tem apenas 1,8% de sua floresta devastada, mas foram desmatados 14% da Amazônia Oriental, que abrange os estados do Pará, Maranhão e Amapá. É um índice muito alto, em termos internacionais.

   As escolas americanas estariam ensinando a Geografia que desejariam e não a verdadeira, em relação à Amazônia. É verdade?
   Esse problema de escolas dos Estados Unidos apresentarem o mapa do Brasil sem a Amazônia foi pesquisado, mas isso não foi confirmado. O nosso Ministério da Educação solicitou ao Ministério das Relações Exteriores uma atuação, acho até que foi de caráter sigiloso, mais isso não foi constatado. Parece que foi mais uma propagando contra o governo. Nós corremos atrás, como se diz na gíria, nós tomamos providências e foi visto que isso não existia.

   Foi divulgado que existem 700 Organizações Não Governamentais instaladas em Manaus. O senhor tem conhecimento disso?
   Eu acho que esses dados são equivocados. Em toda a Amazônia - não só em Manaus - temos hoje cerca de 300 ONG's. No Brasil todo temos cerca de 3.000 ONG's atuando. Muitas são instituições que trabalham bem, são honestas e pensam no desenvolvimento de determinada área. Porém, muitas são deletérias para o nosso país, inclusive interferindo na nossa soberania. Fazem ações que não são as mais adequadas e com total liberdade. O governo não exerce o mínimo controle sobre a atuação dessas ONG's no Brasil. Organizações como o Greenpeace, por exemplo, entram aqui e passam até quatro meses percorrendo rios da Amazônia, fazendo barbaridades e o governo não toma providências.

   Por que o Exército não faz uma ação direta neste caso?
   O Exército pode cooperar no acompanhamento da ação das ONG's em nosso país, mas não tem autoridade para impedir que uma ONG atue aqui dentro. Isso deve ser ação de governo, é problema dos Ministérios das Relações Exteriores e da Justiça. Se precisarem do nosso auxílio nós sempre estaremos prontos.
Qual é o efetivo do Exército brasileiro hoje?
Incluindo os atiradores de Tiro de Guerra, que não são considerados soldados, temos um efetivo de 205 mil. Com a Marinha e a Aeronáutica, todas as nossas Forças Armadas somam 300 mil.

   O que nos diz sobre as reservas minerais?
   A Amazônia tem talvez a maior reserva do mundo em minerais metálicos e não metálicos. Temos reservas imensas de qualquer tipo de mineral, muitas delas inexploradas, principalmente por estarem situadas nas chamadas terras indígenas. A Funai exerce uma ação, na minha opinião, errada. O índio não é o dono da terra, ele tem a posse, porque a terra é da União. A Funai não deixa que o índio explore as riquezas da Amazônia. A atuação da Funai nem sempre é a mais adequada, porque às vezes atrapalha muito as ações do governo.

   Que problemas a Funai e os índios vêm causando?
   A Funai tem uma ação que, me parece, não é a melhor. Diz que está protegendo o índio mas na verdade está isolando-o, segregando-o. O índio sofre por não ter acesso às modernidades do progresso e a Funai apóia ações erradas. Um exemplo foi motivo de documento que mandei ao Ministério da Defesa e o nosso Ministro disse que iria tomar providência. Os índios waimiri-atroari fecham a BR-174, que liga Manaus a Boa Vista e à Venezuela, até Caracas. Eles fecham um trecho de cento e poucos quilômetros com correntes, às 18 horas, e só reabrem as seis da manhã do dia seguinte. Não deixam carros particulares passarem naquele trecho durante a noite porque acham que vai prejudicar a reserva deles, vai estragar a ecologia. Nem a Funai nem os índios podem fazer isso, mas fazem. Eles não se atrevem a impedir a passagem de viaturas militares. Quem deu essa autoridade para eles? Ninguém. Quem lhes deu autoridade para que impeçam o país de explorar a maior reserva de nióbio do mundo, ao norte de Seis Lagos, na região de São Gabriel da Cachoeira? O nióbio é um mineral estratégico para a indústria aeroespacial e para a indústria mecânica. O índio não deixa.

   Por que fazem isso?
   O índio não deixa a Nação explorar a sua própria riqueza, mas ele explora. Ele, coitado, não tem instrução, é mal orientado. Ele quer ganhar dinheiro e vende o nióbio a 10 reais por quilo. Faz concessão para garimpeiros explorarem o nióbio para ele, índio. Esse nióbio é revendido em Manaus a 250 dólares o quilo. Todos perdem. Perde o índio, perde o Brasil. Volta e meia se pega contrabando de nióbio e de outros minerais. Essa ação de alguns órgãos federais, como a Funai, por incrível que pareça, é na verdade contra o próprio país. Com o Ibama é diferente. A equipe do Ibama tem trabalhando muito conosco, nós temos apoiado muito o seu trabalho. Mas o Ibama tem um efetivo muito pequeno, não tem capacidade como a Polícia Federal. Não estão vigiando tudo o que deveria vigiar, por falta de pessoal e material.

   E os problemas que o Exército enfrenta?
   Nós também temos dificuldades de atuação na Amazônia. Temos nossos helicópteros, mas precisamos de aviões. A Aeronáutica faz um enorme esforço para nos apoiar, mas não consegue atender plenamente. A Marinha também nos apóia, na medida do possível. Mas com todas essas dificuldades que as três forças têm, todas atuam de uma maneira muito interessante, no apoio à educação e saúde. Esse é, ao meu ver, o trabalho mais importante fora da atividade-fim, que é a defesa da pátria, da nossa integridade e soberania. Muitos pensam que as Forças Armadas têm um relacionamento inamistoso com os índios, mas isso não acontece. Quando se dá uma área de milhares de quilômetros quadrados para os índios, eles ocupam toda essa área, não transitam por ela. Os índios hoje se dividem em pequenas aldeias ou pequenas comunidades bem próximas dos nossos pelotões e nossos batalhões, porque sabem que ali têm apoio de energia, água, alimentação, saúde e transporte da FAB e da Marinha. O nosso relacionamento com o índio é muito bom. Temos contato muito bom com eles. Em São Gabriel da Cachoeira, por exemplo, 38% dos soldados são índios. Temos, dentro do Batalhão, índios que falam seis línguas diferentes. Temos no Exército um padre que é índio, o padre Josimar, de São Gabriel da Cachoeira. Quando falam que em Surucucu os soldados estão tendo relacionamento sexual com as índias, isso não quer dizer nada, porque todo mundo pode ter relação sexual com qualquer pessoa. E não tem outro tipo de mulher lá. Isso acontece realmente, mas o soldado também é índio.

   Fale sobre o apoio do Exército às comunidades amazônicas?
   Talvez a melhor pessoa para falar isso hoje não seja eu, mas o deputado Fernando Gabeira, que esteve comigo em viagem pela Amazônia. Eu o levei a vários pelotões, com outros deputados e senadores. Em Surucucu temos um dos pelotões mais difíceis, e lá só se chega de aeronave pequena porque a pista é de péssima qualidade, perigosa, como se fosse uma pista de porta-aviões que estivesse adernado. Ela é cheia de buracos, está em zona montanhosa, tem barrancos nas cabeceiras e nos lados. Deputados e senadores estiveram lá e viram que todos os nossos pelotões têm escolas públicas. Elas funcionam em convênio do Comando Militar da Amazônia com as Secretarias de Educação estaduais. As esposas dos oficiais e sargentos são as professoras. Há ainda uma ação intensa na assistência de saúde. Eles poderão falar sobre isso.




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