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Biblioteca Nacional
A cultura dentro de casa


  José de Assis Faria

    Você já pensou na possibilidade de ligar seu computador, acessar a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro pela internet e ouvir Villa-Lobos, Chiquinha Gonzaga, Radamés Gnattali, e outros compositores? E, simultaneamente, ler as biografias e ver fotos ou desenhos deles e dos ambientes em que viveram, sem necessidade de senhas, pagamentos ou de suportar os “banners” de propaganda dos sites comerciais?

   Tudo isso hoje é possível, como são possíveis outras atividades culturais agradáveis e úteis, no mesmo endereço eletrônico. Você pode “baixar” para o seu micro romances inteiros de Machado de Assis, Lima Barreto, Aluísio de Azevedo e outros. Depois pode imprimir o livro na sua impressora pessoal, de uma só vez ou em partes.
   Pesquisadores e curiosos contam com uma facilidade adicional. Podem adquirir dois CDs-ROM, um contendo um catálogo de monografias com mais de 200 mil registros, e outro tratando das obras raras, com quase 400 reproduções, permitindo o trabalho de pesquisa com mais tranqüilidade e amplitude. Esses dois CDs, já incorporados ao patrimônio de nove milhões de peças da biblioteca, são os primeiros editados e no futuro certamente se transformarão em obras raras.

      Salto tecnológico
   Em 1902 a Biblioteca Nacional alcançou um enorme avanço tecnológico, ao colocar em funcionamento a sua primeira máquina de escrever. Logo em seguida vieram outras máquinas datilográficas e outros equipamentos. As máquinas não existem mais, mas os seus manuais estão cuidadosamente guardados, como convém a uma biblioteca bem organizada. Na Divisão de Obras Raras estão guardados os manuais, escritos em português, das máquinas Mercedes, Oliver e Underwood, que eram usadas no início do século 20.
Uma das novas tecnologias dos anos 50 e 60 de grande destaque foi a da microfilmagem, que facilitou a guarda, conservação e pesquisa de documentos.
   Agora vem a fase da digitalização. Sentado em uma cadeira de mais de cem anos, diante de uma mesa da mesma época, um funcionário folheia cuidadosamente livros raríssimos de mais de cinco séculos. Com uma pequena máquina fotográfica, presa a um braço fixo, ele vai fotografando, uma a uma, as páginas do livro.
   A foto é transmitida instantaneamente para um computador, com um software apropriado para o tratamento da imagem captada. Nesse ritmo, ele já fotografou mais de 10 mil páginas de livros raros, que, em breve, serão colocadas à disposição de todos, em qualquer parte do mundo, através da internet.

      Futuras obras raras
   Em 1997 a BN dava um passo decisivo na informatização do seu acervo. Naquele ano foi editado o CD-ROM “Catálogo de Monografias da Biblioteca Nacional – 1982-1997”, contendo 216.968 registros. No site da BN está indicado que o CD pode ser adquirido na Livraria da Biblioteca por R$ 30,00, mas o preço real é R$ 5,00. Vale a pena comprar apenas como obra rara, para coleção, porque não se consegue abrir nem instalar o arquivo. O fabricante, Potiron, pede um prazo para resolver o problema e informa que aqueles registros estão disponíveis via internet, no site da BN. A obra em si, que algum dia poderá se tornar uma obra rara, não existe como tal no site.
   O segundo CD-ROM, mais recente, saiu sem indicação de data e de registro no ISBN. Com o título “Critérios de Raridade – Catálogo Coletivo do Patrimônio Bibliográfico Nacional – CBPN – Séculos XV e XVI”, contém um arquivo fotográfico de 374 obras raras. Para ser rara, a obra não precisa ser antiga. Estão no CD capas de obras de Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado e outros autores contemporâneos. O catálogo coletivo indica as obras raras existentes em bibliotecas de todo o país. A BN coordena o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas – SNBP –, com cerca de 3.200 bibliotecas, onde está a maior parte das obras raras.

      E quem não tem micro?
   Pensando nas pessoas que não podem acessar as novidades por não possuírem computador, a Biblioteca Nacional decidiu fazer o caminho inverso: fornecer computador para quem quer acessar a internet.
   Isso é possível para quem mora na cidade do Rio de Janeiro e arredores. A Biblioteca Euclides da Cunha, uma seção da BN, instalada no Edifício Gustavo Capanema, antiga sede do MEC, oferece essa facilidade.
   Para se inscrever, o interessado precisa ter conhecimentos de informática e internet, devendo pagar uma taxa de manutenção e marcar dia e hora. Ele poderá acessar sites culturais, como bibliotecas, museus, universidades, instituições, jornais etc. Não é permitido usar o correio eletrônico nem digitar trabalhos. O serviço funciona de segunda a sexta, das 10h às 17h, na Rua da Imprensa, 16, 4º andar.

      Clássicos na tela
   Os livros de domínio público – que não exigem o pagamento de direitos autorais – são editados freqüentemente por particulares e vendidos a preços baixos, o que torna fácil e barata a sua aquisição. Muitas vezes, contudo, o livro que queremos não está naquela série editada nem naquela data. Isso pode ser resolvido facilmente com o sistema de download da Biblioteca Nacional.
   “Os Bruzundangas”, de Lima Barreto, é um livro divertido e importante para a análise da nossa vida política, mas raramente é reeditado. Se quisermos lê-lo, podemos “baixar” o arquivo, sem nenhuma dificuldade.
   O leitor pode também optar por “Casa de Pensão” ou “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo; ou “O Escravocrata”, de Artur Azevedo; “Dom Casmurro” ou “Iaiá Garcia”, de Machado de Assis; “Iracema” ou “Lucíola”, de José de Alencar e outros autores como Raul Pompéia, Franklin Távora, Bernardo Guimarães, Afonso Taunay, Joaquim Manoel de Macedo, Martins Pena, Adolfo Caminha e outros.
   Estão disponíveis também livros de poesia, peças teatrais e obras não ficcionais.

      Música digital
   No site da Biblioteca Nacional é possível ouvir “Ó Abre Alas”, enquanto se lê a biografia da autora, Chiquinha Gonzaga. O mesmo acontece com “O Trenzinho do Caipira” ou “Bachianas Brasileiras Número 5”, de Villa-Lobos. Estão disponíveis várias outras músicas dos autores, assim como de Alexandre Levy, Brasílio Itibirê, Carlos Gomes, Alberto Nepomuceno, Camargo Guarnieri, Francisco Braga, Francisco Mignone, Helza Cameu, Guerra Peixe, Jayme Ovalle, Lorenzo Fernandez, Osvaldo Lacerda, Padre José Maurício, Radamés Gnattali, Renzo Massarani e Waldemar Henrique.
   Há também as biografias de compositores clássicos e populares estrangeiros, entre eles Wagner, Mahler, Verdi, Rossini, Pucini, Debussy e outros, mas suas músicas não estão disponíveis para audição.
   Para ouvir as músicas via internet é necessário ter a interface MIDI (Musical Instrument Digital Interface), existente em todos os computadores multimídia. O software de audição pode ser obtido através de download gratuito disponível em vários sites.

       Número único
   Como criar um número único para cada livro, periódico ou software editados em todo o mundo? Parece algo impossível de ser coordenado, mas o problema foi resolvido através do ISBN, o International Standard Book Number.
   Trata-se de um sistema internacional padronizado que identifica numericamente o livro ou outro suporte de informação, individualizando-o até mesmo por edição. Uma vez fixada a identificação, ela só se aplica àquela obra e edição, nunca se repetindo em outra.
   O sistema simplifica a busca e a atualização bibliográfica, concorrendo para a integração cultural entre os povos. A sua versatilidade está na facilidade de interconexão de arquivos e a recuperação e transmissão de dados em sistemas automatizados. O seu sistema numérico é convertido em código de barras, eliminando barreiras lingüísticas e facilitando a sua circulação e comercialização.

      Um exemplar de cada
   Toda publicação produzida no território nacional, por qualquer meio ou processo, deve ser enviada à Biblioteca Nacional, para o Depósito Legal, definido por lei. Para efeito de Depósito Legal, “publicação” pode ser uma obra impressa em papel ou registrada em qualquer suporte físico resultante de processo de produção para venda ou distribuição gratuita. O objetivo é assegurar a coleta, a guarda e a difusão da produção intelectual brasileira, visando a preservação e formação da memória nacional.
   Além dos livros e periódicos, deve ser enviado à BN um exemplar de cada edição de fita K7, LP, vídeo, filme, CD, mapa, desenho, medalha, foto, planta e cartaz. Estão excluídos o material de propaganda, fotocópias, recortes de jornais e outros. Livros, teses e outras monografias ainda inéditos também estão fora, devendo ser encaminhadas para o Escritório de Direitos Autorais.

      Presente de Bonaparte
   Os museus, bibliotecas e arquivos, conhecidos como instituições-memória, foram criados inicialmente como memória da realeza na Europa e se transformaram em instituições públicas a partir das revoluções burguesas. A França criou seus arquivos nacionais em 1790 e logo em seguida transformou a Biblioteca Real em propriedade nacional. Em 1795 começou a obrigatoriedade do depósito legal de todas as publicações impressas no país.
   A Real Biblioteca de Lisboa foi consumida por um incêndio em 1755, durante o terremoto que destruiu a capital portuguesa. Posteriormente D. José, Rei de Portugal, mandou organizar uma livraria em substituição à biblioteca destruída. Em novembro de 1807, quando as tropas de Napoleão Bonaparte invadiam Portugal, o Príncipe Regente, D. João VI, a Rainha D. Maria I, a Louca e toda a família real partiram para o Brasil, trazendo todo o acervo da Livraria Real, com cerca de 60 mil peças, entre livros, manuscritos, estampas, mapas, moedas e medalhas. Se não fosse a invasão napoleônica, o Brasil continuaria por muitos anos sem poder imprimir uma só folha de papel. Até a chegada de D. João VI, qualquer um que imprimisse qualquer coisa aqui era levado de volta a Portugal e preso.
   O acervo da Biblioteca Nacional é considerado o oitavo maior do mundo, em volume e qualidade, graças principalmente às 60 mil peças trazidas por D. João. A biblioteca ficou sediada em três lugares: a partir de 1810, no Hospital da Ordem Terceira do Carmo, na Rua Primeiro de Março e em 1858, no prédio onde hoje é a Escola de Música, na Rua do Passeio. Em 1905 começou a construção do prédio atual, inaugurado em 1910.




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