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A Bandeira como símbolo

  Francisco de Paula Brasil

a linguagem comum, tomam-se como sinônimos os termos “sinal” e “símbolo”. Fala-se, assim, indistintamente, de sinais algébricos e símbolos algébricos. Na realidade, todo símbolo é também sinal, mas não vice-versa. O sinal substitui o objeto. O símbolo vai além: ele “é” o objeto dentro do espírito de quem o contempla. A bandeira é sinal enquanto leva a conhecer o grupo correspondente; e é símbolo enquanto representa no espírito o grupo que se ama ou se odeia. Como sua existência tem objetivo mais emotivo do que cognitivo, sua natureza intrínseca é ser, mais do que sinal, um símbolo.

      O Pavilhão Nacional
   O retângulo verde foi, sem dúvida, uma originalidade. Antigamente, em todo o Ocidente, era esse esmalte de uso escasso em bandeiras e brasões, sendo considerado menos nobre, o que se atribui geralmente à circunstância de ter sido muito vulgarizado entre os países não-cristãos. Ainda hoje o verde predomina nos pavilhões afro-asiáticos. Na Europa, só Portugal, Itália, Hungria, Bulgária e Irlanda o ostentam. Na América, México e Bolívia. O fato de o Brasil fazer exceção ao costume significa a independência com que elaborou seu Pavilhão, sem preocupar-se com as implicações ideológicas ou religiosas de suas opções heráldicas.
   O Imperador Pedro I foi feliz na escolha do verde. Nos primórdios da civilização lusitana, fôra essa a cor do estandarte de Viriato. A cruz de D. João I fôra colocada em campo verde na bandeira da Restauração de 1640, quando o Duque de Bragança separou Portugal da Espanha, tornando-se D. João IV.
   O losango amarelo afirmava a natureza imperial do Brasil soberano: foi escolhido por ser a cor da Casa de Lorena, de uso da Família Imperial da Áustria, e de cujo Imperador, Francisco I, era filha Dona Leopoldina, mulher de D. Pedro I. O amarelo predomina nos países da África e da Ásia, mas não na Europa - e menos ainda na América.
   Mas o povo brasileiro recebeu bem a ligação das cores: o verde sugeriria as nossas florestas, e o amarelo, as nossas riquezas. “Auriverde pendão da minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança...”, cantaria Castro Alves.
   Nas armas do Império, ao centro do losango, ladeavam o fumo e o café, o que, durante muito tempo, suscitou críticas: um deles representaria um vício, e o outro, uma planta exótica, de origem estrangeira, conquanto nos tivesse enriquecido. Alguns opositores exaltados chegavam a afirmar que ali estar-se-ia a consagrar o fim econômico a que se destinavam o vício e o prazer fugaz. O que se pode dizer é que, pelo menos quanto à presença do fumo, esse nunca representou um produto principal na economia brasileira, à semelhança do açúcar, do ouro e do próprio café.

      Bom senso positivista
   Com o advento da República, impunha-se a eliminação das armas imperiais do Pavilhão Nacional. Vários projetos foram elaborados, alguns até bizarros: um deles copiava a bandeira norte-americana, substituindo as listras vermelhas e brancas por listras verdes e amarelas.
   Prevaleceu o bom senso de se manter o retângulo verde e o losango amarelo. Ao centro, foi incorporada a esfera azul, representando o zodíaco, e a eclíptica, demonstrando a posição acentuadamente austral de nosso país.
   A sigla “Ordem e Progresso” é de inspiração positivista, pois a República nasceu sob a influência da chamada “Religião da Humanidade”. O lema de Augusto Comte – o mais influente positivista - era “o amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim”. Optou-se por reduzi-lo, ironicamente suprimindo o “amor”. A presença do “Ordem e Progresso” suscitou controvérsias: Farias Brito lamentava que os positivistas tivessem podido “impor a inscrição de sua seita como lema de nossa bandeira”. Sílvio Romero o considerou “banal”. Aluízio Azevedo chegou a qualificá-lo de “desgracioso e antipático enigma pitoresco que nos impingiram por bandeira os devotos de Clotilde de Vaux”.
   Na Assembléia Constituinte de 1933, registrou-se a última tentativa de supressão pura e simples do lema. Propuseram-na Góes Monteiro, Solano Carneiro da Cunha, Múcio Leão e Afonso Arinos. Temístocles Cavalcanti e Castro Nunes, menos exaltados, sugeriram um plebiscito. Alceu de Amoroso Lima, em carta a Eurico de Góes, datada de 27 de março de 1933, assim se expressou: “(os adoradores de Clotilde de Vaux) transformaram nosso auriverde pendão num desastrado símbolo positivista”.
   Hoje, a polêmica está esquecida. Ao contemplar o Pavilhão Nacional, resta-nos, principalmente a nós, rotarianos, pedir a Deus que torne realidade aquele tema nele inscrito.




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