| odo
rotariano de verdade tem uma história para contar, um relato
sobre aquele momento em que descobriu o que de fato significa a nossa
organização. Nesta edição, apresentamos
mais um capítulo das “Histórias do Rotary”,
contadas por pessoas que descrevem as suas experiências como rotarianas
e sobre como o “Dar de Si Antes de Pensar em Si” alterou
suas vidas.
LINDA COBLE chegou ao Estado norte-americano do Havaí
em junho de 1969 para aproveitar a viagem que ganhara da avó
como presente por sua formatura na faculdade. Já em Honolulu,
ela foi seduzida a ficar pela atmosfera de boas-vindas do lugar –
que ela mesmo descreve como o “espírito aloha”.
Jornalista especializada em radiodifusão pela
Universidade de Oregon, com sonhos de se tornar apresentadora de telejornal,
Coble pretendia começar logo a sua carreira. No entanto, apesar
de todo o seu esforço, parecia difícil que alguém
fosse lhe dar uma chance.
“Havia poucas mulheres trabalhando como jornalistas
na TV dos EUA naquela época. Mas eu considerava os noticiários
televisivos um serviço público, e queria ser a responsável
por informar minha vizinhança a respeito de sua própria
comunidade”, ela conta. E acrescenta, rindo: “E lá
estava aquela lourinha, uma moleca de praia aproveitando as férias
no verão havaiano, à procura de um emprego em que as mulheres
não eram aceitas. Eu era realmente um peixe fora d’água!”
Apesar disso, na semana em que o homem colocava os
seus pés na Lua pela primeira vez, Coble conseguia um emprego
como secretária na KHVH-TV, uma emissora de televisão
do Havaí. Lá ela atendia ao telefone e administrava a
limpeza na sala dos apresentadores, mas alguns repórteres começaram
a encaminhá-la pelo mundo da notícia. Meses mais tarde,
já atrás de seu primeiro furo – uma inesperada entrevista
com o senador pelo Arizona, Barry Goldwater, realizada na pista do aeroporto
– Coble transformou-se na primeira repórter feminina da
televisão havaiana. Logo depois, tornava-se a apresentadora do
telejornal da emissora.
Em 1971, Coble foi mencionada em um artigo publicado
na revista “Newsweek” sobre as mulheres pioneiras na mídia,
aparecendo ao lado de outras notáveis como Pia Lindstrom e Connie
Chung. Mas naquela ilha – o Havaí – Coble ainda se
sentia como uma estrangeira. “Eu era uma mulher haole –
palavra havaiana que significa ‘pessoa branca’, ou ‘homem
branco’ – numa comunidade formada por gente bastante variada:
chineses, filipinos, havaianos, japoneses, samoanos. Eu não tinha
muita familiaridade com todas aquelas culturas, mas precisava ter credibilidade
entre eles. Daí a minha decisão de me envolver mais com
a comunidade”.
Depois de produzir uma reportagem sobre a forma como
o Centro para Suicídios e Crises de Honolulu auxiliava os jovens
com problemas, Coble se ofereceu para trabalhar como voluntária
na central de atendimento telefônico da instituição.
Depois de um treinamento que durou oito semanas, ela começou
a trabalhar, atendendo às ligações depois de apresentar
o telejornal das 22h. Os telefonemas que ela recebeu a assustam até
hoje. Um deles foi o de um menino samoano muito confuso porque sua mãe
– uma mulher espancada e problemática – o obrigava
a ir à escola com roupas de menina. “Houve ainda o caso
de uma adolescente que, depois de ingerir vários comprimidos,
queria falar com alguém antes de morrer”, ela relembra.
“Conseguimos socorrê-la a tempo”.
Coble não sabia nada sobre o Rotary até
novembro de 1987, quando Tucker Gratz, membro de um RC local, abordou-a
no hall da estação de televisão oferecendo-se para
apadrinhá-la em seu clube. Os Rotary Clubs haviam começado
a admitir mulheres, e Gratz tinha sido incumbido de recrutar candidatas
qualificadas. “Tucker imaginava que uma mulher de nome conhecido
tinha as melhores chances”, ela diz.
Coble considerou o desafio irresistível e aceitou
o convite. No grande dia em que foi apresentada a 300 de seus novos
companheiros, ela diz que, em frente ao microfone, sentia-se outra vez
como “a jovem mulher combativa da década de 1960.”
Foi inspirada nesse espírito que Coble esbravejou, diante da
elite empresarial de Honolulu: “Já era tempo de vocês
aceitarem mulheres no Rotary!”
A afirmação causou mal-estar entre os
presentes. “Eu não tinha idéia do quanto os havia
insultado”, ela conta, ainda sem jeito com essa lembrança.
“Mas aquela atmosfera de desapontamento poderia ser cortada com
uma faca”. Coble diz que na verdade estava muito emocionada com
a ocasião; e fica feliz ao recordar que sua gafe não surtiu
maiores efeitos a partir do momento em que ela e seus companheiros de
clube passaram a se conhecer melhor.
À medida que se engajava em projetos de serviço
com alguns dos mesmos homens de negócio que ela perseguira durante
anos atrás de um furo jornalístico, Coble foi percebendo
que eles eram, acima de tudo, pessoas atenciosas e engajadas. Por exemplo,
ela logo soube que Howard Stephenson, um proeminente banqueiro, jamais
havia faltado a uma reunião do Rotary. “Aquilo me mostrou
como ele dava importância àquela hora semanal”, Coble
esclarece. “Aquilo não tinha nada a ver com dinheiro, negócios
ou com a condução de uma grande companhia. Significava
estar junto de pessoas boas, sensíveis, preocupadas com a vida
dos outros, dos seus vizinhos e dos seus companheiros de clube. Aquilo
me mostrou que ser rotariano era uma honra e o reflexo dos mais nobres
padrões éticos”.
Antes de entrar para o clube, Coble havia participado
de muitas iniciativas de caridade, principalmente recorrendo ao seu
prestígio para atrair doadores em eventos voltados à arrecadação
de fundos. Um trabalho relativamente fácil para a “Linda
Coble da TV”, mas que não a obrigava a “colocar a
mão na massa”. Foi o Rotary que mudou tudo isso. Agora,
ela estava arrancando as ervas daninhas dos jardins do Centro para Pacientes
de Alzheimer, ou sentava-se numa mesa de cozinha com a mãe de
uma criança portadora de deficiência, trocando abraços
e lágrimas de alegria. “Você não experimenta
esse tipo de emoção quando participa de conselhos consultivos”,
diz. “Aquilo era bem mais pessoal”.
Em 1994, ano em que Coble tornou-se a primeira mulher
a assumir a presidência do seu clube, um projeto em especial contribuiu
para o crescimento pessoal dela. Todos os anos, como parte das comemorações
do Dia de Ação de Graças, os clubes do Distrito
5000 comprometiam-se a terminar um projeto antes do feriado que marca
essa tradicional data para os norte-americanos. Naquele ano, o clube
de Coble havia decidido construir um pátio com uma quadra de
basquete para a mãe adotiva de cinco meninos extremamente ativos.
Empunhando uma pá, Coble suou um bocado ao lado de seus companheiros
para terminar o projeto antes do anoitecer. Concluído o trabalho,
ela orgulhosamente fincou o seu distintivo rotário no cimento
fresco, como se ele fosse uma bandeira. “Nunca me senti tão
elevada em trabalhar com qualquer outro grupo”, ela garante.
Um ano depois, o clube de Coble decidiu construir
uma rampa de acesso numa casa onde uma criança adotada –
um menino portador de deficiência física – acabara
de receber sua primeira cadeira de rodas. Terminada a rampa, eles perceberam
que a cadeira de rodas não passava pela porta do banheiro da
casa, e modificaram o cômodo. Aquilo os levou a adaptar o quarto
dos pais adotivos do menino, e em seguida os closets. O que a princípio
deveria ser um projeto para se concluir em apenas um dia tornou-se uma
reforma da casa que durou seis meses. A cada fim de semana, um grupo
de dedicados rotarianos comparecia para ajudar nas obras. “Foi
uma coisa inesquecível”, afirma Coble, com orgulho. “O
melhor arquiteto da cidade cortava a lenha; o contador mais importante
colocava as telhas. E a família do menino nos é grata
até hoje. Esse é um outro aspecto que as mudanças
provocadas pelo Rotary trazem à nossa vida: desenvolver laços
duradouros com as pessoas que nós ajudamos. É a grande
bagagem de bondade que mantém nossos corações felizes”.
Em 1988, Coble saiu da televisão para trabalhar
na KSSK, uma emissora de rádio. Ela era a apresentadora das notícias
num show matutino. Dez anos depois, a emissora precisou reduzir suas
atividades, e ela foi embora. “De repente, eu não era mais
a “Linda Coble da KSSK”, mas somente eu mesma. Aquilo mudou
instantaneamente o meu senso de personalidade”, ela recorda. Tal
fato também significava que dali em diante ela estaria livre
para se dedicar ao Rotary com exclusividade, decisão que teve
o total apoio de seu marido, o também apresentador de televisão
Kirk Matthews.
Coble foi governadora do Distrito 5000 – que
abrange todos os 41 clubes do Havaí – no ano rotário
de 2000-01. Durante esse período, foram realizadas eleições
gerais nos EUA, o que lhe deu a oportunidade de participar de um de
seus projetos favoritos, o Crianças Votando no Havaí,
em que os rotarianos proporcionam aos alunos das escolas da região
a oportunidade de participar de eleições simuladas.
Parte integrante do projeto Crianças Votando
nos EUA, o programa foi introduzido no Havaí em 1994 pela educadora
Lyla Berg. O clube de Honolulu montou um projeto-piloto para as eleições
de 1996. Com Coble liderando os voluntários rotarianos, o projeto
se espalhou para todo o Estado durante as eleições de
1998, 2000 e 2002.
“Ocorre uma sinergia interessante entre as crianças
e seus pais: eles falam sobre política!”, diz Coble. “E
os pais nos contam: ‘Eu jamais votaria, mas meu filho me convenceu
do contrário, e ainda me pediu para levá-lo à seção
eleitoral no dia da eleição’. Essa é uma
ação rotária perfeita, e muito satisfatória,
porque nós sabemos como realizá-la”. [N.E.: Vale
lembrar que o voto não é obrigatório nos EUA].
Nas últimas eleições gerais,
os estudantes havaianos participaram da simulação votando
via internet, uma iniciativa pioneira em todo o país.
As maiores satisfações de Coble em seu
engajamento rotário tiveram origem nos laços desenvolvidos
entre os próprios rotarianos, aspecto que ganha importância
neste ano pela prioridade dada à Família Rotária
pelo presidente do RI Jonathan Majiyagbe.
“O Rotary é realmente uma grande extensão
da família”, concorda Coble. “Quando um de nós
fica doente ou se acidenta, todos se preocupam, socorrendo esse companheiro
ou enviando-lhe uma mensagem. Quando alguém morre, nós
vamos ao funeral e consolamos a família. Quando você perde
o emprego, sua ohana – “família”, em havaiano
– rotária cerra fileiras para ajudá-lo a superar
isso. Conheço essa experiência pessoalmente: mesmo estando
longe da minha terra natal, a minha vida expandiu-se de forma incomensurável
porque o Rotary tornou-se a minha ohana”.
Essa “química especial” também
melhorou o relacionamento de Coble e seu marido, e lhes trouxe uma sensação
de segurança. Ela explica que se sente realizada por ajudar os
outros, o que a torna uma parceira melhor. O Rotary ajudou-os mesmo
a aliviar as preocupações que qualquer casal sente quando
alcança a meia-idade. Seu marido certa vez confessou-se preocupado
com a reação que ela teria caso ele viesse a faltar. Ela
relembra o que ele disse depois: “Mas agora eu sei que você
nunca estará sozinha, Linda. Seus amigos rotarianos sempre estarão
ao seu lado”.
Coble acredita que uma das razões pelas quais
os rotarianos sentem-se tão próximos é o fato de
eles se encontrarem o tempo todo, o ano inteiro, mesmo nos períodos
entre as reuniões semanais, os eventos de companheirismo e as
participações em projetos de serviços. “Fiz
algo em torno de 250, 300 amigos, que revejo todas as semanas”,
declara. “Se eu não for a uma das nossas reuniões
de terça-feira, eles sentem a minha ausência. Tenho amigos
rotarianos em quase todos os países, e convites abertos para
visitá-los. Nestes tempos de mudança, o Rotary proporciona
uma seleção de amigos permanentes que compartilham compaixão
e ética, que são amáveis, desembaraçados,
e que se preocupam com os outros. Ter um exército de amigos como
esse é como ter uma ohana perpétua. Isso é profundamente
confortador – e muito raro”.
|