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Companheirismo
causa, meio ou fim do Rotary?

  Themístocles A. C. Pinho

edico-me ao Rotary há vários anos e, por diversas oportunidades, servi à nossa instituição de diferentes formas, orientando governadores em assembléias internacionais – particularmente nos assuntos relacionados à Fundação Rotária – e, mais recentemente, nos temas ligados ao desenvolvimento e à retenção do nosso quadro social.
   Sobre a conseqüência dessas atividades, e também sobre outros variados assuntos, muito já escrevi e tive a oportunidade de falar. Porém, recentemente me vi envolvido pela idéia de um exame mais profundo acerca de um tema que – posso afirmar – é uma das bases do Rotary: o companheirismo. As idéias surgiram, algumas formas de abordar o assunto foram se materializando em minha mente e, aos poucos, fixei-me na forma que ora passo a expor.

      O valor da amizade
   Como ponto de partida, reproduzirei de forma resumida uma história que eu ouvi recentemente:
   Um dia, um viajante vinha por uma estrada montado em seu cavalo e acompanhado do seu cão. Como sentiam muita sede, os três procuraram um local para beber água. Foi quando o viajante viu um lugar muito bonito, com portões dourados, tendo na sua entrada uma guarita toda em mármore branco, onde um homem estava postado. Da entrada, o viajante visualizou ao fundo de uma alameda toda pavimentada em ouro uma linda fonte que jorrava água límpida e fresca. Dirigiu-se então ao homem da guarita e perguntou: “Senhor, meu cavalo, meu cão e eu estamos com muita sede. Será que podemos beber um pouco daquela água que jorra da fonte?”
   “Sim” – respondeu o homem – “mas apenas você. O cavalo e o cão não poderão entrar.” O viajante recusou a oferta e seguiu viagem. Mais adiante, ele encontrou uma velha porteira de madeira semi-aberta, e viu na beira do caminho de terra um homem sentado debaixo da sombra de uma árvore frondosa. Olhando mais adiante, viu que no final do caminho também havia uma fonte. O viajante perguntou ao homem: “Senhor, eu, meu cavalo e meu cão estamos com muita sede. Será que podemos saciá-la naquela fonte?” E o homem respondeu: “Claro, podem entrar. Todos são bem-vindos”.
   Os três entraram e beberam da água. Feito isso, o viajante perguntou ao homem como se chamava aquele local. E ele respondeu: “Aqui é o céu”, ao que o viajante retrucou: “Mas senhor, antes de aqui chegarmos, encontramos um local lindo e aparentemente hospitaleiro que parecia ser o céu. Como se chama aquele lugar?” E o homem respondeu: “Lá é o inferno”.
   Os três amigos voltaram à estrada, e o viajante entendeu a razão da diferença: ao contrário do céu, no inferno não há lugares para os amigos e companheiros.

      Amizade em prol da ação
   Essa foi a síntese de uma história ouvida em uma palestra sobre companheirismo realizada na Conferência do Distrito 4560, ocorrida em Monte Sião, MG. Ouso completar a história afirmando que o viajante preferiu ficar solidário com seus amigos de viagem a saciar sua sede, demonstrando a importância que esse relacionamento deve ter. Dirão alguns: “É uma bela história, mas o que ela tem a ver com o tema proposto?” Amigos, podemos afirmar: tem tudo a ver!
   Precisamos ver o companheirismo com olhos diferentes, como apoio, solidariedade, verdadeira parceria em todos os sentidos – e sob todos os aspectos, entre nós e com o mundo – e não apenas como o companheirismo pelo companheirismo, o companheirismo pela pura conversa, boa e descontraída, ou pela cerveja bem gelada das reuniões. O que devemos ver no companheirismo é muito mais que tudo isso, como recentemente lembrou o EDRI Alceu Antimo Vezozzo: “O companheirismo é uma forma de colocar as pessoas em ação”.
   O Rotary precisa, e muito, que sejamos amigos e companheiros. Mas só isso não basta. Devemos olhar e cuidar da comunidade, pois ela é a origem e o “fórum” do Rotary; os clubes devem tentar fazer com que pelo menos 50% de suas atividades estejam voltadas às suas próprias comunidades; o Rotary, como uma organização humanitária, deve se abrir para o mundo todo.
   Assim, o companheirismo, a comunidade e a humanidade devem ser as peças-chave, os enfoques dominantes de nossa atuação, para que possamos atingir no segundo centenário do Rotary o mesmo sucesso obtido nestes primeiros cem anos que estamos prestes a festejar. Já se disse que o Rotary é “uma grande catedral que precisa ser aberta à comunidade”.
   Porém, tudo isso só será alcançado quando fizermos do companheirismo não a causa ou o fim, mas a forma e o caminho para obtermos e promovermos tudo que deve ser feito. Precisamos saber aproveitar o companheirismo como alguns poucos de nós o fazem, multiplicando esforços em prol do bem comum e dos mais necessitados.

      Companheirismo mundial
   Exemplos dessa atitude poderiam ser citados aos montes, mas o que nos parece é que ainda há muito mais para ser feito. Cada um de nós deveria ver o companheirismo como algo mais que um simples e bom relacionamento, mais que uma forma de “fazer e manter amigos”, procurando – a partir dele e com ele – atingir de maneira expressiva e objetiva tanto a comunidade que nos cerca como aquele ser humano no lugar mais distante do planeta. Afinal de contas, somos ou não somos, com muito orgulho, mais de 1,2 milhão de pessoas dedicadas ao servir?
   Não seria muito mais fácil e eficaz se – efetivamente cumprindo o objetivo maior do Rotary através do relacionamento internacional – toda a força do companheirismo fosse colocada nos programas humanitários da Fundação Rotária?
   E o que dizer dos grupos de companheirismo mundial do Rotary entre nós, países em desenvolvimento? Através deles, rotarianos do mundo inteiro, unidos por suas profissões e com as mesmas vocações, se comunicam e tornam este mundo um lugar menor e bem melhor. E o que é mais importante: fazem o Rotary fazer.
   Tantas e tantas são as oportunidades que nos cercam a cada dia e a cada hora... Só depende de nós! Para não ficarmos apenas na ênfase teórica, um exemplo – e apenas um – bem marcante do que lhes pretendo transmitir está na página 30 desta edição. Como conseqüência do esforço dos Rotary Clubs Rio de Janeiro-Guanabara, Rio de Janeiro-Méier, Rio de Janeiro-Saúde e Rio de Janeiro-Tijuca – todos do Distrito 4570 – juntamente com o apoio da Fundação Rotária e o patrocínio do governo da Alemanha, foi concluído um projeto de educação no valor de US$ 850 mil que só se tornou possível em face do trabalho e do companheirismo que lhes falo, no caso específico reunindo os esforços de uma rotariana brasileira e alguns rotarianos alemães.
   É esse companheirismo que pretendo transmitir a todos. Se ele florescer a partir do relacionamento humano, dará frutos através de consistentes e objetivos projetos que colaborarão com as conquistas da paz e da compreensão em nosso meio e em todo o mundo.
   Neste ano rotário, entendemos que o companheirismo é a alma, é a ferramenta do Rotary a nos incentivar a “Dar a Mão ao Próximo”. Paul Harris, o fundador de nossa organização, ao se juntar a seus três amigos Gustavus Loehr, Hiram Shorey e Silvester Schiele, por certo via nessa ação o mesmo potencial que pretendo estimular. Através da união desses quatro profissionais, e não simplesmente por alguns momentos de lazer e amizade, surgiu uma possibilidade de se fazer algo pelos outros.
   Da mesma forma, o presidente Jonathan Majiyagbe afirma com muita clareza e firmeza que “o companheirismo e a prestação de serviços são as pedras angulares do Rotary”, e que “os nossos clubes são o coração da família rotária”. Majiyagbe diz ainda que “devemos encontrar formas de criar e nutrir esse coração, e certamente o companheirismo é um dos elementos fundamentais para que isso ocorra”.
   Sendo assim, “Dar a mão ao Próximo” nada mais é que um grande chamamento para o verdadeiro, puro e tão necessário companheirismo como forma de nos tornarmos úteis e verdadeiros praticantes do servir.




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