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liberação
de verbas para atender deputados e senadores governistas, no total de
R$ 2,5 bilhões, chamou a atenção para um tema que
soa distante e árido, mas influi no cotidiano de todo mundo:
a execução orçamentária. Os orçamentos
no Brasil são autorizativos – ou seja: permitem gastos
mas, a princípio, não os obrigam. Aumenta, assim, a margem
do Executivo para remanejar o dinheiro, e incentivar os parlamentares
a incluir pleitos regionais de toda ordem, na base do – com perdão
da crueza – “se colar, colou”.
Por um desses efeitos pedagógicos, coube a
um dos mais experientes parlamentares do país, cevado na política
de construir um amplo poder acolhendo pedidos localizados, a tarefa
de apontar uma saída para o problema. Antônio Carlos Magalhães,
senador reeleito, propõe o orçamento impositivo. Nele,
os programas listados tornam-se uma obrigação, e seu descumprimento
sem a justificação devida leva à responsabilização
do governante.
É
uma espécie de Lei de Responsabilidade Orçamentária,
nos moldes da bem-sucedida Lei de Responsabilidade Fiscal. Posta em
prática, abriria caminho para o Congresso exercer a função
que marcou sua origem na Grã-Bretanha, matriz da democracia moderna:
controlar gastos e fixar prioridades de investimento, detendo abusos
na cobrança de impostos.
Não é pouco para um país que
cobra tributos como a Suécia e oferece serviços públicos
deficientes. E que vive dificuldades crônicas para assegurar a
transparência e a eficiência dos gastos governamentais,
em todas as esferas da Administração. O caráter
mandatório das rubricas facilitaria o acompanhamento da execução
orçamentária. Tenderia a deslocar os lobbies e grupos
de pressão da Esplanada dos Ministérios para a fase de
elaboração dos orçamentos. O Congresso, por dever
de ofício e pela heterogeneidade natural, com espaço para
opositores de variados decibéis de alarido, tende a trazer tudo
a público. A luz do sol, como se sabe, é o melhor dos
detergentes.
A discussão da proposta de ACM remete à
crônica disputa entre a Fazenda e os demais gabinetes da Esplanada.
O mote é a vinculação de verbas, o imposto ou taxa
com uso definido desde a cobrança – que não é
brasileira como a jaboticaba mas, a exemplo da manga, floresceu por
aqui a ponto de parecer nativa. Sob marcação permanente
dos credores, os gestores do Tesouro passam mal só de ouvir falar
em recursos vinculados, transferências constitucionais e quantos
nomes tenha a impossibilidade de deslocar dinheiro para o pagamento
de dívidas.
Lógico e compreensível, do ponto de
vista de quem assina os cheques. Mas um exame mais abrangente dos gastos
oficiais torna igualmente respeitável o comportamento de ministros,
sindicalistas e parlamentares que defendem as vinculações.
As estradas receberão pelo menos R$ 8 bilhões este ano.
Fruto da regulamentação do uso de recursos da Cide –
Contribuição de Impacto Econômico – sobre
combustíveis. Criada para financiar a recuperação
e construção de rodovias, a Cide vinha servindo exclusivamente
para engordar o superávit nas contas públicas.
Dos
itens considerados para o cálculo do IDH – Índice
de Desenvolvimento Humano da Organização das Nações
Unidas, o melhor desempenho nos últimos nove anos coube à
educação. O relatório aponta o Fundef – Fundo
de Desenvolvimento do Ensino Fundamental – como o fator mais importante
para a performance, por melhorar os salários e condições
de trabalho do magistério. Não por acaso, o fundo dá
instrumentos à obrigatoriedade de aplicação de
recursos no ensino.
A Saúde tem os mínimos constitucionais
e um imposto criado sob a alegação de financiá-la:
a CPMF, incidente sobre as movimentações financeiras.
Não dispõe, contudo, de uma regulamentação
vinculando os recursos desta contribuição a suas necessidades.
E os serviços de hospitais e postos de saúde seguem insuficientes
– apesar do trabalho do governo anterior, considerado bom; e do
desempenho do atual ministro da Saúde.
Um dado a refletir, que nos leva a um dito portu-guês
bem adequado: “Em casa que falta pão, todos brigam e ninguém
tem razão”...
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