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O Prêmio Nobel que nasceu no Brasil

  Antônio Taulois

m país e uma cidade que podem se vangloriar de terem sido o berço de um ganhador do Prêmio Nobel não devem desconhecer e nem esconder tal fato. Ao contrário, ambos tem de incluí-lo em seu currículo. Peter Brian Medawar, Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1960, era brasileiro, nascido no Hospital Santa Teresa, em Petrópolis, onde viveu até os 14 anos de idade ao lado de seus pais, que permaneceram na cidade por 40 anos, sempre morando na rua João Caetano, no bairro do Caxambu.
   Alguns Medawar deixaram o Líbano no início de 1900 para viver no Brasil. Edmond Medawar foi um deles. Seu irmão Nami Medawar, no entanto, o pai de Peter, foi para a Inglaterra, onde tornou-se cidadão inglês e proprietário de uma indústria de material ótico e dentário. Em 1913, ainda solteiro, Nami resolveu fechar sua firma em Londres e vir para o Brasil com seus parentes. No Rio de Janeiro, abriu a Ótica Inglesa, que funciona até hoje na rua Sete de Setembro, logo atrás da Igreja de São Francisco. Pouco depois, Nami conheceu Edith Darling, uma inglesa, com quem se casou, indo morar em Petrópolis. Na cidade da serra fluminense, o casal teve três filhos: Philip, Pámela e Peter, que nasceu em 28 de fevereiro de 1915.
   Peter se educou na cidade e viveu sua infância e juventude como qualquer moço de seu tempo, sempre se destacando como ótimo aluno. Empolgado com o êxito escolar do filho, Nami mandou-o para a Inglaterra, onde o rapaz prosseguiu seus estudos. Ele tinha então 14 anos. Poucos anos depois, Peter ingressava na Universidade de Oxford, onde se bacharelou em zoologia no ano de 1932 pelo Magdalen College, um renomado centro científico com cinco séculos de existência. Em sua permanência na instituição, trabalhando a convite, Peter interessou-se por biologia relacionada à medicina. Nos anos seguintes, apresentou trabalhos científicos desenvolvendo uma técnica de ligadura de terminais nervosos que lhe permitiu prestar exames e se tornar um pesquisador do Magdalen College. Era então o mais jovem em sua categoria em Cambridge, segundo seu primo Gerdal Medawar, empresário no Rio de Janeiro.
   Foi nessa época que Peter teria de voltar ao Brasil para prestar o serviço militar obrigatório. Decidido a não interromper suas pesquisas, pediu a seu pai que tentasse torná-lo isento dessa obrigação para não perder a cidadania brasileira. Nami Medawar apelou para Salgado Filho, então ministro da Aeronáutica. Negado o pedido, e sem outra saída, o jovem pesquisador foi obrigado a tornar-se cidadão britânico.
   Peter Medawar teve uma destacada carreira acadêmica como professor e pesquisador, passando por todos os colleges de sua área em Oxford. Trabalhou também como jodrel professor e como mason professor na Universidade de Birmingham. Na London University, foi indicado como jodrel professor em zoologia e anatomia comparada, período em que desenvolveu profundos estudos sobre a forma e a simetria nos animais e nas plantas. Mas seu interesse maior concentrou-se nos transplantes de tecidos vivos, uma tentativa milenar que desde 1949 tinha dado um considerável salto com a publicação de um trabalho imunológico de Frank Burnet, notável pesquisador australiano e parceiro de trabalho de Peter. Em paralelo a suas pesquisas, Medawar desempenhava também atividades didáticas e administrativas. No ano de 1962, tornou-se diretor do Instituto Britânico de Pesquisas Médicas, mesmo não sendo clínico nem médico.

      A consagração
   O Prêmio Nobel veio em 1960, em parceria com sir Frank Burnet, 16 anos mais velho que Medawar – e considerado pela editora The Times um dos “Mil Homens que Fizeram o Século 20” por suas pesquisas em diversas áreas. Burnet iniciou uma pesquisa com anticorpos, formulando conclusões que depois seriam comprovadas por Medawar. O cientista petropolitano também pesquisava transplante de tecidos vivos entre indivíduos, já tendo concluído que em certas circunstâncias surgia uma força biológica que inibia a rejeição do organismo hospedeiro, mesmo não reconhecendo os antígenos estranhos. Muitos pesquisadores rejeitaram essa conclusão, mas Burnet propôs que continuassem juntos a pesquisa.
   A questão básica era saber como se fabricavam os anticorpos – altamente específicos – para então lidar com cada um deles. Até 1955, achava-se que a substância transplantada produzia esses anticorpos de alguma forma. Foi então enunciada a Teoria da Seleção Clonal, que dizia que esses anticorpos estavam presentes nos linfócitos do sangue. Percebeu-se então que, quando um antígeno estranho se unia ao anticorpo de um linfócito, a célula iniciava sua multiplicação, produzindo grandes quantidades desse anticorpo. Esses foram os primeiros passos para que os transplantes se tornassem possíveis 30 anos depois. A teoria ficou conhecida como Tolerância Imunológica Adquirida, trabalho que levou o “jovem petropolitano e fisiologista inglês” Medawar a receber o reconhecimento oficial da Rainha Elizabeth, que o nomeou cavaleiro do Reino Unido em 1965 com o título de sir Peter Brian Medawar. O cientista chegou a retornar ao Brasil em 1962 para visitar parentes, ocasião em que participou de encontros científicos e palestras. A Fiocruz, no Rio, mantém um registro de sua presença e atividade na entidade. Medawar morreu em 1987.

      A paternidade de um Nobel
   Seria Medawar um cientista brasileiro e petropolitano? Não teria ele nascido na Serra da Estrela por acidente? A Cidade Imperial de Petrópolis esteve com ele recebendo a comenda de Cavaleiro da Rainha?
   Atendendo ao Direito Internacional Privado, não há como negar que Peter Brian Medawar era petropolitano pela disposição do Ius Soli, ou Direito do Solo. Mas vamos nos basear na argumentação científica de Jean Piaget, expressão máxima do que se conhece hoje sobre a inteligência humana e um dos cem maiores cientistas de todos os tempos, segundo alguns autores. De acordo com Piaget, desde o nascimento de um bebê – e até os seus 14 ou 15 anos – são construídas as suas estruturas mentais, sempre muito definidas conforme a idade, as experiências de vida de cada um e a sua adaptação ao meio ambiente.
   Nenhuma nova estrutura mental se forma após os 15 anos de idade de um indivíduo. A partir desse período, ocorrerá apenas o processamento dessas estruturas. Por força da psicologia evolutiva de Piaget, não podemos deixar de lado o fato de Medawar ter deixado Petrópolis aos 14 anos já com suas estruturas mentais, sensoriais, motoras e concretas – e grande parte das abstratas – completamente consolidadas. Renunciar ao Medawar petropolitano tem ares de negligência com os nossos valores, sejam os de Petrópolis em particular ou os do Brasil como um todo.
   Na comunidade internacional, a briga é séria pela paternidade dos prêmios Nobel. Albert Schweitzer, Nobel da Paz de 1952 que nasceu na Alsácia, lembrava que os alemães diziam que ele era um “judeu francês”, enquanto os franceses o consideravam um “judeu alemão”. Mas quando franceses e alemães falavam de seus Nobel, Schweitzer nunca ficava fora das duas listas. No cadastro da Real Academia Sueca de Ciências estão listados 44 prêmios concedidos a cientistas por pesquisas feitas em outros países que não os seus. Nesses casos, os dois países são citados, como ocorre com Marie Curie, Nobel de Química de 1911, uma polonesa que realizou seu trabalho em solo francês. No entanto, na premiação de Medawar o Brasil não é citado.
   Poucos se sensibilizaram em nosso país com o honroso fato de um ganhador do Prêmio Nobel nascido e criado entre nós até sua juventude. A jornalista Daura Rezende e a Somerj – Sociedade Médica do Estado do Rio de Janeiro – são louváveis exceções. Daura levantou os documentos comprobatórios da presença dos Medawar em Petrópolis. Samuel Kierszenbaum, presidente da Somerj, instituiu a Medalha Peter Brian Medawar para reconhecer pessoas e instituições que se aplicam no tratamento dos objetivos da medicina. Esta é a mais elevada condecoração da associação, já oferecida a numerosas personalidades e instituições. Em 2001, a Fundação Cultural de Petrópolis descerrou uma placa nos jardins do Palácio Itaboraí, sede da Fiocruz na cidade, lembrando o Medawar petropolitano. Entidades culturais e de ensino em geral não podem ficar distantes de demonstrações de orgulho como essa.
   Vivemos hoje o fim da incompetência, o fim da proteção econômica que permitia um tolo dirigir a seu modo um empreendimento. Vivemos uma realidade em que o tempo e o dinheiro têm o seu valor garantido. Aquele que vem de classes mais simples está se aplicando como nunca. Se podemos ter um Prêmio Nobel por perto, também podemos usá-lo como estímulo, como referência. Já foi tentada a entrada de alguns dos nossos notáveis na lista dos Nobel, como Rondon, Drummond, Noel Nutels e os quatro irmãos Villas-Boas. Mas eles morreram antes de serem considerados. Zilda Arns, coordenadora nacional da Pastoral da Criança, também já foi lembrada. Mas há outros. Temos que tentar.




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