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Rotary entrou na vida de Danny Brock com uma oferta que ele simplesmente
não poderia recusar. Em 1988, os sócios do RC de Bountiful,
em Utah, nos EUA, aceitaram Danny – um líder escoteiro
e co-proprietário de uma firma de vendas e instalação
de clarabóias, então com apenas 30 anos – para participar
de um Intercâmbio de Grupos de Estudos na Escócia. Seis
semanas mais tarde, ele escreveria um relatório apaixonado que
capturava a essência do IGE: promover a boa vontade através
da exposição de jovens profissionais a diferentes culturas.
O relatório levou o governador do distrito 5420 a convidá-lo
para se tornar sócio do RC de Centerville-Farmington, e a oferecer-lhe
um lugar na Comissão Distrital de IGE, uma indicação
valiosa para alguém tão jovem. Sua condução
à governadoria do distrito com apenas 44 anos, que não
chegou a ser uma surpresa para ninguém, tornou-o um dos três
mais jovens governadores no ano rotário 2001-02. Atualmente,
Danny Brock é sócio do RC de Salt Lake City.
“Antes daquela viagem à Escócia”,
ele diz, “eu pensava que o Rotary não era a minha. Achava
que estava reservado aos McDonnells e aos Douglas”. Esta referência
é um eco de sua infância em Huntington Beach, perto de
Long Beach, na Califórnia, onde seu pai construía aviões
para a McDonnell-Douglas. “Meu pai era um doador nato”,
recorda. “Desde que soube que no Rotary também se doa,
ele logo quis participar.” Mas, acrescenta Danny, os clubes locais
pareciam nunca ter uma vaga: “Por isso aceitei ser um rotariano
assim que fui convidado. Era uma forma de homenagem ao meu pai”.
Mesmo
sem nunca ter sido um rotariano, Charlie – o pai de Danny
– acabou desempenhando um importante papel na vida rotária
do filho ao participar de uma experiência familiar que demonstrou,
segundo as palavras de Danny Brock, “o fenomenal poder do Rotary
em influir positivamente nas vidas das pessoas”.
Em 1991, Danny e sua mulher Kelly, uma enfermeira
que trabalha em partos, voluntarizaram-se para hospedar um jovem intercambiado
do Japão. Havia, porém, uma dificuldade. Charlie Brock
tinha se alistado no exército norte-americano logo depois do
ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, episódio
que levou os EUA à Segunda Guerra Mundial.
Dois anos depois, como membro da 81ª Divisão
“Wildcat” de Infantaria do exército, ele integrou
um grupo que iria em direção à ilha de Angar, no
Sul do Pacífico. A missão deles era ocupar a ilha e construir
uma pista de pouso. Duzentos e cinqüenta soldados desembarcaram
no local, acreditando que a ilha estava abandonada. No entanto, à
medida que avançavam terra adentro, eles toparam com minas enterradas
nas colinas. Subitamente, uma dúzia de carros de assalto emergiu
da entrada das minas, carregados de soldados japoneses armados de metralhadoras.
Sob fogo cerrado, Charlie Brock carregou seus companheiros feridos,
um de cada vez, de volta à praia – até que ele mesmo
não conseguiu resistir aos ferimentos que havia sofrido.
Mais
tarde, Charlie ficou sabendo que tinha sido um dos poucos sobreviventes
da missão. Seus atos valeram-lhe a Medalha de Bronze por Bravura,
e ele também recebeu três Corações Púrpuras
pelos ferimentos que teve. Mas Charlie jamais se curaria das feridas
emocionais provocadas por aquela experiência .
“Avancemos até 1991”, diz Danny,
“e me imaginem contando às pessoas mais próximas:
‘Vamos hospedar um jovem japonês’. Meu pai avisou:
‘Ele jamais colocará os pés em minha casa’”.
“Nunca pensei que aquele homem pudesse ser rancoroso
em relação a qualquer pessoa, por isso me surpreendi tanto”,
admite Danny. Mas ele também compreendia aquele comportamento
ao recordar as muitas vezes em que seu pai acordava gritando, atormentado
pelos pesadelos da guerra. Para Charlie, os japoneses eram “o
inimigo”, e ele sempre evitou que sua família possuísse
carros, artigos eletrônicos ou qualquer outro produto fabricado
no Japão.
“E lá estava eu, pedindo-lhe que desse
as boas-vindas a um adolescente japonês em sua própria
casa”, conta Danny. “Eu lhe disse que aquele jovem nada
tinha a ver com a guerra, mas ele não se comovia”. No dia
marcado para que o visitante chegasse, Danny Brock fez mais uma tentativa,
dizendo ao pai que se ele não mudasse sua forma de pensar o estudante
passaria todo o seu estágio em Utah sem pôr os pés
na casa dos pais da família anfitriã.
Ouvindo aquilo, Charlie disse: “Traga o jovem.
Não pare no caminho, nem nas lojas. Traga-o diretamente para
cá. Quero vê-lo.”
“Fiquei perplexo”, Danny revela. Ele descreve
o jovem estudante Hoyu Shimamura como “um excelente menino”
que aprendeu que os membros de uma família norte-americana abraçam-se
uns aos outros e chamam seus avós de “vovô”
e vovó.” Tanto que, quando Danny e sua mulher chegaram
com Hoyu, o adolescente imediatamente saudou os pais deles com fortes
abraços e os gritos de “Vô!” e “Vó!”.
Danny
e Kelly prepararam-se então para a reação
de Charlie. “Meu pai disse calmamente: ‘Tudo certo, vamos
comer’”, ele recorda. “Observei meus pais encaminhando-se
para a cozinha com Hoyu entre eles. Kelly começou a chorar, e
eu quase fiz o mesmo. Sempre rezei para que meu pai um dia encontrasse
paz de espírito em relação àqueles acontecimentos
– e foi justamente aquele japonesinho quem a trouxe com ele”.
“Mais tarde,
perguntei ao meu pai porque ele se abrandara, e ele me respondeu
que estava cansado do ódio que havia carregado por todos aqueles
anos.” Danny recorda-se bem de sua mulher perguntando-lhe se ele
compreendia “que tudo aquilo que estava acontecendo devia-se ao
Rotary”.
Hoyu esteve com os Brocks por cinco meses, e desde
então Charlie não teve mais pesadelos. “Acho que
nem milhares de dólares gastos em terapia teriam operado uma
mágica como aquela”, desconfia Danny. “A chegada
de um adorável jovem japonês curou num só instante
uma ferida que estava aberta havia 50 anos – e mudou toda a vida
da minha família”.
Atribuindo aquela “mágica” ao Rotary,
Danny Brock e sua mulher redobraram seu entusiasmo em relação
ao Ideal de Servir. Kelly, por exemplo – atualmente sócia
do RC de Centerville-Farmington – visitou a África por
três vezes para executar projetos rotários. Ela se engajou
inteiramente junto ao Hospital da Fístula, situado em Adis Adeba,
na Etiópia, e dirigido pela cirurgiã australiana Catherine
Hamlin. Lá são tratadas jovens mães – muitas
delas ainda adolescentes – que têm fístula obstétrica,
um mal que ocorre quando o feto rompe um orifício no canal do
nascimento, causando muitas vezes uma incontinência urinária
crônica.
A equipe da doutora
Hamlin atende a mais de 1.000 mulheres todos os anos. Quando
voltou para casa, Kelly Brock começou a produzir colchas destinadas
às pacientes da doutora Hamlin. Ela também costuma falar
em público sobre sua viagem e recolhe centenas de dólares
em doações para o hospital.
Desde a visita de Hoyu, os Brocks hospedaram mais
dois intercambiados do México, um da Holanda e outro do Brasil.
Em 1997, Molly – a filha do casal, atualmente com 25 anos –
decidiu passar pela mesma experiência. Pertencente à Igreja
Mórmon e aluna da Escola Secundária de Bountiful, ela
cursou a última classe do nível secundário numa
instituição educacional católica de Mazatlan, no
México. No ano passado, Joe – o filho mais jovem dos Brocks,
com 17 anos – passou duas semanas reconstruindo toaletes e instalando
cercas na Escola para Surdos de Ngala, no Quênia, como parte do
Juventude Linc, um programa de serviços voluntários voltado
aos adolescentes e patrocinado pelos clubes rotários de Utah.
“A viagem proporcionada pelo Rotary serviu-lhes muito”,
diz Danny. “As lições que eles aprenderam sobre
a vida e sobre si mesmos permanecerão para sempre. Isso jamais
teria acontecido se não tivéssemos hospedado todos aqueles
intercambiados durante tantos anos”, declara. “Meus filhos
acham perfeitamente normal receber estrangeiros de todos os lugares
do mundo em nossa casa”.
Treze anos depois,
ao refletir sobre o impacto causado pela visita de Hoyu, Danny afirma:
“O Rotary fala sobre Dar de Si Antes de Pensar em Si. Mas o serviço
prestado por Hoyu aconteceu sem que ele mesmo percebesse. Aprendi naquele
dia uma lição preciosa: você nunca sabe o que pode
acontecer ao se destacar. E é isso que o Rotary faz, não
é? Compareça às reuniões, participe dos
projetos, preste serviços, ajude alguém. O mundo sempre
melhora todas as vezes em que os rotarianos deixam a sua marca. Depois
que o meu pai abraçou Hoyu naquele dia, eu disse a Kelly: ‘Quer
saber? Eu sempre serei um rotariano. Servirei sempre. Doarei sempre”. |