Fale conosco Últimas notícias Conheça o Rotary Chat Página inicial

A idéia republicana no Brasil

  Francisco de Souza Brasil

Fator gerador da independência nas colônias da América, a república representava uma ameaça à
unidade territorial brasileira.

emancipação das colônias européias na América se operou através do modelo republicano. Isto porque a tradição monárquica era a característica das metrópoles contra as quais as independências se afirmavam. Não foi o elemento autóctone que promoveu as emancipações. Houve uma única tentativa, no Peru, logo esmagada pelos brancos, quando o índio Tupac Amaru se autoproclamou Inca – aventura que se diluiu no garrote e nas fogueiras do Santo Ofício.
   A luta seria travada entre os europeus de nascimento e seus descendentes americanos de não muitas gerações. Estes eram os chamados criollos, uma designação que pode levar ao equívoco de considerá-los mestiços, o que não eram – nem na língua, nem na cultura, nem na cor ou na simpatia pelos que aqui estavam quando chegaram seus pais ou avós.
   A independência das Treze Colônias da América do Norte, em 1776, foi a fonte inspiradora das demais independências na América Latina. No Brasil, pode-se identificar neste episódio a gênese da idéia republicana, à qual a Revolução Francesa também foi referência.
   Assim, tivemos em 1817 a Revolução Pernambucana, e em 1824, já independentes, a Confederação do Equador. Da mesma forma, ocorreu o levante baiano de 1837, conhecido por Sabinada, cujo manifesto – datado de 7 de novembro daquele ano – clamava contra o “despotismo político e financeiro” do Governo Imperial. E ainda, e principalmente, a Revolução Farroupilha, que pretendia dotar a sua República de Piratini de uma constituição – que não chegou a sair do projeto – nitidamente influenciada pela Constituição Norte-Americana.

      Ameaça caudilha
   O que caracterizava essas sedições era, além do republicanismo, o separatismo: os movimentos do Nordeste queriam emancipá-lo do Brasil. O do Sul abria a República de Piratini à adesão de outras províncias que compunham o Império, como se sugerisse uma Confederação de Estados.
   Tais modelos, vitoriosos na América Espanhola, a conduziram ao caudilhismo. A unidade não fora possível, como a desejavam os “libertadores” San Martin, Bolivar, Sucre e O'Higgins. A Confederação Argentina era tão precária que, décadas depois, ao se aliar ao Brasil contra a agressão paraguaia, ainda lá havia guerra civil.
   Como entre nós a independência foi proclamada pelo próprio herdeiro da Coroa, a forma monárquica foi a garantia de uma unidade que nossos vizinhos não conheceram. E evitamos que o caudilhismo, que ensangüentava a América Espanhola, se produzisse aqui.
   Associávamos a idéia republicana a uma “utopia federativa” – porque todos os nossos vizinhos falharam em construí-la – que evoluiria para uma confederação. Lamentavelmente, os fatos que ocorriam em torno de nós comprovavam esse medo, que resultaria na destruição da nossa própria unidade. Nem os Estados Unidos escaparam dessa tendência centrífuga: entre 1861 e 1865, tiveram a sua Guerra de Secessão, onde – a ferro e sangue – a união territorial foi salva, impondo-se ao Sul Confederado o centralismo necessário a um Estado que se pretendesse poderoso no futuro. Isso à custa de uma luta de dimensões que o Brasil nunca conheceu em toda a sua história: todos os nossos mortos em guerras internas e externas, inclusive as baixas da FEB na Itália, não chegam nem à metade dos que tombaram naquela hecatombe fratricida.

      Monarquia dispensada
   Mas a idéia republicana, apesar de impopular, permaneceu subjacente. O Império mantinha um sistema político artificial, com um bipartidarismo sem nenhuma substância, cuja alternância no poder se produzia pela vontade de um sábio monarca, que se substituía aos políticos naquilo que estes, por incompetência ou mesquinhez, não sabiam – ou não queriam – produzir.
   O republicanismo reaparece com algum vigor no Manifesto Republicano, que funda em São Paulo um partido de âmbito provincial. Paralelamente, a Monarquia se enfraquecia – porque, no Brasil, as instituições envelhecem com os seus titulares. Dom Pedro II envelhecia e, junto com ele, o Império.
   Não havia outro império nas Américas. Éramos diferentes – para pior ou para melhor, não interessava. O ideal republicano se alimentou de tal dissimetria. Mas o fator decisivo na proclamação da República foi a pregação do positivismo no Exército. Benjamin Constant está para a República assim como José Bonifácio está para a independência.
   A “Religião da Humanidade”, como também ficou conhecido o positivismo, conquistou corações e mentes nas Faculdades de Direito, que – no entanto – não tinham grande influência na época. Mas o coronel Benjamin Constant, professor da Academia Militar, doutrinou a oficialidade – e, com seu brilho, a conquistou.
   Atribui-se a Napoleão o dito de que “uma revolução é uma opinião que encontrou escoras nas baionetas”. As nossas baionetas, em 15 de novembro de 1889, não mataram ninguém. Apenas dispensaram o serviço que o monarca prestara durante cinqüenta anos, nos quais havíamos tido – pela primeira e, até hoje, única vez – paz interna. Neste mês de novembro, homenageamos os 115 anos da Proclamação da República.




| Voltar | Principal | Rotary | Notícias | E-mail |

© Copyright 2002 - Revista Brasil Rotário