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professor Eduardo Portella é ex-ministro da Educação,
Cultura e Esporte, presidente do Fundo Internacional de Promoção
e Cultura da Unesco, em Paris, e membro da Academia Brasileira de Letras.
Em sua palestra na mesa redonda sobre as conjunturas sociopolítica
e econômica brasileiras realizada pela Brasil Rotário
no dia 18 de março – que reproduzimos resumidamente nas
páginas a seguir – Portella debateu os desafios do nosso
país no campo da educação e da cultura e avaliou
a importância desses instrumentos de desenvolvimento num mundo
que investe cada vez mais no conhecimento e nas novas tecnologias.
questão
da educação assume um papel fundamental no Brasil e no
mundo atuais. Além dos papéis tradicionais que sempre
teve – de formação de geração e de
quadros – a educação é o instrumento com
o qual nos situamos devidamente no cenário da competição
internacional, porque nunca na história da humanidade o nacional
foi tão internacional.
Falar da educação em um mundo globalizado
abrange um espectro formador onde tudo é prioritário.
Nós não podemos e não devemos falar em privilegiar
o ensino superior ou as estruturas básicas, pois existe uma conexão
profunda entre eles. Se as estruturas básicas não funcionam,
começa a haver uma espécie de ‘defeito de fabricação’
nas estruturas superiores – e é por isso que insisto em
valorizar inclusive a pré-escola. Os índices de repetência,
a evasão e o abandono que se verificam ao longo do ensino fundamental
se devem, na maioria das vezes, à ausência de um pré-escolar
satisfatório. A educação é, portanto, um
caminho que vai da pré-escola à pós-graduação.
Para ser levado a bom termo, um programa educacional
deve ser democrático, propositivo e transformador. Democrático
no sentido de atingir camadas diversas e diversificadas da população
brasileira, pois não acredito em reforma que não assuma
esse compromisso transformador e esse alargamento democrático.
Isso significa também que educação e cultura são
coisas que se interconectam. Na verdade, se nós pensarmos bem,
a educação é um processo de transmissão
cultural. Já a cultura é a educação transescolar,
porque pode estar em diferentes recintos e não exatamente numa
sala de aula ou num estabelecimento de ensino, mas nos discos, nas músicas,
nos espetáculos teatrais ou cinematográficos, que não
têm exatamente um espaço fixo, determinado, insubstituível
– e que podem acontecer e ampliar o espaço da sala de aula.
Por isso tenho dúvidas quanto a uma educação que
não inclua a cultura ou que não pense simultaneamente
estratégias combinadas de cultura e educação.
Política
de cotas e profissionalização
O compromisso educacional envolve, inevitavelmente,
a qualidade. É necessário também que haja uma reflexão
técnica com alta taxa de legitimidade. Para isso é preciso
estabelecer pré-requisitos precisos e negociados. Isso significa
que as coordenadas devem ter seu desenho mais ou menos nítido,
resultante de um diálogo o mais amplo possível, com as
representações legítimas ou as emergentes, em alguns
casos. Se olharmos com um pouco de rigor o panorama recente da educação
brasileira, vamos perceber que o ensino fundamental continua entregue
ao ‘ocioso debate federativo’ – expressão que
utilizo para não dizer uma outra, popular e mais dura, que é
o ‘jogo de empurra’, disputado entre a federação,
os estados e os municípios. Depois nós vamos perceber
que o ensino fundamental tem sido grandemente responsável pela
discriminação social, pois ele é congenitamente
produtor de desigualdades. E porque não funciona satisfatoriamente,
precisamos de políticas de cotas. Se o ensino fundamental funcionasse
verdadeiramente, a política de cotas estaria estabelecida de
uma maneira natural, sem nenhuma pressão de nenhum tipo. Dessa
maneira, tentamos corrigir uma falha com uma segunda falha.
O mais conveniente seria talvez abrir o leque da oferta
educacional, com profissionalização já no ensino
médio e formação no superior. Podemos conseguir
níveis substanciais, necessários e fundamentais de profissionalização
antes do ingresso à universidade – uma exigência
da urgência do processo social brasileiro. Essa velocidade quase
que exclui o longo prazo. Às vezes tenho vontade de afirmar enfaticamente
– mas preciso pensar um pouco mais para afirmá-lo –
que no Brasil não existe longo prazo. Vivemos num país
com os prazos basicamente vencidos.
A
universidade brasileira
Por que a universidade brasileira está tão
perplexa, quase perdida? Ela se debate interminavelmente entre a nação
e o mundo. O conhecimento deve estar a serviço da nação,
mas é normal que estabeleça intercâmbios, formas
de cooperação, modalidades de atualização
com o mundo. Então esse diálogo entre nação
e mundo é necessário, não precisa ser prejudicial.
Temos também um outro debate, que gira em torno
do público e do privado. Essa discussão ignora, em primeiro
lugar, as possibilidades reais de investimento do Estado brasileiro.
Em segundo, que o ensino público é aquele que está
comandado por um espírito público. Se a universidade privada
for capaz de desenvolver, de desdobrar, de obedecer a um espírito
público, não será necessariamente privada. O que
faz a diferença é a qualidade, e a qualidade desertou.
Com faculdades não implementadas tecnicamente, professores desestimulados
e alunos mais ou menos perdidos, fica difícil se esperar uma
universidade correspondente às necessidades atuais do Brasil.
Um outro nível de perturbação
questiona valores como o virtuoso e o virtual. O virtual se empenha
em reduzir ou eliminar o virtuoso, quando nós devíamos,
pelo contrário, levar o virtuoso para o virtual – e fazer
até um acordo de paz, se possível, em que um alimentasse
o outro. Nosso humanismo zeloso, porém nostálgico, não
tem sabido saltar esse precipício. Deixa que a sociedade de redes
acrescente à exclusão social uma outra: a exclusão
digital.
Preocupada em nos ensinar a comprar e a vender, nossa
educação deixa de ampliar o espaço de construção
da personalidade individual, deixa de nos ensinar a viver juntos, uma
lição que vai desde as pequenas e privadas relações
interpessoais até a compreensão e a necessidade de paz
no mundo. Daí a posição modesta que o Brasil ocupa
na cena internacional. Mas estou certo de que com a multiplicação
de diálogos como esse, promovido pela Brasil Rotário,
poderemos alertar a nossa sociedade, a nossa história e o nosso
possível protagonismo mundial para determinadas necessidades
que são inadiáveis em nosso país.
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