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Paz: um tema sempre atual

   Roberto Petis Fernandes

Mas o simples enunciado dos tratados internacionais não será capaz
de levar a bom termo os ditames da convivência fraterna e solidária

esforço pela conquista da paz em todo o mundo – uma das grandes e permanentes bandeiras do Rotary – passa, necessariamente, pela compreensão das diferenças, pelo respeito às individualidades e por uma elevada e consistente dose de entendimento e de tolerância, onde não cabe qualquer tipo de restrição étnica, política ou cultural.
   Em seu constante esforço pela paz, nossa organização lançou um programa de bolsas de estudo voltado à promoção da paz e à resolução de conflitos, reunindo estudantes de diversos países. O primeiro bolsista brasileiro desse programa foi o médico carioca David Oliveira de Souza, que fez seu mestrado no Instituto de Estudos Políticos de Paris, mais conhecido como Sciences Po. Desde então ele tem sido um freqüente orador em vários Rotary Clubs do Brasil e do exterior.
   Dei também minha modesta contribuição a esses esforços na oportunidade em que, por indicação do hoje diretor do RI Carlos Enrique Speroni, fui o orador sobre esse importante tema na Universidade de El Salvador, em Buenos Aires, tendo como ouvintes os membros dos corpos discente e docente dessa renomada instituição de ensino.
   A sociedade tem passado por dolorosas experiências que ceifaram e ainda ameaçam milhões de vidas em nome do poder material perseguido por títeres descompromissados com a solidariedade e com a fraternidade entre os povos. Como se a felicidade fosse possível alcançar pela força bélica, inibidora de movimentos físicos, mas totalmente incapaz de subjugar mentes e corações. Dela ficam, apenas, as seqüelas da violência, que nada constroem e tudo destroem, deixando apenas as ruínas como testemunhas dos desvarios e da insensatez que costumam comandar as ações beligerantes.
   Desde a origem do mundo até os dias atuais, muitas foram as tentativas de dominar os homens por meio de processos cruéis e hediondos, que deixaram indesejáveis marcas de destruição em várias civilizações. Nenhuma, entretanto, logrou êxito – o que deveria servir de lição para tantos quantos valorizam a barbárie em detrimento da vida, o bem maior que nos foi concedido pelo Criador.
   Dizia o ministro e economista Roberto Campos, mestre das frases precisas e dos prognósticos seguros, que “todos os homens são iguais, ressalvadas as diferenças”. Estas precisam ser respeitadas em nome da desejada harmonia entre os habitantes do planeta.

   Panorama histórico
   Vida e paz formam o maravilhoso binômio que acalenta os princípios doutrinários do Rotary em todas as suas ações, sempre direcionadas para a melhoria das condições de bem-estar coletivo. Buscando chegar ao ideal definido pelos lexicógrafos como “estado tranqüilo de um povo, de uma nação, que não tem inimigo a combater. De estar em paz com a consciência e ter a convicção de haver procedido bem”.
   Mostram os ensinamentos enciclopédicos que, somente no final da Idade Média, filósofos e estadistas de vários matizes ideológicos começaram a refletir sistematicamente sobre a importância da paz. Porém, as tentativas de ação deliberada para colocá-la em bases seguras só se concretizaram no começo do século 19.
   A religião, a filosofia do Século das Luzes e a teoria política do liberalismo – ou “liberismo”, como preferia o saudoso pensador e acadêmico José Guilherme Merchior – postularam o respeito pela vida e pelo bem-estar humano, contribuindo, assim, para as tentativas de encontrar-se um fundamento estável para a convivência harmoniosa internacional.
   As desastrosas experiências das duas Guerras Mundiais, ocorridas entre 1914-18 e 1939-45, e outras incursões menos globalizadas mostram o perigo da insensatez e do desequilíbrio quando apoiados em poderosas indústrias de armamentos, cuja força de destruição já não encontra parâmetros de mensuração.
   O movimento mais importante de salvaguarda internacional concretizou-se através da criação da Liga das Nações – que tinha como um de seus principais alvos o desenvolvimento da cooperação entre os países – e da ONU, cujo compromisso maior está na manutenção da paz e da segurança internacionais.
   Quando decidi o tema em questão, lembrei-me de consultar o livro “O Rotary e a Paz” – uma coletânea de textos referenciais publicados na revista Brasil Rotário – que reúne 55 artigos num cenário preciso e abrangente das ações da fraternidade universal.
   Editado em outubro de 2002, o livro teve como objetivo primeiro servir de apoio aos participantes do 10º Concurso de Monografias, intitulado “O Rotary e a Paz” e promovido pela Cooperativa Editora Brasil Rotário, que tenho a responsabilidade de presidir. Trezentos trabalhos concorreram ao prêmio de R$ 5.000,00 que teve como vencedora a professora Geci do Amaral Freitas, de Sete Lagoas, MG.

   La Paloma
   Paradoxalmente, a marca universal da paz – a pomba branca – nasceu da genialidade de uma das maiores expressões das artes plásticas, à época engajada ao Partido Comunista: o pintor espanhol Pablo Ruiz Picasso, que em 1949 entregou a litografia “La Paloma” para servir de símbolo do Congresso pela Paz, realizado na capital francesa sob os auspícios do Partido Comunista.
   Pouco depois, em 1954, ainda sob a mesma temática pacifista que adotou na militância comunista, Picasso concluiu “Guerra e Paz”, monumental pintura em madeira que cobre uma área de 125 metros quadrados no Temple de La Paix, em Vallauris, nas cercanias de Paris.
   Não é difícil identificar e encontrar o instrumental jurídico garantidor da paz entre os diversos segmentos da humanidade. Ele existe, integra a constituição de quase todos os países e está presente na doutrina da maioria dos credos religiosos. Mas não se deve imaginar que o simples enunciado dos tratados, das convenções e dos catecismos será capaz de levar a bom termo os ditames da convivência fraterna e solidária.
   À sombra das regras e do comportamento ético, deve estar a decisão de pugnar pela redução das desigualdades – embora isto não signifique a pasteurização da sociedade – criando-se o ambiente adequado para o florescimento de um clima condizente com os preceitos e o exercício da responsabilidade social. Que não é atribuição, apenas, das organizações oficiais, das empresas e das entidades de apoio aos cidadãos. Porque deve estar presente na consciência de cada um de nós, como o lema que preside as ações do Rotary: Servir.




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