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o simples enunciado dos tratados internacionais não será
capaz
de levar a bom termo os ditames da convivência fraterna e solidária
esforço
pela conquista da paz em todo o mundo – uma das grandes e permanentes
bandeiras do Rotary – passa, necessariamente, pela compreensão
das diferenças, pelo respeito às individualidades e por
uma elevada e consistente dose de entendimento e de tolerância,
onde não cabe qualquer tipo de restrição étnica,
política ou cultural.
Em seu constante esforço pela paz, nossa organização
lançou um programa de bolsas de estudo voltado à promoção
da paz e à resolução de conflitos, reunindo estudantes
de diversos países. O primeiro bolsista brasileiro desse programa
foi o médico carioca David Oliveira de Souza, que fez seu mestrado
no Instituto de Estudos Políticos de Paris, mais conhecido como
Sciences Po. Desde então ele tem sido um freqüente orador
em vários Rotary Clubs do Brasil e do exterior.
Dei também minha modesta contribuição
a esses esforços na oportunidade em que, por indicação
do hoje diretor do RI Carlos Enrique Speroni, fui o orador sobre esse
importante tema na Universidade de El Salvador, em Buenos Aires, tendo
como ouvintes os membros dos corpos discente e docente dessa renomada
instituição de ensino.
A sociedade tem passado por dolorosas experiências
que ceifaram e ainda ameaçam milhões de vidas em nome
do poder material perseguido por títeres descompromissados com
a solidariedade e com a fraternidade entre os povos. Como se a felicidade
fosse possível alcançar pela força bélica,
inibidora de movimentos físicos, mas totalmente incapaz de subjugar
mentes e corações. Dela ficam, apenas, as seqüelas
da violência, que nada constroem e tudo destroem, deixando apenas
as ruínas como testemunhas dos desvarios e da insensatez que
costumam comandar as ações beligerantes.
Desde a origem do mundo até os dias atuais,
muitas foram as tentativas de dominar os homens por meio de processos
cruéis e hediondos, que deixaram indesejáveis marcas de
destruição em várias civilizações.
Nenhuma, entretanto, logrou êxito – o que deveria servir
de lição para tantos quantos valorizam a barbárie
em detrimento da vida, o bem maior que nos foi concedido pelo Criador.
Dizia o ministro e economista Roberto Campos, mestre
das frases precisas e dos prognósticos seguros, que “todos
os homens são iguais, ressalvadas as diferenças”.
Estas precisam ser respeitadas em nome da desejada harmonia entre os
habitantes do planeta.
Panorama
histórico
Vida e paz formam o maravilhoso binômio que
acalenta os princípios doutrinários do Rotary em todas
as suas ações, sempre direcionadas para a melhoria das
condições de bem-estar coletivo. Buscando chegar ao ideal
definido pelos lexicógrafos como “estado tranqüilo
de um povo, de uma nação, que não tem inimigo a
combater. De estar em paz com a consciência e ter a convicção
de haver procedido bem”.
Mostram os ensinamentos enciclopédicos que,
somente no final da Idade Média, filósofos e estadistas
de vários matizes ideológicos começaram a refletir
sistematicamente sobre a importância da paz. Porém, as
tentativas de ação deliberada para colocá-la em
bases seguras só se concretizaram no começo do século
19.
A religião, a filosofia do Século das
Luzes e a teoria política do liberalismo – ou “liberismo”,
como preferia o saudoso pensador e acadêmico José Guilherme
Merchior – postularam o respeito pela vida e pelo bem-estar humano,
contribuindo, assim, para as tentativas de encontrar-se um fundamento
estável para a convivência harmoniosa internacional.
As desastrosas experiências das duas Guerras
Mundiais, ocorridas entre 1914-18 e 1939-45, e outras incursões
menos globalizadas mostram o perigo da insensatez e do desequilíbrio
quando apoiados em poderosas indústrias de armamentos, cuja força
de destruição já não encontra parâmetros
de mensuração.
O movimento mais importante de salvaguarda internacional
concretizou-se através da criação da Liga das Nações
– que tinha como um de seus principais alvos o desenvolvimento
da cooperação entre os países – e da ONU,
cujo compromisso maior está na manutenção da paz
e da segurança internacionais.
Quando decidi o tema em questão, lembrei-me
de consultar o livro “O Rotary e a Paz” – uma coletânea
de textos referenciais publicados na revista Brasil Rotário –
que reúne 55 artigos num cenário preciso e abrangente
das ações da fraternidade universal.
Editado em outubro de 2002, o livro teve como objetivo
primeiro servir de apoio aos participantes do 10º Concurso de Monografias,
intitulado “O Rotary e a Paz” e promovido pela Cooperativa
Editora Brasil Rotário, que tenho a responsabilidade de presidir.
Trezentos trabalhos concorreram ao prêmio de R$ 5.000,00 que teve
como vencedora a professora Geci do Amaral Freitas, de Sete Lagoas,
MG.
La
Paloma
Paradoxalmente, a marca universal da paz – a
pomba branca – nasceu da genialidade de uma das maiores expressões
das artes plásticas, à época engajada ao Partido
Comunista: o pintor espanhol Pablo Ruiz Picasso, que em 1949 entregou
a litografia “La Paloma” para servir de símbolo do
Congresso pela Paz, realizado na capital francesa sob os auspícios
do Partido Comunista.
Pouco depois, em 1954, ainda sob a mesma temática
pacifista que adotou na militância comunista, Picasso concluiu
“Guerra e Paz”, monumental pintura em madeira que cobre
uma área de 125 metros quadrados no Temple de La Paix, em Vallauris,
nas cercanias de Paris.
Não é difícil identificar e encontrar
o instrumental jurídico garantidor da paz entre os diversos segmentos
da humanidade. Ele existe, integra a constituição de quase
todos os países e está presente na doutrina da maioria
dos credos religiosos. Mas não se deve imaginar que o simples
enunciado dos tratados, das convenções e dos catecismos
será capaz de levar a bom termo os ditames da convivência
fraterna e solidária.
À sombra das regras e do comportamento ético,
deve estar a decisão de pugnar pela redução das
desigualdades – embora isto não signifique a pasteurização
da sociedade – criando-se o ambiente adequado para o florescimento
de um clima condizente com os preceitos e o exercício da responsabilidade
social. Que não é atribuição, apenas, das
organizações oficiais, das empresas e das entidades de
apoio aos cidadãos. Porque deve estar presente na consciência
de cada um de nós, como o lema que preside as ações
do Rotary: Servir. |